A história secreta da Mulher-Maravilha e a sua imagem empoderada

Capa da primeira revista Ms. As editoras esperavam fazer uma ponte entre o feminismo dos anos 1910 e o feminismo dos anos 1970 com a Mulher-Maravilha dos anos 1940.

Por Mayara Bastos

Eu amo cinema desde pequena, mas poucas personagens me representavam tanto como nos tempos atuais. Via sempre a atriz Audrey Hepburn como um exemplo de personalidade: gentil, charmosa e empoderada, mesmo com todas as regras da época. No século XXI, a palavra “empoderada” está cada vez mais em evidência, não só pelas girls lutarem cada vez mais por espaço no entretenimento, mas também apresentar personagens femininas dentro de um contexto em que podemos nos identificar um pouco.

Atualmente, a TV é a casa de histórias com grande destaque em personagens femininas, como as vencedoras do Emmy 2017 The Handmaid’s Tale e Big Little Lies e até mesmo a nova roupagem de Star Trek, cuja protagonista é mulher e negra. Já nas telonas, temos figuras como Imperator Furiosa (Mad Max), Noiva (Kill Bill), Rey (Star Wars), Lisbeth Salander (Millennium Trilogy) e… Mulher-Maravilha.

A Mulher-Maravilha demorou 75 anos para ganhar uma produção cinematográfica própria. E ela é tão importante no universo dos quadrinhos quanto Batman e Superman! Em 2017, o filme solo da amazona quebrou vários paradigmas: foi o filme mais lucrativo do cinema até agora e sua diretora, a mais bem paga da história. E pensar que a Mulher-Maravilha ainda teve de mostrar seu valor e a história por trás da guerreira de Themyscira é fascinante, ao mesmo tempo, surpreendente.

Vamos lá para 1938: ano que surgiu o Superman. Os editores de revistas passaram a receber muitas críticas de pais e professores que acreditavam que os quadrinhos “deseducavam” as crianças. Um psicólogo e professor chamado William Moulton Marston discordava firmemente desse conceito. Além de ter sido o inventor do detector de mentiras (que foi inspiração para o Laço da Verdade), Marston era um “feminista”: ele acreditava que a sociedade seria um lugar melhor sob o domínio amoroso das mulheres.

Quando ele foi chamado para fazer consultoria para a DC Comics, Marston convenceu os editores da força e importância de uma super-heroina em meio a um mercado de personagens totalmente masculinos. A Wonder Woman nasceu em um esboço de uma moça com sandálias gregas, braceletes e tiara de rainha. Marston sugeriu mudanças que geraram a ira das próprias mulheres: ele queria que a Mulher-Maravilha usasse shortinho e botas vermelhas de cano alto. Isso era um ultraje para as mulheres evolvidas na produção por achar provocante e bastante fetichista.

O curioso era que o professor Marston queria usar as HQs para implementar a igualdade de gênero, mesmo sendo de forma inusitada. Ele queria que a Mulher-Maravilha usasse braceletes para repelir as balas, dando assim mais poder a ela. Ele acreditava que esse tipo de ousadia poderia passar uma mensagem importante: que as novas gerações de mulheres se preparassem para um mundo novo e inspirá-las a autoconfiança em ocupações até então monopolizadas por homens.


“Sinceramente, a Mulher-Maravilha é propaganda psicológica com vistas ao novo tipo de mulher que, na minha opinião, deveria dominar o mundo.” — William Moulton Marston


Mas a vida pessoal do professor Marston foi uma fonte de referências à personalidade de Diana Prince. Após a sua morte, em 1947, descobriu-se que ele era casado com duas mulheres ao mesmo tempo: Elizabeth Holloway e Olive Byrne, que inspiraram e colaboraram nas primeiras histórias da personagem. Mesmo assim, elas não tiveram autorização da DC Comics para ajudar nos roteiros.

Agora, chegando na DC Comics, a personalidade da Mulher-Maravilha era a de “bela, recatada e do lar”, ou seja, chegou a atuar como babá, conselheira sentimental e estava louca para casar com Steve Trevor. Anos à frente, entre 1975 e 1979, foi produzida uma série de TV com Lynda Carter (que antes foi Miss América) e participações em desenhos da Liga da Justiça; em 2012, a Amazon engavetou um projeto de seriado para Wonder Woman e ainda em 2017, a atriz israelense Gal Gadot aparecerá novamente na pele da heroína, dessa vez na versão live-action da Liga.

Conhecendo toda essa história por trás da lenda Mulher-Maravilha, vemos que toda essa comoção e sucesso que ela está tendo nos dias atuais são significativos, não só para abrir as portas para mais personagens femininas de destaque no entretenimento, mas como um modelo de humanidade em defesa da igualdade e do amor entre os seres humanos, numa sociedade que está cada vez mais intolerante com seu próximo.


“Eu acredito no amor. Apenas o amor vai verdadeiramente salvar o mundo.” (Diana Prince Rockwell Trevor ou simplesmente, Mulher-Maravilha)