Geleia de Hibisco

As montanhas são formadas por movimentos dentro da crosta terrestre. Sedimentos depositados: Epiderme, derme e hipoderme.

Os papéis se amontam na minha mesa, sou um grande acidente geográfico. Sou também o maior e mais sensível órgão do corpo humano, a pele.

Eu tinha quatro anos de idade e ainda não sabia direito meu lugar no mundo, mas todo mundo me chamava de “Ferroin”, e então eu comecei a pensar que eu talvez tivesse alguma coisa a ver com porta.

Conhecia todas os formatos de maçanetas e tinha um caderno cheio de desenhos do que via através dos buracos das fechaduras.

Eu estava desenhando a senhorita Bela mexendo algo dentro de um tacho enorme cor de cobre, ela usava um avental branco e notei que estava sujo de uma substância de um vermelho escuro. Bela cantava Moon and Sand… E eu não sei se naquele momento me apaixonei pelo canto de Bela ou se o que sentia era um prenuncio do gosto da geleia de hibisco que ela preparara, e que agora servia para mim como tinta para a pequena mancha no vestido de Bela.

Ouvi uma rajada de vento ecoando pela casa. Meus pais eram um pouco excêntricos, esse era o som da nossa campanhia tocando. Logo após isso três batidas, muito bem ritmadas, parecia vir das mãos de alguém com muita prática.

Corri.

Precisava da imagem de quem batia a porta, precisava olhar pelo buraco da fechadura.

Depois de bela mexendo um tacho de geleia de hibisco, desenhei uma fechadura que dava para nada além do amarelo. Antes que alguém abrisse a porta cogitei: o que o sol queria com a minha família e onda teria aprendido a bater na porta de uma casa que tem campanhia? achei meio absurdo. Bela abriu a porta e um moço de calça azul e blusa amarela a entregou uma carta, estava endereçada a “Ferroin”, eu não sabia ler mas conhecia as letras então decorei o que estava escrito na camisa do moço: c-o-r-r-e-i-o

Bela não abriu a carta, guardou dentro do meu caderno de desenhos e voltou para a cozinha.

O tempo passou… A carta foi esquecida em meio a inúmeras cenas documentadas por um menino que ia e vinha, que ia e via. Não fosse o meu filho, na mesma idade que eu tinha quando o sol me visitou, ter encontrado meu caderno no fundo de uma gaveta (diferente de mim ele acreditava que todas as gavetas tinham fundos falsos e que encontraria um portal em alguma delas), eu nunca teria aberto aquela carta…

Era um desenho parecido com os meus, só que dessa vez a imagem através do buraco da fechadura era de um olho claro, verde, a pupila dilatada… Era eu! Era meu!

Fiquei de certa maneira assustado porque a única imagem que tinha na memória era a de Bela, e antes daquela carta chegar eu só tinha visto ela e o sol através da fechadura, e ela fora o meu primeiro desenho.

Fiquei assustado, e conclui: Bela também estava de olho em mim.

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