10 Livros para Entender o Nazismo

A ascensão de um significativo movimento neonazista nos Estados Unidos redespertou o debate em muitos países sobre a natureza de um regime totalitário cujo apelo parecia sepultado nas ruínas do século XX. Entender o movimento político mais brutal da história contemporânea da Europa tem sido um dos esforços centrais das ciências sociais das últimas décadas, com reflexões importantes para compreender diversos outros episódios de autoritarismo e violência de massa.

Este pequeno guia apresenta algumas sugestões de leituras, todas disponíveis em português, para quem quer entender mais a fundo o nazismo. Não é de modo algum um roteiro completo e deixa de fora obras importantes. Privilegiei abordagens acessíveis e capazes de dar um panorama amplo do fenômeno.

Os Alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX, Norbert Elias

Por que o nazismo surgiu na Alemanha — um país rico e desenvolvido — e não em outra nação mais pobre e turbulenta? Havia algo na história alemã que tornava o país mais propenso a regimes autoritários? Elias, um dos mais brilhantes sociólogos do país, procura responder a esses questionamentos por meio de uma análise da profunda insegurança que marcou a unificação alemã, e como isso se traduziu com frequência na adoção de comportamentos dominados pela necessidade de demonstrar força, esconder medos e fragilidades, numa cultura que dificultou a consolidação da democracia.

A Chegada do III Reich, Richard Evans

Esse historiador britânico é autor de uma excelente triologia sobre a ascensão, apogeu e queda do nazismo. Meu favorito é este, o primeiro volume, que examina as circunstâncias políticas e econômicas que levaram ao III Reich: a derrota alemã na I Guerra Mundial, a hiperinflação, a radicalização ideológica, a disseminação do racismo e de visões de mundo persecutórias e conspiratórias. É uma excelente síntese da literatura especializada.

Doutor Fausto, Thomas Mann

O autoritarismo é um tema essencial da literatura do século XX, permeando a obra de autores como Albert Camus, Bertolt Brecht, Gunter Grass… Os escritores da família Mann foram particularmente dedicados ao assunto, que gerou os melhores livros de Heinrich Mann e Klaus Mann, além deste magnífico romance do escritor mais famoso do clã. Ele narra de maneira metafórica a tentação sombria do nazismo por meio da vida de um compositor genial e atormentado que faz (ou acha que faz) um pacto com o demônio, com consequências trágicas.

Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, Hannah Arendt

No início dos estudos sobre o nazismo havia a percepção de que era necessária uma personalidade distorcida para aderir a essa ideologia. O trabalho de Arendt é um marco em romper com essa visão. Ao cobrir o julgamento de um dos principais operadores do Holocausto, o tenente-coronel da SS Albert Eichmann, ela descobre nele um indivíduo surpreendentemente comum: banal, rasteiro, um burocrata carreirista que fala por clichês. A partir daí a filósofa realiza uma reflexão acerca da natureza do mal nos grandes aparatos burocráticos do Estado do século XX, com sua capacidade em fazer as pessoas perderem a dimensão de sua responsabilidade individual e se aferrarem a normas e regulamentos de impacto devastador.

É Isto um Homem?, Primo Levi.

O Holocausto é o exemplo mais aterrador dos crimes contra a humanidade perpetrados pelo nazismo. As memórias mais famosas do genocídio são, sem dúvida, o Diário de Anne Frank, a adolescente holandesa. Contudo, seu livro termina com sua prisão. Levi já era adulto, um cientista que havia servido ao Exército italiano e passado para a resistência ao fascismo. Preso e enviado para o campo de concentração de Auschwitz, ele sobrevive graças à habilidade técnica como químico, ao conhecimento da língua alemã e ao desenvolvimento de uma rede de amizades e proteção social. Além de sorte. Seu testemunho é talvez o mais pungente entre os sobreviventes do extermínio.

Fascistas, Michael Mann

Os regimes nazi-fascistas eram todos ditaduras, mas nem todo governo autoritário é fascista. O sociólogo Mann identifica o que caracteriza esse tipo de regime, por meio da comparação de diversos países — Alemanha e Itália são os casos clássicos, mas há outros movimentos/governos que têm ao menos partes desse DNA (Espanha, Hungria, Romênia). Mann vê o nazi-fascismo como uma resposta a um conjunto de crises estruturais da democracia e do capitalismo global na primeira metade do século XX, e chama a atenção para a necessidade de levar a sério sua ideologia, base social e risco do seu retorno.

Hitler, Ian Kershaw.

A melhor biografia do ditador alemão.

O Império de Hitler, Mark Mazower

Excelente análise de como os nazistas governaram os territórios que conquistaram na Europa antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Não havia um modelo coerente: algumas áreas foram incorporadas à Alemanha, outras administradas como colônias para extração de recursos naturais e humanos, outras devastadas. É também um dos melhores estudos a respeito da gênese do Holocausto em meio à guerra total no Leste europeu, após a invasão da URSS.

A Mente Cativa, Czeslaw Milosz

Milosz foi um poeta polonês que sobreviveu à ocupação de seu país pelos Exércitos de Hitler e Stalin. Seu livro é uma brilhante análise acerca da sedução exercida pelos regimes totalitários sobre tantas pessoas, em particular das armadilhas nas quais aprisionam artistas e intelectuais.

Terras de Sangue: a Europa entre Hitler e Stalin

O período entre 1933 e 1945 foi o mais violento da história contemporânea da Europa, e a região geográfica onde ocorreram as maiores atrocidades foi o território entre Berlim e Moscou, onde os projetos expansionistas de Hitler e Stalin se chocaram. Snyder examina de forma brilhante calamidades como o Holocausto, a fome coletiva stalinista na Ucrânia (Holodomor) e os impactos da guerra total sobre o cotidiano da população. Sua abordagem inovadora é baseada num impressionante domínio dos idiomas da Europa Oriental e numa consulta abrangente de fontes.

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