Afinal, o que é o autismo?

Autismo é uma diferença neurológica. Pessoas autistas podem apresentar comportamentos “atípicos” em três áreas e formas distintas: interação social, comunicação e interesses restritos ou comportamentos repetitivos. Autistas se diferenciam de não autistas na maneira como experimentam o mundo e na maneira como aprendem e se desenvolvem a partir dessas experiências. Assim, o autismo pode resultar em diferenças mensuráveis na percepção, atenção, memória, inteligência, etc. O desenvolvimento de uma criança autista difere do que é considerado padrão para não autistas. O autismo também pode resultar na presença de habilidades pouco frequentes na população em geral. No entanto, o padrão de habilidades especiais e dificuldades que é característico do indivíduo autista pode conduzí-lo a diversos problemas, uma vez que suas necessidades e comportamentos atípicos distinguem-se do que a sociedade considera “normal” ou esperado.

O autismo não é uma doença, nem pode ser reduzido a um conjunto de comportamentos. A organização neurológica e o perfil cognitivo de um autista não é mais nem menos válido do que a organização neurológica e perfil cognitivo de um não autista. De fato, ambos são capazes de se desenvolver, aprender e alcançar objetivos, embora possivelmente o farão de formas distintas e recorrendo a tipos diferentes de auxílio ao longo do caminho. Assim como com não autistas, progredir é parte integrante do processo de desenvolvimento de um autista, embora o desenvolvimento deste possa não seguir a mesma ordem ou o mesmo “passo” que o primeiro. Comparado a não autistas, um autista pode apresentar maior avanço ou facilidades em algumas áreas e maior atraso ou dificuldades em outras. Por exemplo, um não autista pode precisar de um nível significativo de apoio para desenvolver habilidades ou absorver conteúdos com os quais um autista encontra grande facilidade, e ter facilidade com conteúdos que o autista terá dificuldade para absorver.

Quando um indivíduo não autista consegue se desenvolver, com base na oferta dos recursos apropriados às suas necessidades típicas, nós não dizemos (para descrever a ele e à sua situação) que “o tratamento foi um sucesso” ou que ele se “recuperou” ou ainda que o seu não-autismo tornou-se “menos severo”. Do mesmo modo, ao descrever o desenvolvimento de um autista, devemos evitar o uso de expressões que sejam desinformadoras e prejudiciais a esse indivíduo.

Autistas são conscientes do que ocorre em seus entornos, ainda que nem sempre sejam capazes de demonstrar ou responder de forma típica. Em certas situações, o indivíduo pode até mesmo não conseguir, em absoluto, comunicar o que está sentindo ou pensando. No entanto, isso não reflete incapacidade ou indisposição para se comunicar. Autistas querem se comunicar e podem fazer isso sempre que forem oferecidos contextos nos quais essa comunicação é de fato possível e existe disposição dos interlocutores para reagir a ela (assim como em qualquer outra situação, comunicação com um autista não é um monólogo de um ou de outro). Isso não difere das necessidades típicas de não autistas, exceto pelo fato de que a esses são oferecidos os contextos adequados em frequência muito maior.

Dividir ou separar autistas por supostos níveis de severidade das apresentações de suas condições (diferenças) é uma tarefa problemática e pode ser prejudicial a esses indivíduos. Autistas tendem a ser distinguidos entre si de acordo com a “intensidade” aparente com que suas características se apresentam. No entanto, é importante notar como essas apresentações podem variar, para um mesmo indivíduo, às vezes ao longo de curtos períodos de tempo, influenciadas pelos diferentes contextos a que o autista é submetido ao longo de um dia, semana ou mês. A intensidade com que uma característica autística se evidencia em uma criança não está relacionada à sua inteligência ou às suas potenciais realizações como pessoa adulta. No entanto, o preconceito que a sociedade direciona à essas características pode fazer com que indivíduos em que essas características são mais evidentes sejam (incorretamente) considerados incapazes de aprender, se comunicar e de tomar decisões sobre suas próprias vidas.

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