Resenha: O Homem Vazio, de Thiago Lee, e o Herói-Mané

Sem forças para agir no mundo

Maurício Piccini
May 24 · 9 min read

Atenção: isso é uma crítica/análise. Se você é o tipo de pessoa que se importa com bobagens tipo “spoilers”, vá ler o livro e só depois volte.

Começo dizendo que não sei classificar o protagonista de O Homem Vazio, talvez não tenham inventado uma classificação para este tipo de personagem. Então, eu vou chamá-lo de “herói-mané”. Dito isso, aqui vão os pontos principais:

  1. Não estou insultando o protagonista. Mas o herói ideal está do “outro lado”.
  2. Dizer que tem a ver com Neil Gaiman ou Eric Novello seria preguiçoso.
  3. É metáfora? Acho que, quando não tem explicação, é uma boa metáfora.

O Livro

O Homem Vazio foi publicado em 2018, pelo autor, Thiago Lee, com apoio do Edital de Publicação de Livros da Cidade de São Paulo, e a versão física tem 320 páginas.

Conta a história de Otto, um jovem que, além de se virar com as contas de casa onde mora com a mãe e a irmã, precisa solucionar uma trama de desaparecimentos com a ajuda de si mesmo — ou quase isso.

1 Não estou insultando o protagonista. Mas o herói ideal está do “outro lado”.

Existem alguns já clássicos de heróis: o Épico, o Trágico, o Trickster, o Pícaro, até o Anti-herói. O herói épico é quase uma força da natureza e na maioria das vezes é alguém que representa um povo. O herói épico já nasce sendo o herói que irá se tornar — predestinado a cumprir sua função — e evolui pouco ou nada na narrativa. No máximo, sua força cresce durante a história até que, por fim, reafirma os valores iniciais de seu povo.

O herói trágico é parecido, mas encontra problemas de identidade no meio de sua história. Ele possui os meios para cumprir sua missão, mas também possui uma falha moral que o impossibilita de cumpri-la em linha reta. O herói trágico precisa de desafios que o modifiquem e, nesses desafios, ele (na maioria das vezes) falha.

O herói trickster é basicamente um trapaceiro, alguém que vence por enganar os outros ou, do seu ponto de vista, por criar suas próprias regras. Pode ser brincalhão ou sombrio, mas é sempre impossível prever o que fará em seguida. Normalmente, representa a vitória pela inteligência. Seu caráter questionador provavelmente o fez ser visto como imoral na maioria das interpretações. Eu, particularmente, entendo que a inteligência está lá exatamente para questionar a moral. Talvez esse seja a função do trickster.

O herói pícaro é bem mais recente e possui duas interpretações: o pobre e o delinquente. Normalmente, o pícaro é as duas coisas. As histórias vividas pelos pícaros trazem determinismo social e pessimismo (nasceu pobre, nunca subirá na vida). Diferente do trickster, o pícaro não vence; está fadado a repetir os mesmos desafios e voltar ao lugar de origem.

O anti-herói é um termo que pode ser aplicado a outros tipos de herói, mas basicamente é usado para descrever aquele que não possui as virtudes que se espera do herói, seja constância moral, astúcia intelectual ou vigor físico. No entanto, ao contrário do que ocorre com o vilão, a narrativa é construída para aprovar as ações do anti-herói. Ou seja, ou seu objetivo é “bom” ou suas intenções são “compreensíveis” pelo público idealizado para a obra.

Já o herói de O Homem Vazio é, bem, um mané.

Otto, o herói

Explico: não estou reprovando suas atitudes de Otto em si ou minimizando os problemas pessoais e sociais apresentados no livro. Otto tem problemas normais: pagar contas, mãe doente, pai ausente, brigas com a irmã. Mas, ao mesmo tempo, ele não tem forças próprias para solucionar nenhum desses problemas.

— […] Ainda mais numa cidade como São Paulo, onde você pega metrô com as mesmas pessoas todos os dias, mas ninguém se conhece de verdade. Cada um cuida da sua vida, do seu próprio jeito, com a mão no bolso e a mochila na frente pra não ser roubado. E às vezes quem tá te roubando é seu vizinho. O cara que sonhou em ser jogador de futebol virou ladrão, a cantora acabou na prostituição e o futuro médico precisou trabalhar como motoboy e morreu atropelado. Não deixem seus sonhos ficarem presos no trânsito. Ainda mais pra quem mora na favela, onde se ficar, a droga come; se correr, a bala pega. (Personagem Otto, Capítulo Doze, O Homem Vazio, posição 1703 no Kindle)

A solução de Otto, se é que ele vê assim, é investir tempo em publicar seus vídeos na internet. Ele quer que sua opinião, sua voz seja suficiente. Talvez pense que mesmo sua voz não tem força e, se ela se multiplicar para outras pessoas, conseguiria vencer a inércia. Ou ele pode estar vendendo uma imagem do que gostaria de ser.

Se olharmos por esse lado, Otávio, a contraparte de Otto, vem a existir no mundo principal através da imagem projetada nos vídeos da internet. É só lá que podemos ver quem Otto gostaria de ser. E é isso que Otávio parece representar — aliás, é isso que o “lado de lá” parece representar, partes mais fortes das pessoas do lado de “cá”.

Eu não estou dizendo que as personagens do outro lado são “idealizadas”, porque isso é um chute longo demais. As personagens do outro lado ainda são as mesmas pessoas. O mendigo ainda é mendigo, Otávio ainda vive praticamente a mesma vida de Otto. Só parece que os problemas são menores — dá pra entender? Otávio é Otto se Otto tivesse menos problemas.

2 Dizer que tem a ver com Neil Gaiman ou Eric Novello seria preguiçoso.

O modelo de mundo não parece se encaixar no conceito de cidade paralela ou em cidade "de baixo". Os mundos ocultos, ctônios e fantásticos trazem na ficção um aspecto de liberdade — é “onde a magia acontece”. O mundo “do lado de lá” de Thiago Lee traz a relação de “duplo”.

Pense assim: Otto está desaparecendo, mas ele não desaparece e vai para a “São Paulo do lado de lá”; ele desaparece tendo como consequência o desaparecimento também de Otávio.

Na literatura, o “duplo” é um artifício para tratar a vida da personagem protagonista em comparação com sua potência. Ou, antes, como forma de demonstrar que ele poderia ter feito algo diferente, sendo por isso culpado de suas falhas. O duplo é sempre mais bem sucedido, mais inteligente, mais extrovertido, e, em geral, menos excrupuloso. É um exercício de narcisismo.

Não podemos admitir que seja por mero acaso, na mitologia grega ou em outra parte, que o significado mortal do Duplo esteja intimamente ligado ao narcisismo, porquanto sabemos que a ideia da Dupla Personalidade (sob todos e quaisquer pontos de vista) se originou completamente do amor à própria personalidade (RANK, O. O duplo. Tradução de Mary B. Lee. Rio de Janeiro: Coeditora Brasília, 1939, p. 124).

Por outro lado, o duplo, em estudos do simbolismo literário, está associado ao ego e ao impulso narcisístico da imortalidade — se nós falharmos, nosso duplo mais bem sucedido toma nosso lugar. É interessante que o duplo criado por Thiago Lee desapareça também. É como se o duplo literário simbolizasse a permanência das boas memórias que os outros têm de nós quando morremos, enquanto o duplo de O Homem Vazio (obra que trata de esquecimento) simbolizasse o desaparecimento de tudo: das boas e das más memórias.

Um exemplo do paralelo entre Otávio e a forma projetada nos vídeos de Otto se vê em:

Uma gota de suor escorreu pela minha testa enquanto seguia com aquela tortura em forma de vídeo. Quanto mais eu me via, mais eu percebia que aquele não era eu. Era como se eu me transformasse em outra pessoa, alguém que tinha os mesmos olhos cansados e nariz torto, mas que possuía uma autoconfiança que nunca tive.
Como se dentro de mim existisse um outro eu, reprimido, lutando para ganhar vida. (O Homem Vazio, posição 492)

3 É metáfora? Acho que, quando não tem explicação, é uma boa metáfora.

Depressão é um bom chute. A depressão corrompe a vontade de ser alguém melhor, bem como a identidade presente do sujeito. Se encaixa nas imagens de desconexão — estudos atuais tentam buscar correspondências entre depressão e falta de contato humano — principalmente na imagem na irmã que se tranca no quarto por dias e sai diferente.

Mas, ainda assim, seria simples. É o sistema social que está quebrado em O Homem Vazio. Não ocorre com uma ou outra personagem isoladamente, mas as pessoas são esquecidas por seus conhecidos, amigos e familiares. Há uma falta de conexão evidente entre as pessoas. Ao mesmo tempo em que Otto busca visualizações em seu blog, perde contato com a irmã. A socialização está fragmentada, os grupos sociais são hiperativos e sem foco.

Thiago Lee escolheu o título “homem vazio” para os desaparecimentos, não “homem invisível”. São ideias bem diferentes. Além disso, o sintoma (ou causa?) é ser esquecido pelas outras pessoas. Como articular essas três metáforas em uma única alegoria?

  • A vida vazia torna a pessoa “esquecível”?
  • Os amigos evitam a pessoa depressiva até que ela suma de suas vidas?
  • As pessoas “somem” porque se suicidam?
  • As pessoas não desaparecem de verdade, só são esquecidas; já que são esquecidas, não têm identidade e é como se desaparecidas fossem? (Viajei?)
  • O desaparecimento é uma metáfora para a identidade tribal líquida na pós-modernidade sob a ótima da filosofia pop de Bauman atualizada na perspectiva cybercultural tupiniquim…?!?

Ou minha articulação favorita:

  • A personagem é “cheia” da imagem que as outras pessoas têm dela? Logo, se as pessoas a esquecem, ela se esvazia e some?

O que isso nos diz?

Não sei o que se passava na cabeça do Thiago Lee quando escreveu O Homem Vazio, não entendo que seja isso que a crítica deve descobrir. Sei que a falta de explicação deixa aberta a possibilidade de interpretação das relações entre as personagens e das relações entre os símbolos do texto. E, nesse livro, além da história ser clara e bem escrita, as escolhas do autor funcionam bem para instigar o leitor a encontrar respostas. Quero dizer, pode não significar nada, mas com certeza dá espaço para pensar.

Como último comentário: isso tudo me lembra a literatura infantil da metade do século passado. Os autores criavam um “limiar” que a criança pudesse atravessar para entrar no mundo da fantasia. As crianças não tinham poder para alterar (ou processar psicologicamente) sua própria realidade, então atravessavam para um mundo mágico no qual podiam construir soluções para seus problemas. O herói-mané tem algo de infantil nesse sentido. Tal qual a crianças, ele precisa dos habitantes da São Paulo do lado de lá para ajudá-lo, porque, no mundo em que vive, não tem poder suficiente para gerar mudanças. Sintomas contemporâneos na literatura?


O Autor: Thiago Lee pode te contar quem ele é através dos podcasts Curta Ficção, Entreficções e Pavio Curto. Outros livros dele são Requiém para a Liberdade e Guerras Cthulhu. Para saber sobre outros trabalhos do Thiago Lee, acesse https://thiagolee.com.br.

Maurício Piccini

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