Tatuagens, ódio e polarização nas redes sociais

Um dia desses uma pessoa curtiu tantas vezes um de meus textos que eu achei que havia insultado alguém. É a isso que as redes sociais se reduziram, não é? Insultar pessoas.

Na outra década… antes de apps de sexo com geolocalização disfarçados de apps de namoro com geolocalização existiam sites de namoro virtual disfarçados de sites de amizades virtuais… Bem. Então, há muito tempo atrás.

Naquela década, alguém se deu ao trabalho de coletar dados desses sites e calcular o que mais atraía as pessoas. Calculou o que fazia as pessoas iniciarem uma conversa no site. A primeira dica: tatuagens.

As pessoas gostam de tatuagens então? Não era isso.

Quando uma mulher mostrava suas tatuagens na foto de perfil, mais pessoas “descurtiam” (davam nota baixa, no caso) o perfil do que quando uma mulher não mostrava tatuagens. Mas ao mesmo tempo mais pessoas curtiam (davam nota alta) aquele perfil também.

Quer dizer, tatuagem era um fator de polarização de opiniões.

Mulheres sem tatuagem recebiam notas que eram em média melhores do que a média das notas das mulheres com tatuagem. Mas poucas notas altas também significa que menos pessoas gostavam da foto a ponto de iniciar uma conversa. O threshold para iniciar uma conversa, digamos assim, era ultrapassado por menos pessoas.

Esse comportamento se repetiu com outras características. Roupas, cores de cabelo, brincos e piercings. As mesmas características que repulsam algumas pessoas atraem outras?

Corta para 2018.

As empresas que produzem “conteúdo” para internet recebem por cliques em vez de notas. Não faz mal se as pessoas sentem repulsa por alguma manchete, interessa se elas clicam no link para ler o resto da matéria. Na soma dos fatores, é fácil prever o resultado desse jogo: conteúdos polêmicos têm mais chance de serem boas manchetes.

Não me culpem. Vocês podem ir atrás destas notícias para buscar a fonte:

Por que isso acontece?

Difícil dizer exatamente.

Há o viés de polarização, como muitos odeiam o que uma pessoa gostam, ela vai se esforçar para mostrar que gosta do que os outros odeiam como forma de autoafirmação. É cool ser do contra.

Há o viés de proteção das próprias ideias. Quanto mais contrariam o que uma pessoa acredita, mais ela se agarra às próprias ideias.

Há o viés de confirmação. Tendemos a aceitar as informações que corroboram com o que acreditamos, enquanto negamos as que nos contrariam.

E o que a internet faz com tudo isso?

Isso mesmo: torna tudo pior.

Ao permitir valorizar os links e compartilhamentos, as redes sociais multiplicam conteúdo de ódio, aqueles que geram cliques rápidos em vez de valorizar, no longo prazo, os links lidos e curtidos e relidos e comentados de novo…

Ao realimentar a timeline com conteúdos semelhantes àqueles com os quais já interagimos, as redes sociais nos prendem em ciclos de reafirmação de valores e informações retroalimentadas — como aquele artigo da Wikipedia que faz referência a um site que faz referência à Wikipedia.

Os textos curtos e desconexos das redes sociais ainda impedem o diálogo e a troca de ideias complexas, tornando tudo raso e efêmero.

Afirmativa: 
O fascismo é totalitarismo de direita.
Refutação:
Totalitarismo não pode ser de direita, porque direta é à favor das liberdades individuais. Logo, o fascismo é de esquerda.

Precisamos concordar sobre as definições de "totalitarismo" e "direita". E existem muitas definições de cada uma dessas palavras.

Por exemplo, há a definição de Hanna Arendt indicando totalitarismo como descrição para fascismo, nazismo e comunismo — o conceito tem a ver com burocratização das massas, terror e ideologia. E há a definição de totalitarismo como sendo oposto de liberalismo, onde no primeiro o estado abriria seus braços sobre todas as dimensões da vida do indivíduo, enquanto o segundo propõe um estado que apenas regula sobre propriedade privada. Claro, sem esquecer que totalitarismo nasce como uma "boa ideia", em que o estado italiano trabalharia para regulamentar a economia tanto quanto a moral e os bons costumes.

Depois de decidir uma definição de totalitarismo, precisamos conversar sobre direita e esquerda. É só sobre o tamanho do estado? Se o estado regula sobre casamento, ele é de esquerda ou de direita? Se o estado diz qual banheiro eu devo usar, ele é de direita ou de esquerda?

Ou esquerda e direita tem a ver com o lado em que estamos na luta pelo poder? Se formos a favor do mercado livre… peraí, livre de quê? Livre do aluguel de capital ou livre da intervenção do estado ou de acesso livre aos bens de produção?

O que eu tenho com isso?

É pouco provável que esse texto tenha muitos leitores. Oitocentas palavras já são demais para os tempos de internet. Com isso, não é possível elaborar discussões, trabalhar ideias, aprofundar temas ou mesmo definir as palavras para depois começar a discutir ideias. Inês é morta. Hannah Arendt é morta. Adam Smith é morto. E nós temos de conviver com "isso que tá aí" — que disseram que ia mudar, mas continua igual. ¬¬