[S.S] Observações

Mauro Melo
Feb 23, 2017 · 2 min read

Em um papel amassado, numa tarde entediante, ela escreveu sobre como o ambiente parecia monótono e cansativo. Estava sentada sobre uma cadeira de madeira desconfortável, com as pernas cruzadas, cabelo preso, caindo sobre o busto. “Nada”.

Inúmeras falas cercavam seus ouvidos: palavras cansativas, piadas repetitivas, conversas aleatórias. Definia na folha o completo caos que vivia naquele instante. Princesa hiperbólica, seu segundo nome era Maria.

O papel pertencia a um colega que, por descuido, errou a data e o ano. Arrancando a folha, deixou sobre a mesa, que estava ao lado de Maria. Ela, então, pegou a folha de forma sútil e, aproveitando o tédio, começou a escrever algumas bobagens, que vez ou outra ultrapassava 2 linhas.

Depois da primeira linha, em que descrevia o ambiente, começou a escrever algumas frases aleatórias. Coisas sobre dramas adolescentes, relações mal resolvidas. Nenhum sentimento subversivo, ou qualquer coisa que beirasse qualquer outro tema senão relacionamentos e sentimentos.

As vezes alguns olhares sombreavam as suas linhas, ela, sem nenhuma timidez ou aquilo que esconde, continuava. Fazia questão de não mover seus braços, a fim de não atrapalhar a leitura curiosa das colegas.

Achava engraçado o fato de estar numa sala barulhenta escrevendo sobre suas acreditações sem participar. “Era no mínimo loucura criticar sem nenhuma intenção de alterar as coisas”. Escrevia, sobretudo, para matar o enfaro.


Na ultima folha do caderno, ele escreveu sobre como se sentia em relação a ausência da namorada naquele momento. Intitulou de “Nosso”.

Naquele dia, 5 de outubro, fazia 2 anos desde que ela havia aceitado o pedido de namoro. Foi numa tarde meio nublada de outubro, sobre a sombra de uma árvore antiga que ficava no pátio do colégio em que os dois estudavam. Eles tomaram a árvore como símbolo daquele momento — lembrança notável, lotaram de analogias.

Reclamava na folha elogios dos mais variados à sua amada. Algumas frases de efeitos, corações tortos rabiscados de preto. Estava no auge da glória.

Não era nada demais. Só escrevia porque já sabia a matéria ministrada. E, como se sabe, a mente de uma pessoa apaixonada age de maneira diferente.


Na última página da sua agenda atrasada, a professora rabiscou sobre como parecia perdida numa tentativa inócua de atrair a atenção do Fundamental II.


Em uma folha especialmente separada, ele fez anotações sobre um tema que pretendia, mais tarde, escrever sobre.

Era fascinado com a arte de escrever. Não qualquer coisa, mas temas essencialmente relevantes. Não era apenas sobre pensamentos ou sentimentos, era sobre impactos, sobre visões mais amplas.

Tinha esse costume de preparar uma folha apenas para ideias projetadas que, por serem fugaz, exigiam uma anotação mais precisa, a fim de que não fossem desperdiçadas.


Em uma observação notável, descreveu numa folha suja o que via. Não era tudo certeza, era uma visão planejada e inventada.

Como não tinha o que escrever, escrevia sobre o que escreviam. Numa orquestra profunda de confusão, sem organização, sem detalhes.

Ela era pura observação.

Mauro Melo

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Pedindo e dando esmolas