Ambientes tóxicos I

Um blues para as lágrimas do homem branco

Eu pretendia escrever um artigo sobre a propagação da toxicidade em ambientes sociais. Mas parei para ouvir uma das minhas músicas favoritas enquanto escrevia meus argumentos. As duas coisas, música e argumentos, discutiram na minha cabeça e não chegaram a uma conclusão…

Five long years, na voz (e na guitarra) de Eric Clapton.

Have you ever been mistreated? You know just what I’m talking about.
 Have you ever been mistreated? You know just what I’m talking about. I worked five long years for one woman, she had the nerve to put me out.

Taí, o cara trabalhou durante cinco anos para sustentar a esposa (legalmente casado ou não), e ela o expulsou de casa.


I got a job in a steel mill, shucking steel like a slave. Five long years, every Friday I come straight back home with all my pay. Have you ever been mistreated? You know just what I’m talking about. I worked five long years for one woman, she had the nerve to put me out.

Trabalhou em uma siderúrgica, “descascando” aço, o que dá ideia de trabalho pesado, cansativo, suor no rosto. Compara com trabalho escravo. Pega bem hoje o inglês branco usar essa expressão? Conta alguma coisa que o blues americano é negro?

A frase obviamente retrata o trabalho braçal extenuante. Mas como ela deveria ser lida hoje? Ainda vale essa comparação?

O homem da música reclama que voltava para casa toda sexta-feira “direto”, quer dizer, sem parar em barzinhos, sem sair com os amigos, sem gastar o dinheiro ganho em seu trabalho extenuante durante a semana. Fica implícito, entendo eu, que ele dá o dinheiro para a esposa, completando com o “escravo”, a ideia de exploração agora econômica.


I finally learned my lesson, should a long time ago. The next woman that I marry, she gonna work and bring me the dough. Have you ever been mistreated? You know just what I’m talking about.

Para completar o choro, o homem tem uma ideia “brilhante”. Decide que na próxima oportunidade, vai se casar com uma mulher que trabalhe e traga o dinheiro para ele. Ou seja, justifica a exploração da mulher, porque uma mulher o explorou antes.

Finalmente (finally), a música justifica a posição da mulher como sujeito explorado no relacionamento e na sociedade, porque foi a mulher que, não trabalhando, o explorava. O seu ideal é fazer a mulher ser explorada mesmo entrando no mercado de trabalho.


I worked five long years for one woman, she had the nerve, She had the nerve, She had the nerve, She had the nerve to put me out.

E agora:

  • Paro de ouvir meu Eric Clapton?
  • Digo que "a música representa outro tempo"?
  • Estou exagerando?

No contexto de releituras a partir no nosso lado do tempo, não posso deixar de pensar no impacto da visão de mundo apresentada no jogo semântico — não só poético, mas jogo de sobrevivência entre ideologias, mitos, memes ou o nome que se dá hoje em dia. A ideologia — machista ou feminista — sobrevive na linguagem, como descreve Roland Barthes… mas esse é o assunto em que eu queria chegar no próximo post.