Reflexões sobre falecimento.

Um dia depois do falecimento do meu pai, resolvi que não desejava estar só, mas que também ansiava poder para um pouco e refletir sobre as ultimas horas e terríveis perturbações. Realidade irônica, que teima em desfazer toda a nossa certeza e segurança com cinco abalos covardes. É difícil conceber como a situação formalizou-se e acredito que haverá um estranhamento por inúmeros dias.

Eu estava visitando um belo memorial aos mortos da guerra Indochinesa – que curiosamente fica na formosa floresta de Vincennes – quando recebi aquele pragmática mensagem que dizia: “O pai faleceu”. Subitamente veio aquela sensação de espanto, duvida e horror que vão tomando espaço no coração à força e convidando-nos a simplesmente negar a realidade. Aviste um banco ao lado de um riacho e prontamente me sentei, antes de ser puxado pela gravida e tombar sobre o chão.

Fiquei por alguns momento num limbo desguarnecido de qualquer sentimento. Nesta hora descobrimos os limites das palavras e como elas podem ser extremamente dolorosas enquanto pronunciadas. O silencio é convidativo e reconfortante, mas completamente tóxico. Telefonei para uma das melhores companhias que possuo e revelei o trágico destino que a realidade havia me concedido. Ele chorou comigo e esteve ao meu lado, no máximo que a tecnologia permitia, porém, por mais que haja todo o suporte e sabias palavras, o caminho do luto é percorrido solitariamente.

Depois da conversa, parei um pouco para visualizar onde estava. Era uma bela floresta, com um riacho leve, ao lado de varias flores convidativas. Os pássaros cantavam e a voz de crianças brincando no fundo reforçavam a esperança de que tudo logo iria passar. Foi uma charmosa visão de paz e harmonia, que foi quebrada por um grito juvenil francês “Tu es mort ! Tu es mort !” Quatro pequeninos brincavam de atirarem um nos outros e um deles foi usar o banco em que estava sentado como proteção frente aquela acirrada disputa agressiva. Uma situação espantosa e um tanto azeda, já que o falecimento do meu amado pai foi resultado de cinco disparos.

Naquele momento, imagino que muitos iriam convocar tal acontecimento como uma afronta e usariam tal situação para despejar toda sua tristeza e ódio, maldizendo a torto e a direita. Mas isso mudaria alguma coisa, ou quem sabe pacificaria os efeitos de tal crime? A resposta é claramente um “não”.

Nesta hora todos nos desejamos que nenhuma destas coisas tivesse acontecido, mas isto ocorre exatamente com aqueles que testemunham destes horrores. É preciso encarar que não nos pertence decidir se isso deveria ou não ter acontecido, e que tudo o que pode ser feito está relacionado na decisão sobre como agiremos frente a tais circunstancias e como procederemos com o tempo que nos foi dado por Deus.

Para mim, a melhor resposta que podemos declarar frente a morte é viver. É exaltar a vida em seu esplendor, de maneira digna e honrada, indo em direção ao avesso da morte. Vingança e justiça ainda se destinam a morte e isso nunca responderá ao vazio que há dentro de nós. A verdadeira homenagem esta quando o “homem-age” desta maneira. Então viva de tal maneira a construir um pavimento de boas recordações que sempre te convidaram a dar mais um passo com ousadia e esperança. Lembre-se sempre que existem outras forças atuando neste mundo além daquelas demoníacas.

Enquanto eu escrevia esta mensagem, sentou ao meu lado um casal simpático com um pequeno garoto loiro na faixa de 7 meses. Ele usava uma camiseta azulada, com listras amarelas e um par de charmosas meias vermelhas. Seu nome era Ronaud e por algum motivo, que não sei dizer, ele ficou interagindo comigo. Seu belo sorriso, seu doce olhar e seu maior interesse em mim do que em sua mamadeira ou mesmo nos apelos de seus pais fizeram-me perceber que a vida ainda está presente, mesmo em meio ao horror da morte.

Agradeço a Deus por ter concedido 66 anos de vida ao meu pai e que ele esteve ao meu lado sempre, da sua maneira caricata, determinada e amorosa. Que eu posso honrar todos os seus sacrifícios e atos de amor de maneira digna da vida que Deus nos concedeu.

Até breve pai, um abraço apertado, suspiro dobrado, de amor sem fim.