Mamona
Os nervos ficavam à flor de pele! O sangue pulsava só de encostar na textura rústica com veios em evidência. O cheiro fresco e agudo das folhas verdes entrava cortante na única narina disponível, já que a outra estava recheada de muco verde claro. Tirando do caminho as folhas, atravessando as várias e várias até o objetivo, as mãos chegavam ao destino, um maço recheado de bolinhas verdes e cabeludas, do fruto de um veneno perigoso que naquelas mãos, ainda sem noção de maldade, se tornariam balas de arma de fogo e fariam corpos e rostos se contorcerem.

Havia treinado o final de semana inteiro, muito para os seus míseros sete anos de idade, tinha certeza de que era imbatível. Com o treino que havia feito não erraria mais, garantirá o saque mais rápido do bairro e a mestria na arte da molecada. A guerra de mamonas.
Saiu do meio das folhas, pisou firme nos degraus que o levariam do barranco para a rua e cerrou o cenho. Sentindo os bolsos cheios percorreu com os olhos o horizonte e viu a turma de cinco garotos se aproximando.
Estava na hora! A excitação se transformava em um suor límpido que brotava da testa e ardia os olhos. O nariz, acompanhando o calor do sangue, se abria fortemente expulsando o catarro verde claro dali…
Um jovem louro passava correndo sem chance de sobrevivência. Foi a primeiro vítima de um final de semana de esforço e aprendeu uma lição sobre dedicação ao tomar a primeira bola de ricina no meio da testa. Vermelho, pôs se a chorar.
Com o catarro sobre o lábio, correu como um rolimã em descidão enquanto vivênciava uma de suas primeiras noções de aventura, com muito foco e rapidez sacou as próximas três balas do bolso. Aproveitando-se da velocidade, correndo em circulo, focou e atirou em um jovem gordo usando três movimentos seguidos, um tiro certeiro no meio do peito, um no braço e outro na bochecha.
Sentia-se invencível e ao parar para apreciar o gordo caindo no chão, viu toda a sua motivação ruir. Num subito, fechou o olho direito, automático e num movimento certeiro fez com que o catarro fizesse o caminho de volta. Um flash verde o cegou, destruiu qualquer noção de grandeza existia ali e o fez tombar, mais por decepção do que por impacto, com os pés para o alto e as costas grudadas no chão.

A silhueta de um rapaz mais velho tapou o sol e garantiu que a única coisa que ele visse fosse um sorriso arteiro, daquele que nos faz distinguir os inteligentes dos espertos.
Ali no chão, com a mão direita no bolso das mamonas, começava a ter certeza de que essa não seria a primeira vez que o vida a derrubaria.
