Racismo enquanto linguagem

Maurício Piccini
Nov 29 · 2 min read

Rodrigo Constantino, em coluna na edição de fim de semana (9 e 10 de novembro) da Zero Hora (e tenho certeza que reproduzida em diversos outros jornais), recai na falácia racista de definir negritude enquanto tom de pele. O colunista interpreta uma chamada para entrevista da filósofa Djamila Ribeiro como se ela indicasse que Mein Kampf pudesse ser um livro melhor caso o autor tivesse passado uma temporada tomando sol em Ibiza antes de escrevê-lo.

Talvez seja mesmo um paradoxo que a luta contra o racismo necessite do uso da linguagem racista para destruí-lo. Se disséssemos “as pessoas não estão chegando à Universidade proporcionalmente a suas condições socioeconômico-culturais”, um racista simplesmente trataria de ajudar descendentes de italianos e alemães pobres do centro do Estado a ter um Curso Superior.

É evidente a necessidade da palavra “negros” para indicar quem Djamila Ribeiro sugere como leitura. Tivesse o colunista ao menos lido a reportagem que mencionou, em vez de preferido a conotação racista desta ou daquela expressão, saberia que a filósofa foi didática em exemplificar a leitura do “outro” enquanto fonte de conhecimento acerca de experiências de vida em suas individualidades.

Estou interpretando errado o que Rodrigo Constantino quis dizer? Em caso de dúvidas, o colunista ilustra sua interpretação para “autores negros” com Machado de Assis e outros autores a quem ele diz ler por serem bons autores, não por serem negros.

Machado foi resgatado como negro para o cânone da literatura há pouquíssimos anos. Fora, pois, embranquecido logo após sua morte pelos próprios membros da Academia que ajudara a fundar. “O Machado para mim era um branco e creio que por tal se tornava; quando houvesse sangue estranho isso nada alterava a sua perfeita caracterização caucásica”, escrevera Joaquim Nabuco.

A Machado fora negada sua negritude, fazendo com que se tornasse parte do cânone apenas ao não apresentar conteúdos que pudessem ser identificados com a experiência de ser do negro no Brasil segregacionista. Não é, portanto, possível ler sobre a experiência de ser negro na obra do pai da nossa Academia.

Racismo não é distinguir pessoas, mas escolher um grupo como o padrão pelo qual todos os outros devem ser medidos. Rodrigo Constantino, em sua cegueira autodeterminada, se decide incapaz de ver a experiência de vida de outros como diferentes da sua. Isso, sim, é racista.

Maurício Piccini

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