10 Filmes sobre a China Moderna

Estou lecionando um curso sobre história e cultura da China na Casa do Saber do Rio de Janeiro. Durante as aulas, com frequência os alunos ou eu mencionamos filmes que de algum modo ajudaram a construir nosso imaginário a respeito do país e a despertar o interesse pelos assuntos chineses.

Esta lista foi preparada a partir das conversas e levando em conta que o acesso a filmes sobre a China — em especial às próprias produções chinesas — nem sempre é fácil. Com frequência se restringe ao circuito de arte de grandes cidades brasileiras, com escassa presença em sites de streaming como a Netflix. É uma pena, pois são obras culturais muito interessantes, que ajudam na tarefa fundamental de compreender o papel da China no mundo contemporâneo.

Para os efeitos desta lista, “China moderna” é definida como o período iniciado com a queda do império e a proclamação da República no país, no início do século XX. Os filmes aqui selecionados tratam desses acontecimentos e dos conflitos entre nacionalistas e comunistas nas décadas de 1920–40, da guerra contra o Japão, das turbulências ideológicas do regime maoísta e das reformas econômicas a partir de 1978.

1911 — A Revolução

Uma boa história do levante armado que levou à proclamação da República na China, centrada nas relações entre o líder histórico do movimento republicano, Sun Yat-Sen, seus aliados e rivais. O filme é uma produção recente, dirigida e estrelada pelo astro Jackie Chan (que interpreta um dos generais de Sun) feita para comemorar o centenário da derrubada da monarquia.

Adeus, Minha Concubina

Épico dirigido pelo grande cineasta Chen Kaige sobre a amizade entre dois atores da Ópera de Pequim ao longo de décadas de guerra e revoluções na China. O filme mostra seu treinamento rigoroso, que começa quando ainda eram crianças, e os altos e baixos desse gênero artístico no país, que oscilou entre tesouro nacional e símbolo das tradições que os maoístas queriam erradicar. Os protagonistas se defrontam com o dilema de manter sua integridade ética (quando não sua própria sobrevivência) diante de circunstâncias trágicas.

Balzac e a Costureirinha Chinesa

Um olhar comovente e delicado sobre a Revolução Cultural (1966–1976), por meio da história de dois rapazes da cidade que são enviados para o trabalho rural e se apaixonam pela beldade do vilarejo, a neta do alfaiate local. Durante esse período de exílio interno eles encontram um baú cheio de livros ocidentais proibidos e as relações entre o trio de jovens se tornam carregadas de paixão e a vontade por uma vida mais livre e autônoma. Experiências que levarão a muitos conflitos e mudarão suas trajetórias individuais de modo inesperado.

Espírito de Lobo

O filme é a adaptação para o cinema do romance semi-autobiográfico de mesmo título de Jiang Rong. Na Revolução Cultural, quando era um jovem estudante, ele foi enviado para ensinar mandarim aos nômades da Mongólia e se encantou com suas tradições e suas relações harmoniosas com a natureza. O rapaz passa a fazer o contraste entre o espírito indômito e o amor pela liberdade dos mongóis com o que ele vê como o conformismo autoritário da sua própria sociedade.

Lobo Guerreiro 2

O filme de maior bilheteria na história do cinema chinês. É uma espécie de “Rambo” afinado com o nacionalismo crescente de uma China que se torna novamente uma grande potência. Dirigido e estrelado por Wu Jing, é o segundo da saga de Leng Feng. No início da série, ele era um soldado das forças especiais lutando contra traficantes de drogas. Neste segundo episódio, Leng enfrenta problemas disciplinares e é expulso do Exército, indo trabalhar como segurança na África. Quando uma guerra civil estoura no país em que ele vive, ele acaba voltando ao serviço do Estado para resgatar médicos chineses isolados no interior, e para isso terá que negociar com rebeldes e enfrentar mercenários ocidentais racistas. Escrevi uma resenha analisando o enredo no contexto da atual política externa chinesa, com a presença cada vez mais intensa do país na África.

Pérolas no Mar

Um drama romântico sobre um casal de jovens migrantes da mesma província tentando a sorte em Pequim. O rapaz sonha em criar videogames que o tornem rico e famoso. A moça busca a segurança e o conforto financeiro em relacionamentos com homens mais velhos. Seus sonhos e frustrações o levam a aproximações e afastamentos ao longo dos anos. O enredo simples é narrado com muita sensibilidade, abordando também a relação de ambos com o pai do rapaz, dono de um pequeno restaurante no interior, que simboliza o sacrifício das gerações mais velhas em contraste com as ambições materiais da juventude chinesa contemporânea.

Por Favor, Vote em Mim

O único documentário da lista é esta pequena joia. Na cidade de Wuhan, uma escola de nível fundamental decide que o representante de turma agora será eleito, em vez de indicado pelo professor. A decisão parece trivial, mas mobiliza os alunos e suas família em uma disputa acirrada por prestígio social O filme acompanha uma dessas eleições, nas quais crianças pequenas aprendem as regras básicas da democracia — e seus abusos. A disputa eleitoral tem corrupção, compra de votos, fake news em escala impressionante.

Terra Amarela

Os dois cineastas mais importantes do cinema chinês contemporâneo são Chen Kaige e Zhang Yimou, ambos citados nesta lista. Este é um trabalho extraordinário dirigido pelo 1º com fotografia a cargo do 2º. É um drama sobre a vida dos camponeses no interior da China durante o período da guerra civil entre comunistas e nacionalistas, contado a partir da história de um soldado do Exército Vermelho enviado a um vilarejo para recolher canções folclóricas que possam ser usadas no esforço de propaganda. Lá ele se apaixona por uma moça, mas é um amor que desafia as rígidas normais sociais da época.

O Último Imperador

Épico do diretor italiano Bernardo Bertolucci sobre a vida de Pu Yi, último imperador da China. Ele foi derrubado do trono pela Revolução Republicana quando ainda era criança. Adulto, foi manipulado pelos japoneses para atuar como seu testa de ferro na ocupação chinesa durante a Segunda Guerra Mundial. Reflexão fascinante sobre o papel do indivíduo em uma história turbulenta que escapa à sua compreensão.

Viver

Com o início do período de abertura e reformas da China, foram publicados muitos romances que colocavam a história recente do país no contexto do seu impacto na vida das famílias, tentando entender como as guerras, revoluções e perseguições ideológicas marcaram as vidas individuais. “Viver”, de Yu Hua, é uma das mais marcantes dessas obras literárias. Seu protagonista, Fugui Xu, é um velho camponês para quem cada ciclo de mudanças da China contemporânea significou a perda de algo ou alguém importante: fortuna, terras, parentes próximos. Mas apesar de tudo, ele persiste em sua vontade de viver e capacidade de resistir e se adaptar. O filme de Zhang Yimou é uma bela adaptação da obra, ainda que menos crítica ao regime maoísta do que o original literário.