Alguns eventos são tão marcantes que a sua memória pode criar uma geração.

“Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera e enfrenta o leão
Eu vou à luta é com essa juventude
Que não corre da raia à troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói a manhã desejada” — Gonzaguinha

Aquela manifestação contra o aumento das tarifas de ônibus em Belo Horizonte (12/08/15) foi um desses eventos. Seguiu-se a ela um trabalho de valorização da singularidade daqueles episódios marcantes, por piores que tenham sido, e de recordação da condição de personagem na ocasião trágica. A própria militância produz essa valorização de identidade coletiva quando privilegia o engajamento político como algo transcendente à biografia pessoal.

A reivindicação desse reconhecimento mútuo (“Você também viu?”), os “laços de amizade” formados, a afirmação política, a discussão em espaços lúdicos (como os bares) de elementos próprios do evento como o momento de entrada em cena, número de indivíduos participantes, seus desfechos e as expressões de “admiração” e “respeito” aos que ali se encontravam, revelam um sentimento de contemporaneidade que também possui sua dimensão afetiva: a sociabilidade cria sua rede de solidariedade.

Uma “geração” está se formando pelo trabalho incessante (e nem sempre racionalizado) por parte dos personagens de ordenar pertencimentos relacionais, ou seja, em oposição a “um outro”. A constituição de uma geração está nessa promoção de uma visibilidade social e na possibilidade de contar com uma rede de solidariedade acionada em narrativas sobre o passado recente que balizam as lutas no presente.

Essa geração não explicita as diferenças que a compõem, mas proclama a horizontalidade entre seus membros, portanto, difunde uma experiência compartilhada para se tornar um lugar de memória pelo jogo sutil de um passado que habita o presente, de atores tornados suas próprias testemunhas, e de novas testemunhas transformadas em atores. A memória se condensa e se exprime em lugares comuns, de encontro, como a própria rua da Bahia, passível de uma imediata apropriação pessoal… A memória de uma geração advém dessa sociabilidade da história coletiva que se interioriza até as profundezas viscerais e inconscientes.

A grande marca na memória é que todas as pessoas que estiveram lá estavam em algum segmento participando. Em segundo lugar, reconhecem todos entre si e, mesmo que haja distância política e ideológica, há respeito e admiração pelo trabalho fecundo que foi realizado na ocasião, o que é difícil construir. Uma outra marca é que ninguém teve medo de enfrentar a realidade. Claro que alguns dos nossos passaram por dificuldades e penalizações de toda sorte, mas, entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

Uma geração se faz por essas situações de maior “tomada de consciência”. O ‘eu’ é ao mesmo tempo um ‘nós’. É nóis…

#RepressãoZero #DespejoZero #TarifaZero

Baseados no trabalho de Eliana dos Reis, Doutora em Ciência Política pela UFRGS (Reis, 2003)