Leandra nasceu morta

Leandra não existe no mundo real. Não por ter nascido morta, mas por ser meramente uma personagem. Ainda assim, Leandra está morta.

Escrevi Histórias de Minha Morte no começo desse ano, quando eu mesma fui obrigada a renascer. Leandra não é um alterego meu; aliás, temos perfis tão diversos que ela foi certamente meu melhor exercício de abrir mão de mim mesma. Leandra é negra de periferia. Eu sou quase transparente, pertenço aos 2% da população com olhos verdes e cresci na classe média.

Então o que eu e Leandra temos em comum?

Bom, eu criei Leandra. Trouxe a ela muito de mim. Claro que trouxe. Nunca passei perto de sentir na pele o peso e a canalhice do racismo, mas cresci e permaneço gorda. Mas cresci e permaneço pária. Aquela de lado, aquela cuja existência parece muito mais um acidentes, uma catástrofe, do que um simples fato natural. Eu e Leandra somos dois lados da mesma moeda.

Como entendi isso?

Quando mataram Leandra outra vez.

Perdoe leitor, acima de tudo, nasci poeta. Dramática com ascendente em câncer. Talvez sem meu drama eu sequer me consideraria escritora. Não teria assumido a arte como parte de mim 30 anos depois de começar a criar minhas próprias histórias.

Mas artista é tudo vagabundo, e vagabundo no feminino é tudo o que eu sempre tive medo de ser rotulada. Vagabunda não é um bom adjetivo para uma moça de família, ouso afirmar.

Não sou vagabunda. Ostento sem orgulho um desemprego que já soma 3 semanas. Ah, nossa, irá dizer o leitor, 3 semanas não é nada. Férias, praticamente — conte isso pra NET quando a conta da internet chegar.

Mas o foco não é esse, o foco é Leandra. Leandra viveu o inferno. Digo, morreu o inferno. Vê-la morrer de novo cada dia um pouco me mata também. Me mata a ponto de eu, serelepe, ligada no 220W desde que nasci pipoca, me entreguei ao luto no melhor estilo novelesco — entre uma crise de choro e outra, apelo à química pra dormir. A droga é que em geral Leandra morre de novo nos meus sonhos.

Droga de mente criativa essa, não?

O causo é que apesar da minha total e completa insignificância literária — aquela nunca lembrada, aquela que nem rodapé ganhou no embrulho de peixe quando bateu a marca de 8 prêmios literários num único ano, eu ainda tinha fé.

Durante anos corri atrás. Nem precisei de bisturi pra diminuir o tamanho no narigo na cara porque as portas que tomei nas fuças pós primeiro romance adulto finalizado fizeram o serviço. Foram 8 longos anos para o lançamento mais chinfrim da história e para o solene transporte do meu primeiro livro da gaveta do meu quarto à caixa empoeirada no porão da história.

As vezes eu bato no peito e declaro-me autora da obra “Depois de tudo” para ouvir, dos honestos, “nunca ouvi falar”. É, não mesmo. Eu sei que não. Ainda tenho algo em torno de 600 marcadores de páginas e dois exemplares requisitados por 8 pessoas que sempre esquecem de levar o dinheiro e nunca lembram de me avisar que o pediram apenas por educação.

Mas então nós temos a Leandra. Leandra é protagonista de Histórias de Minha Morte. Leandra encontra o próprio corpo caído no chão da cozinha num sábado de manhã e não se conforma que seu exemplar de A Divina Comédia só possa ter pego por corpos vivos, e não por uma fantasma. Leandra viveu o diabo quando ainda tinha pulmões e isso tudo cai no colo dela como um missel.

Leandra tinha algo a ensinar a vocês.

Tinha.

Até que alguém da justiça pegou pra ele os sonhos de 70 outros idiotas como eu. E estamos os 70 idiotas há 60 dias a ver navios. Aliás, bom seria ver navios, porque pelos menos eu respiraria o ar puro do litoral e não o sufocante desejo de conhecer Leandra — a personagem — ao vivo.

Leandra tinha uma bela história pra contar. O 5 membros da comissão que avalia os trabalhos no nosso fomento à cultura aqui da minha província concordam. Concordam muito. Saí daquela sala com um papel que pensei em mandar emoldurar dizendo que Leandra contaria sua história ao mundo.

Ainda bem que não o fiz. Já basta o relógio e o calendário zombando com a minha cara, tudo o que eu não preciso agora é daquele papel dizendo que eu venci e que isso não fez absolutamente nenhuma diferença.

Isso nunca tinha acontecido antes. Quase duas décadas de artistas revelados e consagrados e resolveram brincar de dardos justamente com a gente, esse ano, o único ano em que eu e Leandra resolvemos que era nossa vez. 30 anos depois a zombaria do destino me diria: “não, meu bem, você nasceu pra terminar seus dias escrevendo versinhos de batom na porta do banheiro da rodoviária”.

A novela não acabou. Isso não é uma despedida. Isso é a textificação do cansaço, do desânimo, da invisibilidade que fará com que esse texto seja ignorado por quem ainda tem algum poder. E por que afirmo isso? Porque se nem a avalanche de prêmios que ganhei ano passado os chamou a atenção, porque diabos a rasteira que estou levando chamaria?

Leandra venceu. Depois de uma vida de bosta, ela venceu. Mas tal qual nas páginas que escrevi com a alma, Leandra está sendo enterrada. Eu estou indo junto. Metaforicamente, por óbvio, mas estou.

Não estou perdendo Leandra pra sempre. É óbvio que temos o plano B, C, X, alfa, gama, pi. Que seja. Usei um desses pro Depois de Tudo e minha intenção de repetir não é zero, é menos que isso. Não, não vou correr pra quem vai me enfiar numa gaveta bonitinha porque pra isso nem preciso que Leandra saia de casa. Menos ainda um plano que me exija um dinheiro que não tenho, já que o plano vitorioso que levaria Leandra ao mundo mas a trancafiou no gabinete de um procurador também me custou um dinheiro que eu não tinha (desculpe tia, vou ter que te passar a perna nessa, mas a culpa não foi minha, eu venci, eles que tiraram de mim).

Aliás, analogia interessante, a história de morte de uma negra de periferia trancafiada num gabinete do judiciário sem poder ganhar o mundo. Fascinante, não?

Enquanto essa história se esconde da luz do sol e parece não haver um único “comprometido com a informação” disposto a desnudar a novela, eu sigo fazendo a única coisa que me resta agora: e-mails sem resposta, posts que nunca chegam nas pessoas certas, texto de Medium que não será lido porque pode fazer alguma coisa.

E rivotril.

Eu ainda tenho rivotril.

A Leandra continuará morta.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.