Sobre a Bolha

um texto sobre liberdade

O que mais encontramos na internet são relatos felizes de jovens pertencentes a algum grupo da comunidade LGBT+* que “saíram do armário” e foram bem aceitos pelos pais, amigos e etc, mas e as outras pessoas? E as pessoas que não tiveram esse final feliz? Que sofrem constantemente com o preconceito vindo de onde deveriam receber amor, carinho, suporte.

Ser gay é algo extremamente difícil.

Você sofre até descobrir o que é, pois não entende o que sente, não entende o que está acontecendo, não consegue entender o que você realmente é. Você sofre para se aceitar, pois a sociedade impõe que o certo é você seguir o padrão heteronormativo e cisgênero de existência. Você simplesmente, durante boa parte de sua infância/adolescência, não consegue aceitar que você foge desse padrão, não consegue imaginar como será a sua vida sendo gay/lésbica/bi/trans/etc.

Até que chega o que, pra muitos, é a pior parte de ser LGBT: a aceitação familiar.

Como disse na abertura desse post, muitos tem finais felizes em relação a aceitação familiar e expõem isso na internet, seja para servir de incentivo para outros ou para, simplesmente, seguirem suas vidas não tendo que esconder o que realmente são. Mas nem todo caso é assim, nem toda família aceita o fato de ter um filho gay e nem toda família está disposta a mudar de pensamento.

Eu tenho 18 anos, descobri minha sexualidade com 13 e sempre aceitei bem o fato de ser gay e, pessoalmente, isso nunca foi um grande problema pra mim. Eu me aceitava e me amava assim, mas nunca tive coragem de contar para os meus pais sobre minha sexualidade, por medo da reação deles. Por ironia do destino eles acabaram descobrindo e não poderiam ter reagido de uma forma pior. Minha mãe me xingou, me humilhou, ameaçou me matar e se matar, e teve todo um drama depois disso. Fui obrigado a, pelo menos pros meus pais, fingir ser algo que eu não era, colocar minha sexualidade como uma fase que todo adolescente passa, mesmo sabendo que isso é uma das maiores mentiras que existem.

A partir desse momento inicia o abuso por parte dos pais, sejam os meus, sejam os de qualquer LGBT os quais não foram aceitos por suas famílias. Sim, não existem só relações abusivas em namoros/casamentos ou em amizades. Existem relações familiares que também são abusivas, como por exemplo aquele seu irmão que te inferioriza por você ser mais novo,ou não ser tão inteligente quanto ele, ou aquela prima que te humilha por você não ter tanto dinheiro quanto ela, entre outros exemplos.

Fonte: Max Sousa

No caso dos pais de um LGBT, o abuso se dá por agressões (sejam elas verbais ou físicas) por conta da condição sexual ou identidade de gênero do(a) filho(a), proibições absurdas que eles fazem, e que não fariam com um filho caso esse fosse heterossexual.

Desde que descobriram da minha sexualidade vivo, basicamente, em cárcere. Quase não vejo meus amigos, não vou ao cinema caso não esteja com algum familiar por perto, para garantir que eu não vá fazer “nada de errado”, nunca fui à uma balada, e já me cansei de dispensar convites que recebi de amigos para os mais diversos eventos sociais, de aniversários até coisas mais sérias que poderiam me ajudar a me inserir no mercado de trabalho, por exemplo. E as oportunidades que tenho de sair e rever os meus amigos (que fico meses sem ver) são oportunidades dignas de celebrações e prêmios, por desenvolver uma desenvoltura enorme para pedir coisa x ou y, já que diante a todas essas limitações existenciais que meus pais impuseram, eu desenvolvi um certo tipo de medo de pedir qualquer coisa pra eles, por mais boba que essa coisa possa vir a ser. Eu chego na frente deles e simplesmente travo, mudando de assunto no ultimo instante. Não conseguindo confrontá-los por medo de acabar indo morar na rua.

Mas eu vou vivendo e garantindo de que um dia, não só os meus, mas todos os pais enxerguem, que poderia ser diferente, poderia ter sido de um jeito mais bonito, um jeito mais “final feliz”.

Se realmente há um propósito maior na vida, a dos LGBTs é de, claramente, distribuir amor, alegria, felicidade e principalmente liberdade, independente de cada tapa que a sociedade nos dê, de cada lâmpada que quebrem em nossas cabeças, de cada vida que eles tirem dos nossos semelhantes.

Liberdade de ser como somos, liberdade para ter certeza que nascemos desse jeitinho, e que não somos piores que ninguém por isso.

Em meio a tantas tentativas de “dar um fim ao desgosto deles”, eu escolhi continuar vivendo para provar para mim mesmo que tudo tende a ficar melhor… Pode demorar um ano, pode demorar 10, mas melhora, e você tem amigos que podem te ajudar para que esse tempo não seja tão duro, amigos que podem fazer sua vida ser mais divertida, independente se são amigos que você vê todos os dias, vê uma vez por ano, ou amigos virtuais que você nunca viu pessoalmente. E sei que essa foi a melhor decisão que fiz na vida. Escolher continuar vivendo, escolher focar em ser produtivo, fazer algo para melhorar a minha vida, algo que me ajude a sair de uma situação ruim por meus próprios méritos. E por mais que eu ainda esteja “aprisionado” nessa bolha criada pelos meus pais, eu ainda tenho a liberdade de enxergar através dela.

E, um dia, eu estarei sobre a bolha.

Esse texto não é um desabafo. Esse texto é para mostrar que existe os dois lados da moeda, que existem pessoas que passam por coisas semelhantes as que você passa, mostrar que o mundo não é o mar de rosas que você vê na internet, mas nem por isso você precisa desistir, porque tudo melhora, independente do tempo que leve, melhora. Sei que tem pessoas que estão em situações piores que a minha, e pessoas que estão em situações ainda piores que estas outras pessoas. Mas temos uns aos outros e é isso o que realmente importa.


Se você quiser desabafar, pedir conselhos, bater um papo para se sentir menos solitário, ou apenas dar uma dica ou sugestão, minhas redes sociais estão espalhadas pelo blog e o meu email de contato é: contato@sobreabolha.com.br


* O termo LGBT+ utilizado no inicio da postagem é a abreviação de “LGBTTQIA+” que é um acrônimo para Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Transsexuais, Travestis, Queer, Intersexuais, Assexuados e Simpatizantes.