Que som tem a sua vida?
“Do fundo do meu coração
Essa aqui vem do meu coração
O mais profundo canto do meu interior
Pro mundo em decomposição
(Essa aqui também é uma forma de oração)
Escrevo como quem manda cartas de amor”
Emicida

Será que as pessoas ainda gostariam de você se soubessem do que você é composto? Se soubessem quais notas você é? Todos os seus hábitos e dons musicais? Ou ainda, se tivessem acesso a sua playlist mais profunda?
Às vezes, nem eu gosto do que me compõe. Das trilhas que desenham minha partitura. Eu pergunto, mas sei que as pessoas não gostariam também de algumas notas. Pessoas gostam daquilo que projetam, do que conhecem e do que criam (todas as pessoas são um pouco assim, até eu sou como elas).
Pessoas gostam de ouvir o que vem pronto. Aquilo que é confortável. Poucos são os que têm nas suas playlists um repertório eclético. A gente gosta do que conhece. A gente gosta do instrumento que a gente toca. O som do outro sempre incomoda.
A gente se torna bonito, se torna inteligente, se torna interessante, “música boa de se ouvir” só quando convém (ou quando o ouvinte precisa daquela música por um instante). Mas somos composto de tantas notas e melodias, inclusive de pausas e acordes desafinados. E isso faz com que as pessoas prefiram o raso ao mergulho em concertos longos e desconhecidos.
Eu me peguei pensando outro dia, que não volto em alguns lugares, não escuto algumas músicas e nem falo com algumas pessoas, exatamente para não relembrar coisas que eu já vivi e formam as trilhas e os compassos da minha vida.
Outras vezes ainda, eu revisito sim lugares. Revisito espaços, cheiros e sons buscando me ouvir. Gosto de abrir alguns relicários, quando não existem pessoas por perto, só para ouvir o som que tem as lembranças. “É a vista que os meus olhos querem ter…”
Sim! A música é gatilho para alguns tiros que somos capazes de disparar.
Você já pensou que composição é a sua vida? Que partitura você tem escrito? Qual é a música que parte da sua “metralhadora cheia de mágoas”?

Eu penso às vezes nisso, e é como se eu colocasse os fones e no meio da multidão me transportasse para outro lugar. Para aquele lugar interno, com a trilha, cheiro, som e a pessoa especial… como se ainda pudesse ouvir ele cantando:
“Load up on guns, bring your friends,
It’s fun to lose and to pretend,
She’s over-bored and self-Imaassured”
Mais perdido que o Kurt quando compôs “Smells Like Teen Spirit” era ele dedilhando essa música na guitarra. Intenso e perturbador, e eu detestava aquela guitarra! Na mesma intensidade que ele detestava samba.
Você já odiou o som de um instrumento que você amou? Acredite, é possível!
Eu sempre me questiono se é possível também que três décadas tenham dias suficientes para uma pessoa se perder (ou seria se encontrar)?
E uma voz sempre me responde que é suficiente sim:
“Deixe-me ir,
Preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Rir pra não chorar”
Talvez nem fosse necessário “uma tal faixa amarela” para que eu lembrasse dos muitos passos dados e das danças que nunca mais serão dançadas. Dos encontros e desencontros da vida. Dos “plays”, “pauses” e “repeats”…
Às vezes eu só queria que as pessoas pudessem entrar lá em casa, tomar um pouco daquele chá — que ainda é o meu preferido mas eu nunca mais tomei, ao som de uma boa música clássica.
Ou que pudessem ver o espelho com luzes na sala e o adesivo da “Ritmo Puro” na janela daquele apartamento planejado de móveis, expectativas e entusiasmo, que limpamos uma vez cantarolando “Blues fallin down like hail” (e desde então eu nunca mais ouvi blues!)
Sinto falta de fumar um cigarro, beber e dar risada enquanto cantávamos Cássia e ele dedilhava no violão “All Star”, do Nando. Sinto falta de fumar um cigarro ou um maço (tanto faz) enquanto o esperava.
Poderia ser Legião, Rita ou Charlie Brown. Será que hoje ele acharia o Baco ruim como ele achava Rachid? Como é possível alguém não gostar de Rachid?! rs! Realmente cada composição agrada somente a alguns gostos.
Vocês sabiam que até o Emicida já cantou Chorão?
Cada coisa inusitada que acontece no mundo, não é mesmo?
Cada releitura, cada dueto e cada composição inesperada!
Cada caderno pautado cheio de melodias escritas que é rasgado.
Incrível como tudo que é composto pode ser desmanchado. Igual a guitarra, a mobília e aquela casa. Que, na verdade, era um apartamento. As coisas vão, que nem as pessoas — rápidas como um dedilhado! Intensas mas breve: como uma boa música.
Sinto vontade de ver o sorriso das pessoas, felizes com aqueles que o cercam, sem precisar esconder a nossa partitura riscada. Felizes como nas parcerias musicais, por mais inesperadas que sejam.
Na verdade, eu sinto vontade de conhecer pessoas intensas e musicais que não perdem o compasso, como quando a gente é novo, feliz e despreocupado e fica feliz dando tiro sem perder o ritmo na mesma carreira. Coisa de poucos: felicidade instantânea! A mesma felicidade de ouvir uma música que te toca em um momento especial.
A vida é isso, né: muitos encontros, nem sempre bons duetos. Muitos ensaios e empenho, para alguns poucos solos apresentados. Elvis cantaria Frank Sinatra neste exato momento “And now the end is near; So I face the final curtain; My friend, I’ll say it clear…” e eu, de novo te perguntaria: que som tem a sua vida?
Se fosse um ritmo, sua vida seria samba ou seria lundu?
Minha vida seria uma música de todo o mundo, se fosse cântico, com toda certeza seria vissungo!
Com poucos momentos de improvisos versados mas a garantia de muitos olhos marejados.
Talvez seja loucura pensar na vida musicalmente, porque afinar instrumento é cansativo e estar em harmonia demanda muito da gente.
Mas se fosse percussão, olha que inusitado: minha vida seria percussão. Com certeza um pandeiro, embora as pessoas prefiram sopros ou violinos e eu ache lindo mesmo é repinique!
Dos versos jogados, cânticos sussurrados e instrumentos afinados, às vezes eu queria que a vida fosse só Legato e menos Staccatos. Outras vezes, eu queria que fosse só partitura virada e música nova começada. Música nova, renovada, já ensaiada. Tirada de ouvido: autodidata.

Eu não sei ainda a melodia da minha vida daqui um ano…
Mas mudando de assunto, eu já contei pra vocês que eu toco piano?!