Techno-calmante-café-da-manhã.mp3

Descobri que há uma “rádio” no Youtube que toca música para ajudar as pessoas a se concentrarem. (“ah, que novidade” você vai me dizer… eu sei.) Isso, por algum motivo, é um estilo musica próprio. Talvez até uma subcultura. Estou tão por fora que nem sei dizer se é uma subcultura.

Primeiro, pensei que fosse música de elevador… Mas, para quem curte essa “tendência”, a música não está ali pelo agrado estético. Ela ajudaria a relaxar, concentrar em atividades, isolar mentalmente a pessoa que está tentando trabalhar no computador… dizem.

E, claro, there's an app for that! E se chama Loffee.

Não é que eu não curta música para relaxar. Eu sou velho — ou só gosto de me fazer de culto — no fim das contas ainda prefiro o Thelonious Monk.

Minha questão aqui é: por que gostamos de reinventar a roda?

A cada ano, me parece, surge cada vez mais “novidades” que são exatamente iguais a coisas antigas, mas agora recebem um nome novo para melhor se adaptarem às modas, tendências, trends, hypes.

Qual a diferença entre jazz e esse techno-relax-focusing-mambo-jambo?

Ou por que jazz é “difícil” e esse negócio aí de elevador de loja de roupas é “relaxante”?

  • Repetição de padrões: O princípio de ambas as construções parece ser a mesma. Ambas se edificam sobre repetição de estruturas, que criam outras estruturas mais ou menos elaboradas. Houve intelectuais da época que reclamavam que jazz seria apenas música mecânica, aliás. Um mesmo conjuntinho de notas tocado de novo e de novo com pequenas variações pré-combinadas para dar a ilusão de novidade. A música techno-relax-seilá-o-quê faz o mesmo, trabalhando uma base de bateria eletrônica, por baixo de um riff de teclados ou um sample de voz cantando um ou dois versos à exaustão. Previsível, copiável.
  • Estressar os limites do instrumento: Embora o jazz tenha sido concebido em época do pensamento estruturado (estruturalista?), metódico e positivo, também foi concebido com o objetivo de levar a técnica (e o instrumento) ao seu limite. Gosto desse pensamento. O jazz nasce sob o signo do formalismo. As ideias já existem e podem ser escritas em fórmulas, regras, princípios quase matemáticos. A música passou a ser matemática. A progressão musical (também a narrativa) passou a ser matemática. Em contraponto, o que nos resta é expandir a aplicação desses elementos.
  • Fórmula exploratória e progressiva: Ambos os estilos buscam explorar lentamente variações de temas (ou do leitmotiv). A diferença me parece ser que o jazz faz essa busca sem a criação do stress da narrativa — a tenção antes do clímax — mas com a alteração de pequenos trechos por vez, dando ao ouvinte uma sensação de coerência e segurança. Ao mesmo tempo, as pequenas variações impedem o tédio. Eu sei que vão me dizer que tanto jazz quando esse techno-relax-seilá-o-quê é entediante. Então, "você não ouviu direito, vai ouvir de novo". Mas com certeza o jazz é uma estrutura progressiva, enquanto o techno-relax é um arco dramático, como a narrativa circular de um conto.
  • Ironia: A ironia aqui é que gravamos cada interpretação de jazz para reproduzi-la exatamente igual a sua versão original. Eu escuto repetidamente e exatamente a mesma versão de “Ruby, my dear” de Thelonious Monk, mesmo que Monk nunca tenha tocado duas vezes a mesma música. Uma vez que a progressão, a exploração e a expontaneidade do jazz é capturada pela mecânica da reprodutibilidade, ela passa a ser exatamente igual à música mecânicamente concebida por progressões matemáticas através do computador. A gravação mantém “existente”, mas mata o jazz.
  • Vocabulário: O “óbvio” e o “fácil” sempre dependem do ponto de partida. Dependem do ouvindo da música, do receptor do texto, do público. Dirigir um carro automático é fácil, se você já dirige um carro com marchas, mas é difícil para quem nunca dirigiu nenhum tipo de carro.

Bem, me digam vocês. Vou só deixar mais uma opção aqui para o café da manhã.