Tiro de meta: quando o futebol vai além dos lances em campo

Uma breve análise de como os protestos realizados por torcidas organizadas podem dar novos rumos a questões políticas

Douglas Pingituro — Brazil Photo Press

No dia 13 de fevereiro de 2016, a Arena de Itaquera realizou um clássico entre o Corinthians e São Paulo, nesse dia além de torcer pelo time, a torcida organizada do Corinthians — Gaviões da Fiel realizou um protesto contra a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Federação Paulista de Futebol (FPF) e a Rede Globo de Televisão. A torcida levantou faixas com os dizeres: “Quem vai punir o ladrão de merenda?”. As palavras eram direcionadas ao deputado do PSDB Fernando Capez, que defende a extinção de torcidas uniformizadas nos estádios e tem seu nome envolvido no escândalo das merendas no estado de São Paulo, além disso, houve também um protesto contra a Rede Globo de Televisão que detém os direitos de transmissão dos jogos do Campeonato Paulista. Posteriormente, as faixas foram retiradas do local após exigência da PM, que alegou que o material era ofensivo, o que acabou gerando um tumulto nas arquibancadas.

Realizamos uma breve entrevista com o Cientista Social e professor formado pela Unicamp, Flavio Ferrão, para fazer uma análise sobre o protesto, apresentando seu ponto de vista sobre a situação. Flavio traz um retrospecto, a partir da época da ditadura com relação ao futebol nos dias de hoje, além disso, iremos mostrar como esse tipo de manifestação pode influenciar no comportamento político da sociedade.

Revista Apóstrofe: Não é primeira vez que vemos o futebol se relacionando com a política no Brasil, na época da ditadura militar temos alguns registros de que os políticos podem ter influenciado até mesmo em assuntos relacionados a seleção brasileira. Você acha que houve alguma mudança desde essa época até os dias de hoje com relação a interferência da política no esporte?

Flavio Ferrão: A ditadura Militar foi mais presente e de forma mais direta na organização do futebol como um elemento político midiático de controle ideológico da população. Hoje vemos uma ação mais indireta, apesar de todos os eventos esportivos sediados no Brasil. O atual governo federal, tentando lidar com essas questões, em 2015 lançou o “Profut” — Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro — Que busca ser um marco regulatório destas questões trabalhistas. Há sim, portanto uma mudança da relação do futebol com o cenário político brasileiro. Cartolas e outros empresários do futebol, principalmente dos grandes times, tem se aproximado mais dos Congressos Estaduais e Federais do que propriamente do Executivo, como acontecia na ditadura.

RA: No mês de fevereiro a torcida do Corinthians realizou um protesto durante o jogo com o São Paulo, em Itaquera, tendo como alvo o escândalo das merendas em São Paulo, em sua opinião, o que pode ter desencadeado a torcida do Corinthians a direcionar os seus protestos para o governo do estado?

FF: O fato da torcida do Corinthians ter um perfil mais popular e inserido na zona leste de São Paulo, região que contou com grande participação nas ocupações estudantis contra a reorganização proposta pelo governo federal que visava fechar escolas, também é um indício do que motivaram essas manifestações. A relação da torcida com outros movimentos populares, como o hip hop, o rap, o grafite, entre outros também transforma essa torcida em uma das mais politizadas do país.

RA: Alguns protestos da torcida do Corinthians foram direcionados não só a política, mas também a questão da monopolização dos jogos exibidos pela Rede Globo, como você acha que a torcida conseguiu perceber essa manipulação?

FF: Sem dúvida também há uma crítica a mídia e não é de hoje e não somente do Corinthians. A manipulação dos horários de acordo com a preferência da grade da Rede Globo é sentida e criticada em quase todas as torcidas. As torcidas organizadas são muito presentes no campo, e boa parte, de origem trabalhadora periférica, e não se conformam com o fato dos jogos quase sempre serem depois das 10 da noite, o que gera uma dificuldade de locomoção e de desgaste pelos horários de término das partidas.

RA: Após a torcida de o Corinthians ter feito esses protestos, você acredita que possa acontecer algum tipo de censura por parte da PM, ou algum tipo de manipulação por parte da mídia sobre essas informações? Por quê?

FF: Censura, repressão, isso já vem acontecendo dentro dos jogos, não exatamente pela PM, mas através da PM a mando do governo estadual. As críticas feitas ao governador, acabam por reverberar nas redes sociais. Inclusive, algumas ações que caem nas redes sociais nem sempre foram ações verdadeiras por já existir uma repressão. Há casos de fotos manipuladas com aplicativos de edição de imagem para produzir cenas de protestos que não aconteceram, ou pela dificuldade de coordenar essas ações nos estádios, ou como um ato de “cyber-ativismo”. Isso pode ser visto como uma reação a manipulação da mídia que tenta esconder ao máximo tais manifestações, ou quando as retrata, as coloca de maneira pouco profunda em seus noticiários.

RA: Você acha que esses protestos podem trazer mudanças com relação ao comportamento e envolvimento da população com a política? Por quê?

FF: Podem sim, mas acho que eles são mais um reflexo de toda a situação política, do que exatamente um agente de mudança. Toda ação crítica que vem de dentro de espaços que em tese deveriam ser um espaço de entretenimento gera algum deslocamento do olhar, alguma forma de crítica que vem de forma popular e espontânea. Isso é muito bom, e pode sim, gerar uma politização crítica a partir do futebol, pelo menos desloca o imaginário que todos que gostam de futebol são apolíticos. E aqueles que gostam de futebol e não estão engajados em nenhuma causa, pelo menos sabem dessas mobilizações, e podem começar seus processos de consciência política a partir dessa visibilidade que as torcidas buscam com tais atos.