Temática: progressão, repetição, ecos e reflexões

Como multiplicar os sentidos da sua história através do tema

Um tema é uma palavra genérica para descrever unidades de significado que são centrais à obra. Pode ser qualquer coisa, na verdade, desde uma palavra até uma metáfora, desde uma assonância até mesmo um ritmo de frase ou figura de linguagem.

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Escrevo esse artigo, porque boa parte dos textos que tenho lido de escritores novos ou que querem ser conhecidos têm boas ideias, mas parecem monografias de fim de curso. Artigos de jornal, na melhor das hipóteses. Não existe tratamento de temática.

Temática nem sempre é algo planejado, claro. Stephen King comenta no seu On Writing que “se dá conta” de que há sangue nos três pontos principais da narrativa de Carrie, seu primeiro sucesso. Temas podem ser encontrados no segundo rascunho, ou mesmo escavados por um leitor crítico. Sua presença ajuda os leitores a interligar fios narrativos que, de outra forma, teriam pouco ou nada em comum.

Não tenha vergonha de usar. Abuse se puder.

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De exemplo, embora seja sacanagem referenciar Hamilton só por isso, podemos ver o uso de “Filho” no musical de Lin-Manuel Miranda.

O filho de Alexander Hamilton, enquanto personagem, é ponto importante na virada emocional do segundo ato. Ele já aparece no primeiro ato como ponto de pacificação para Alexander. Ao nascer, o filho de Alexander faz o pai se tornar responsável diretamente por alguém. Ao morrer, leva Alexander à queda final e para a própria morte.

Agora, o filho, enquanto tema, se amarra aos mais diversos elementos do roteiro.

O filho de Alexander nasce em paralelo à filha de Aaron Burr, concorrente de Hamilton. Hamilton e Burr comparam seus filhos à nação que acabou de ser criada. Eles chegarão à idade adulta ao mesmo tempo que os novos Estados Unidos.

Miranda ainda utiliza a palavra Filho em momentos-chave, principalmente para indicar a relação entre George Washington e Alexander Hamilton. Washington chama Hamilton de “filho” tanto para demonstrar superioridade, quanto afeição. E, num dos melhores truques de Miranda, Washington chama Hamilton de filho à exaustão para mandar Alexander voltar para casa. Na cena, a palavra “filho” é esfregada na cara da audiência, mas esconde que Washington queria que Hamilton voltasse para casa, por sua mulher estar grávida. Ao mesmo tempo entrega tudo e não fala nada. Washington sabia, mas não podia falar.

A personagem do filho de Alexander, então, tenta repetir a bravura e as ações do pai, mas falha. É traçado um paralelo incompleto com o pai. A vida do filho termina antes. Por fim, o paralelo se completa com a morte de Hamilton no mesmo lugar, sob as mesmas circunstâncias que o filho morreu.

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Repetição, progressão, uso literal e figurado, paralelismo. Podemos ter o uso do tema de todas essas formas.

Infelizmente, é um recurso quase esquecido por esse pessoal que acha que Joseph Campbell escreveu um manual de escrita criativa.