Sobre Universo Desconstruído II (crítica, all spoilers)

Atenção: isso é uma resenha. Se você é o tipo de pessoa que se importa com bobagens tipo “spoilers”, vá ler o livro e só depois volte.

O Universo Desconstruído retornou, em novo volume, ocupando os espaços da ficção científica através de “representação e representatividade”, nas palavras do prefácio de Jules de Faria, do Think Olga.

Ainda carregando a definição “ficção científica feminista”, o tema geral do livro está expandido. Mantém-se a tecnologia, como totem para entrarmos no mundo da ficção científica, mas as narrativas abarcam novos preconceitos, demolidos um após o outro. Uso preconceito no sentido amplo: concepções prévias, ideias fixas, mitos engolidos sem um bom copo de experiência pra acompanhar. Correndo por fora em cada texto, mas não menos importante, vemos um aproveitamento crescente do imaginário nacional — indígena ou importado, mas definitivamente contemporâneo — para construir um vocabulário ficcional próprio.

Como venho escrevendo nas outras resenhas, meu objetivo é ler a produção fantástica nacional, levando o texto a sério. Não é apenas decidir se gostei ou não. O objetivo aqui é entender como funciona, do que trata e como se coloca essa nossa produção de literatura. Para comparação, tenho a resenha do primeiro Universo Desconstruído, para ver o que há de diferente na temática e nas construções narrativas. Se comentei sobre "literatura adjetivada" na resenha do primeiro volume, o segundo parece ignorar os adjetivos.

O Livro

Universo Desconstruído Vol II, organizado por Aline Valek e Lady Sybylla, 2015, 50.000 palavras. Ilustração de capa por Theodore Guilherme.

Universo Desconstruído Vol. II, organizado por Aline Valek e Lady Sybylla, de 2015, 50.000 palavras.

A numeração das páginas é referência ao PDF que pode ser baixado de graça, agora, em site próprio.

A primeira impressão é a de que os escritores enlouqueceram. o primeiro texto é um poema. Lá adiante do livro há uma partitura musical perdida. Alguns contos têm numeração indicativa de subcapítulos. Alguns têm subtítulos. E ainda outros têm numeração e subtítulos. De cara, a forma atesta a diversidade do grupo de escritores. A questão de revisão parece pendente (na versão em PDF). Eu preferiria maior uniformidade na separação entre parágrafos, na escolha de fontes, no uso de aspas ou travessão. Mas, pensando bem, como pedir uniformidade de um livro que promove diversidade na ficção científica?

Corpo Escuro, de Jarid Arraes

Antes dos contos, o primeiro texto é poesia de cordel. Uso o termo cordel de forma ampla. As estrofes são septilhas, primeiro e terceiro versos livres, rimas entre 2–4–7, 5–6. A sonoridade é inconfundível. A temática é também marcada no estilo: uma mistura de expressões que soam formais com palavras corriqueiras e figuras de linguagem.

Com a tecnologia / A ciência então criou / Uma intervenção aguda / E por ela enfim cobrou / Um valor caro lascado / De dinheiro bem juntado / Que o povo desembolsou. (p. 9)

Eu não sou nem perto de especialista em cordel (ou poesia), e sei que às vezes imprecisões de ritmo e rima são um certo “charme” dessa arte; mas não consegui acompanhar alguns versos. Me faltou a prosódia. Alguém poderia gravar a leitura correta para ouvirmos. Seria mais fácil de acompanhar (pelo menos pra mim).

Gostei mais do texto em si do que da história. A construção narrativa é análoga ao mito clássico do aprendiz de mago, no qual o herói tenta ser algo que não é — através de algum objeto mágico — e descobre que a resposta correta seria deixar de querer ser o que não se é. É o uso do ritmo e da linguagem contemporânea que faz do texto tão bom de ler.

Ao invés de branquear / E mudar a pele escura / Que se crie um tratamento / Pra mudar a estrutura / Da mente robotizada / Pro racismo programada / Afundada na loucura. (p. 18)

Os Contos

Dos oito textos presentes no livro trago três, além de Corpo Escuro.

A Empresária que Vendia Sonhos, de Fábio Kabral

“Todo sonho tem seu preço”, diz a epígrafe.

A tecnologia do conto parece ser uma forma atualizada de substituir um poder mágico que a personagem já possui.

Sobre o que é? “[…] consequências para o plano onírico se Fayolah e sua mãe não…” temos pouco mais do que essas informações. O conto se apresenta como uma introdução ao universo de Fayolah Mwanga, a mulher alta, megaempresária que parece já ter escrito a própria história. entendo que a introdução seja a do universo de Afrofuturismo do autor, Fábio Kabral.

O texto apresenta frases excessivamente longas, que me deixam na dúvida sobre ser erro ou estilo. As maiores frases parecem ser: uma a da página 21, com onze linhas, e outra a da página 26, um parágrafo inteiro de uma frase em 12 linhas. Tem tudo para dar errado, mas não dá. As construções encadeadas contribuem para a sensação de ambiente onírico constante no texto.

Há a questão de excesso de informação em algumas partes, mas isso nem sequer ocorre nessas frases longas, ocorre em diálogos:

— Que bom que teve tempo para nos visitar neste humilde orfanato no Setor 5 — disse o homem alto que se chamava Fatouma — Achei que estivesse numa dessas conferências, passou hoje na televisão.
— Ah — disse Fayolah, sorrindo — Quer dizer que você resolveu acompanhar o trabalho da sua irmãzona? Fico feliz!
— Passou na televisão enquanto eu estava no escritório administrando este orfanato que você nos deixou. Você adora quando eu digo isto, não é? O orfanato que você mandou construir, e me colocou como administrador. Está feliz?

A personagem de Fayolah Mwanga apresenta-se poderosa enquanto acordada, firme, alta e altiva. Nos sonhos, ela luta contra tormentos seus e de outros. A partir da página 30, a descrição feita pelo narrador se torna mais concisa. Essa concisão parece criar um contraste entre descrição do mundo, onde vírgulas e ponto-e-vírgulas misturam pessoas e prédios, e a descrição do trabalho concentrado de Fayolah. Curto, pontual. Direto.

Quando Fayolah acordou, percebeu que estava na cama com os dois maridos. Estava no seu quarto, no meio da madrugada. Olhou para os dois maridos. Sorriu. Abraçou um e fez o outro a abraçar. Dormiu. Desta vez, de verdade. (pg. 39, penúltimo parágrafo do conto)

No parágrafo final, o narrador se dirige diretamente à Fayolah, prometendo o início de uma nova jornada para a personagem.

Boa noite Fayolah Mwanga. Amanhã, é um novo dia. (pg. 39, último parágrafo)

BSS Mariana, de Lady Sybylla

A primeira coisa que fiz ao ler BSS Mariana foi tentar fazer parte desse universo de imaginário de ficção científica nacional, escrevendo R/V Chalana (um pastiche de Sérgio Faraco com ficção científica, perdoem-me). A questão aqui é o gosto de ver referências de ficção científica com cara de que fazem parte do nosso território. Os nomes da nave "BSS Mariana" e do "estaleiro Maria Quitéria", a referência à “antiga Universidade de Brasília” e a descrição da sede da Brazil Space Co. trazem uma ótima sensação de familiaridade à leitura.

A sede da Brasil Space Co. ocupava mais de 500 km2 nos arredores de Brasília, tendo trens-bala conectados ao elevador de Alcântara e à Barreira do Inferno, no Rio Grande do Norte. (parte IV, página 60)

A história, contudo, acabou ficando em segundo plano agora quando penso o conto para falar sobre ele. Não porque não mereça atenção, mas porque a ambientação venceu a narrativa.

Em BSS Mariana, uma antiga nave espacial brasileira retorna à Terra com um sobrevivente, identificado como Sidney, que carrega os demais tripulantes inseridos e misturados em sua própria mente. A ficção científica em si está no uso da tecnologia de simuladores que deveriam distrair a tripulação ou manter a sanidade dos tripulantes em viagens longa. Até eu me cansei da minha explicação.

A ideia seria discutir como a personagem de Endyra reconhece ou aceita a condição de Sidney, a consciência que está na superfície desta pessoa que contém todas mentes dos outros tripulantes. Eu digo “a ideia seria”, porque o conto apresenta personagens fortes e variados o suficiente para que mais temas surjam. Aliás, ainda estaremos sofrendo assédio no local de trabalho quando a primeira leva das nossas naves espaciais retornarem para casa?

Em resumo: Lady Sybylla deveria investir em um Sybyllaverso. Vale criar um mundo futurístico brasileiro. Ou ao menos um Brazil Space Co. que não exploda com toda a pesquisa dentro, como o do mundo real.

Boneca, de Clara Madrigano

Boneca me parece um conto de terror. Mas a primeira relação que eu fiz foi com Superbrinquedos (Supertoys last all summer long), do Brian Aldiss.

A personagem principal se encontra presa nas mãos de um pervertido, na falta de palavra melhor. Tem pistas de que aquilo já aconteceu antes com outra jovem. Quando consegue escapar, descobre-se um robô, uma boneca com consciência. Não há discussão do assunto no texto. Há a justificativa, por parte do dono da boneca, de que é seu direito. Cada um teria suas preferências, e ele prefere imaginar que suas bonecas são jovens inocente aprisionadas.

Este conto talvez seja o que mais remete ao primeiro Universo Desconstruído. A história contém a discussão — mesmo que de forma implícita — própria da ficção científica, na forma do autômato consciente que sofre por capricho de seu dono. Ao mesmo tempo, esse autômato foi construído à imagem de uma mulher (ou menina) e pertence a um homem. "Pertence" como em "este carro me pertence", "esta TV me pertence".

Neste conto, estão presentes de forma exemplar dois temas: um próprio do feminismo, um próprio da ficção científica. O primeiro é a questão de evidenciar a mulher como objeto sexual e posse de um homem. O segundo é a questão dos limites da consciência por parte de autômatos e como isso não impede que os seres humanos causem sofrimentos a esses “objetos”. Vimos esse cruzamento de temáticas no primeiro Universo Desconstruído, e aqui ele volta sob nova perspectiva.

Já ouvi várias vezes, em especial ao se comentar obras como as de William Gibson, que trata de um futuro tão próximo ao nosso, como a ficção científica é um gênero no qual as obras já nascem datadas. A Boneca, deste Volume, junto com Eu, Incubadora e Meu nome é Karina, do primeiro Volume, servem para nos lembrar da onipresença das inúmeras variações das questões filosóficas clássicas da ficção científica. Questões que permanecem conosco por mais que as tecnologias de próteses biônicas, relógios comunicadores ou inteligência artificial se tornem ultrapassadas.

Autores

Espero ter encontrado os links corretos. Segue o texto sobre os autores contido no final do próprio livro.

Jarid Arraes — Cordelista, escritora e jornalista na Revista Fórum. Escreve e realiza ações de educação popular sobre cidadania, diversidade sexual e de gênero, direitos da mulher e questões raciais. — (https://jaridarraes.com/)

Fábio Kabral— Escritor macumbeiro que adora gibis e desenhos, autor do livro “Ritos de Passagem”, atualmente escrevendo a série "Afrofuturismo”, e herói com rosto africano. — (http://fabiokabral.wordpress.com/ e @ka_bral)

Lady Sybylla— Blogueira do Momentum Saga. Fã do futuro e escritora de ficção científica. Capitã da Frota Estelar. — (http://momentumsaga.com/)

Clara Madrigano — Autora de ficção especulativa, com obras publicadas pela Editora Draco, como “A toca das fadas” e “Especial Natalino”.