O Pregador e o Assassino

— Ai dos que habitam na terra e no mar, porque o diabo desceu até voz, e tem grande ira, pois sabe que pouco tempo já lhe resta. — O pregador aproximou-se mais ainda do estranho. — Estas palavras estão no livro do apocalipse. Não tem medo do mal que ronda este planeta? O mundo jaz no maligno, e aqueles que não têm a proteção divina estão à mercê dos caprichos do demônio.

O estranho lançou um sorriso discreto ao pregador. Arrancou da boca a bituca de cigarro, jogou-a no chão e pisou, apagando a brasa.

O sol brilhava mais quente do que o normal. O céu estava limpo, sem nenhuma nuvem. Nenhum pássaro ousava se aventurar no céu nessa hora.

O pregador lançou-lhe um olhar desafiador. Ele usava roupas pretas. No braço, estava uma tatuagem que dizia as palavras: “Jesus salva”, e ele tinha o cabelo meio bagunçado.

O estranho não era muito diferente. Os cabelos jogados sobre o rosto dificultavam ver seus olhos.

A calça jeans empoeirada mostrava que ele vinha há horas caminhando sob o sol quente. A mochila em suas costas estava cheia, provavelmente com roupas. Era um viajante.

Sob sua camisa, na região da cintura, havia um volume. Era uma pistola Glock ainda quente. Ninguém sabia, mas este homem, este viajante acabara de matar três homens. Se soubessem o motivo, porém, dariam razão ao assassino.

— Quando Deus disse estas palavras, padre, — o viajante olhou fixamente para o pregador, — ele estava falando com os animais e com as plantas, com os peixes e algas, e com os pássaros; porque o diabo que desceu até eles somos nós, padre. A humanidade. Nós somos o mal que caminha sobre a terra espalhando morte e dor. Nós somos a personificação do sofrimento, padre. E se o diabo que o senhor tanto fala existe mesmo, ele deve estar escondido embaixo de alguma cama, tendo pesadelos conosco.

O viajante segurou com força a alça da mochila e se pôs a caminhar. Antes, porém, que se afastasse demais, o pregador novamente chamou sua atenção.

— Quem é você e o que o trouxe a esta cidade? — Perguntou, franzindo o cenho.

O estranho parou. Olhou para o chão. Hesitou por um segundo antes de responder.

— Não sou ninguém, padre. Não sou mais. Já tive uma família, — o homem ainda tinha o rosto abaixado quando uma lágrima desceu por seus olhos e misturou-se ao suor — mas não tenho mais. Sou um homem vingativo que andou até os confins desse país atrás de três homens que mataram e estupraram minha esposa. — O homem sorriu. — Os encontrei e, ah, padre, tenho certeza que eles preferiam ter se encontrado com o diabo!

— Quem faz uma coisa dessas não é um homem, é um monstro.

— Engana-se, padre. Eram homens mesmo. Homens que viram o sorriso da minha Glock.

— Se o que dizes for verdade, espero que eles vejam o sorriso do demônio quando chegarem ao inferno.

— Eles viram, padre. Porque antes de matá-los, eu sorri.