Wattpad, diários pessoais e o modo lírico do mundo digital

Em resumo: a plataforma Wattpad é na prática um espaço para blogs com atenção especial a notificações, o que dá um ar de rede social. Como toda rede social, o comportamento recompensado é a interação, comentários, curtidas (estrelas) e a conversa particular com os leitores — tanto através de capítulos "desvirtuados" para caber o conteúdo de comentários dos próprios autores, quanto através de mensagens pessoais e privadas a cada leitor.

Tenho lido e experimentado o Wattpad. Eu tenho a conta faz tempo, mas raramente tenho algo para publicar lá. Para mim, a ideia é de publicar livros. Mas não é isso. É uma rede social, é necessário interagir com público, divulgar, chamar para leitura, cultivar amizades. Fica difícil, à primeira vista, identificar o motivo dessa ou daquela obra ser receber tanto destaque ou visualizações. Todos não fazem exatamente a mesma coisa? É preciso enxergar o Wattpad como um velho caderno pessoal e direto que passa de mão em mão e recebe adições de cada leitor (mas vocês devem ser jovens demais para saber o que é isso). Esse caráter íntimo e emocional é o que conhecemos na literatura como modo lírico.

Sabrinas, Julias, Biancas

Mas isso tudo é coisa velha. Minha avó tinha uma pilha de livrinhos de folhas finas com homens seminus nas capas. Pornografia de senhoras? Pode ser. Mas não muito diferente dos hots publicados no Wattpad. Minha avó pedia para eu ir até a banca de revistas comprar semanalmente (às vezes mais de uma por semana) esses livrinhos. Eram todos com nome de mulher: Sabrina, Bianca, Julia. Todas falavam da promessa de amor, romance e traição levemente picante: "Jogo arriscado", "Sonhos inacabados", "Corações partidos", "O calor dos seus beijos"…

Romances no Wattpad

Não vou tentar quero discutir qualidade. Mas há um padrão aqui. Com trocadilho…

As histórias das Sabrinas e Biancas eram previsíveis. Meu avô brincava que eram escritas por um computador (na década de 1980!), dada a semelhança. O nome da mocinha mudava, o lugar onde ela morava mudava, o trabalho dela mudava. O resto era muito parecido: a mocinha tinha uma melhor amiga com quem dividia sua história, precisava se mudar para outra cidade ou outro emprego, se apaixonava por um homem recém divorciado que nunca encontrou amor verdadeiro (ou viúvo se já encontrara amor verdadeiro), achava um vestido maravilhoso perdido no armário.

Talvez meu avô fosse fã do Umberto Eco, que já falara o mesmo de 007 décadas antes. Mas ele estava certo. E podemos hoje dizer o mesmo de livros do Wattpad. Minha questão aqui é "há um problema nisso"?

O que é lirismo

Empresto o significado de “lírico” de Staiger. O modo lírico pede um texto curto, com o mínimo de conexões causais, sequenciais ou estruturais. A ideia é que o "lirismo" ressoa no leitor como as cordas de um instrumento musical tremem quando outra corda toca ao seu lado com a mesma nota.

Está ligada à função "emotiva". A emoção do emissor ressoa no leitor. Mas para isso acontecer, o leitor precisa ter aquela mesma emoção já dentro de si — assim como a corda do instrumento musical ressoa quando outra corda igual toca.

O lirismo não muda o leitor, segundo Staiger. Apenas o drama seria capaz disso. Já postei sobre os modos de Staiger:

Um exemplo é Augusto do Anjos, o do “Eu”, que todo adolescente se apaixona na leitura obrigatória do colégio, pelo tipo de escrita e/ou assunto:

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Quer dizer, "Ninguém me quer, sou feio e tenho azar desde que nasci. Mas, pelo menos, sei palavras difíceis." — Para quem não se identifica com esses sentimentos, "Psicologia de um vencido" são só rimas esdrúxulas e escolhas estranhas de palavras. Mas, para algumas pessoas, as palavras de Augusto dos Anjos ressoam.

Lirismo é algo perigoso?

Peraí que minha pergunta faz sentido.

Uma parte da questão é a imitação da realidade, problema registrado desde sempre na filosofia ocidental. Dizem que Sócrates nem gostava que escrevessem, porque estragava a capacidade de memorização. Platão achava que a imitação da poesia ofendia a busca pela verdade, porque a pessoa olhava para a poesia e pensava ser aquilo verdadeiro. Mas era apenas falsificação da realidade. Platão tentou solucionar isso mantendo seus escritos em forma de diálogos. Assim, a conversa estava "viva", em vez de apresentar resultados mortos e fixos como falsas verdades. Staiger chega a um lugar parecido com a questão do lirismo.

O leitor do texto lírico se reconhece no texto, reconhece as emoções como suas, mas não experimentaria nada fora de si — faz sentido? Eu sei que há de se dizer que nós experimentamos as emoções dentro de nós, mas a motivação é externa. Vem incentivada pelo diferente, externo, outro. O lirismo, a busca pelo igual, pela emoção reconhecida é, assim, limitadora.

Passar a vida lendo sempre a repetição da mesma obra, da mesma Sabrina, da mesma Julia, da mesma Bella — ou seria Stephenie — é algo bom?

O que é Wattpad

Wattpad é um site, meio rede social, meio plataforma de publicação de textos. Sua função é permitir a publicação de textos, livros, contos de autores quase anônimos, bem como a subsequente interação entre os inscritos no site e as obras publicadas. Pelo lado bom, potencializa a interação entre autores iniciantes e um vasto público sedento por textos novos. Pelo lado ruim, a quantidade absurda de autores e de leitores faz com que seja economicamente (ou ecologicamente) melhor para o sistema alimentar seus usuários com textos repetitivos, pouco originais e de produção em massa.

Mas não é assim mesmo que se sustenta o mundo da literatura?

Meu argumento é que o Wattpad é basicamente um ambiente propício para o modo lírico. É o escritor falando diretamente para um público restrito que quer “sentir” o que o escritor sente. Que busca a ressonância da sua alma através do som do escritor. E o escritor é entendido como seu igual.

É isso que queremos?

Podemos fazer algo contra isso?

Há sempre a alegoria de Cidades Invisíveis. Marco Polo é o contador de histórias. Kublai Khan é a audiência. Mas Kublai Khan não acredita em tudo que Marco Polo diz. Esse é o ponto de partida da literatura, o que é contado não é necessariamente verdade, mas um fragmento do que o narrador quer que pensemos ser verdade apenas para continuar com a história.

Até mesmo, como é costume de Calvino brincar com o texto, não sabemos se Marco Polo é o Marco Polo histórico ou uma pessoa em um bar que por coincidência também é chamada de Marco Polo. Assumimos que é o Marco Polo histórico adaptado à literatura, mas isso em nada muda a narrativa, exceto talvez pela realidade emprestada à fantasia.

Até que ponto o leitor de Wattpad acredita nas narrativas lá publicadas?

Dizer que são meninas de 14 anos que acreditam que todas as outras meninas de 16 anos encontram seus amores em embates popular vs nerd ou amigo-popular-por-favor-me-nota seria ingenuidade minha. Mas há um motivo para buscarem sempre um mesmo padrão.

Ou para buscarmos sempre um mesmo padrão.

A repetição, segundo o clássico Bettelheim, nos contos de fadas ocorre para que a criança aprenda as construções verbais do texto, mas também para que trabalhe psicologicamente, de maneira segura, as emoções ali representadas. Suponho que o mesmo ocorre após a infância, na adolescência e na idade adulta. Os leitores de Wattpad — e de Julias, Sabrinas e Biancas — busca no conforto da repetição narrativa, trabalhar emoções que julga importantes.

Nessa repetição, o papel da realidade é essencial. A criança passa para lá e para cá na linha da fantasia com facilidade. Mas o adolescente e o jovem adulto, não. Há necessidade de estabelecer um "pé no real" para poder atravessar a linha imaginária da fantasia e voltar com segurança. O jovem prefere, então, estruturas de "personagens reais": o cantor que sempre canta de dor de cotovelo, a atriz que é sempre a menina nerd-fica-bonita, o escritor de terror que sempre escreve contos de terror. A persona do autor se torna importante.

Faz sentido?

Microtransações

Como sobreviver nesse universo literário?

Vou deixar algumas iniciativas aqui para resgatar no futuro e ver se alguma delas deu certo. Eu aposto na publicação de contos de terror com renúncia de direitos autorais. Como alguém vai ganhar dinheiro com renúncia de direitos autorais? O direito autoral serve à editora, não ao autor. Mas esse enrosco é longo e não vai render aqui…

Iniciativas no Wattpad:

Renúncia de Direitos Autorais:

Releitura, modernização de magias teatrais:

Há algumas em que não assino meu próprio nome. Mas não vou postar aqui. Também não vou contá-las como "funcionaram", porque não as linkei aqui.