Afinal, a Psicologia é ciência? Breves considerações históricas

Antes de abordarmos o que é Psicologia, pretendemos apresentar um método para responder esta pergunta. A primeira forma de fazê-lo, nos dias atuais, é jogar o termo em um site de busca na internet. A principal página de consultas rápidas é a Wikipedia, que pretende ser uma enciclopédia livre, de modo que o conteúdo apresentado é de construção coletiva e cada pessoas pode alterar ou acrescentar. Nesta medida, trabalho sua primeira definição:

Psicologia é a disciplina acadêmica e aplicada que envolve o estudo científico do comportamento e das funções mentais. A psicologia tem como objetivo imediato a compreensão de grupos e indivíduos tanto pelo estabelecimento de princípios universais como pelo estudo de casos específicos, e tem, segundo alguns, como objetivo final o beneficio geral da sociedade. Um pesquisador ou profissional desse campo é conhecido como psicólogo, podendo ser classificado como cientista social, comportamental ou cognitivo. A função dos psicólogos é tentar compreender o papel das funções mentais no comportamento individual e social, estudando também os processos fisiológicos e biológicos que acompanham os comportamentos e funções cognitivas.

A Psicologia, termo cunhado do grego psiquê (alma, mente) e logos (discurso, estudo) revela, desde sua partida, sua dificuldade: de que maneira estudar pelo discurso o que é da alma, o que é imaterial? Neste sentido, toda a filosofia toca a psicologia de alguma maneira, pois é uma tentativa de conciliar o que é o humano, o que é a mente, o que é a vida, o que é a sociedade, etc. O ato de pensar sobre a percepção de mundo e o próprio pensamento é tributário à filosofia desde a Grécia antiga. Interroga-se então, em que ponto a Psicologia se transforma em uma disciplina autônoma.

A história atribui a Wilhelm Wundt o título de fundador da Psicologia com a inauguração de seu Laboratório de Psicologia Experimental na Universidade de Leipzig em 1879. Na verdade, o marco inaugural não seria o fato de ser o primeiro laboratório deste gênero, mas ter-se tornado o primeiro centro internacional de formação de psicólogos. O caráter internacional permitiu a difusão desta prática de psicologia experimental entre outros países, estabelecendo assim a primeira concepção do psicólogo.

As transformações das universidades alemãs, no início do séc XIX, retirou a filosofia do lado das “faculdades inferiores,” contrária à teologia, medicina e direito como “superiores,” e colocou-a no centro de uma formação humanista integral (Bildung). Nesta perspectiva, ensino e pesquisa estabelecem laços de indissociabilidade, modificando a própria concepção do ensino entre os países europeus. Já em 1824, o Estado alemão determinou a introdução de uma disciplina de psicologia nos cursos de formação para professores para desenvolver conhecimento sobre os fatores psicológicos do processo de ensino-aprendizagem.

A instituição da psicologia como disciplina científica se consolidou com o laboratório de Wundt que pretendia estudar intensidade das sensações, sensações táteis, psicologia do som, sensações de luz, gustação, olfação, percepções espaciais, curso das representações, estética experimental, processos atencionais, sentimentos e afetos, processos de associação e memória, entre outros processos. Entretanto, a psicologia na concepção de Wundt era apenas mais um braço de sua proposta de uma Weltanshauung, isto é, uma visão de mundo a partir de uma construção filosófica. A psicologia seria uma entre as disciplinas que estudam parte da experiência imediata, servindo de complemento para às ciências da natureza que tinham por método a experiencia imediata. Tendo de estudar aspectos individuais e coletivos, a psicologia deveria compreender todos os aspectos da mente.

As consequências dos estudos da psicologia experimental, em especial as restrições do método introspectivo, entraram em tensionamento com outras formas de abordagens que eram atribuídas à Psicologia. Podemos indicar três braços: uma psicologia que se pretende científica tal qual as áreas das ciências naturais como a fisiologia; a psicologia experimental que já discorremos; e os psicometristas, que através de instrumentos de medição buscavam realizar uma abordagem matematizada dos processos mentais e assim obter maior soma possível de informações através do tratamento quantitativo.

Porém, a psicologia já havia se espalhado para além das pesquisas e estabelecia diferentes práticas: o comércio e a industria necessitavam de seleção de empregados, administração de pessoal e o controle dos fatores humanos no trabalho (Psicologia Industrial); a demanda pelos processos de aprendizagem nas escolas, bem como as orientações e o manejo das situações de maior dificuldade das crianças e adolescentes (Psicologia Escolar) e o acompanhamento dos débeis mentais, psicopatas e loucos nas instituições, além das práticas clínicas das neuroses em associação à prática médica (Psicologia Clínica).

Vemos que em nenhum momento a Psicologia se pautou em uma unidade, pelo contrário, foi na construção de diferentes sistemas psicológicos e práticas que seu campo foi aberto. As diferentes formas de estabelecer um fato científico são inerentes aos próprios métodos utilizados. Assim, os sistemas de psicologia não são totalmente imparciais e determinados apenas pela lógica científica positivista. Cada sistema de psicologia não pode ser separado dos contextos que lhe deram origem, incluindo tradições, padrões, valores e preconceitos.

Importante ressaltar que a pluralidade dos sistemas e práticas da Psicologia, longe de significar erro ou prejuízo, indica para o próprio problema de seu objeto. Vemos aqui a base para a problemática da Psicologia como ciência desde sua fundação: qual é o objeto da Psicologia? Antes de avançarmos neste ponto, é importante estabelecer o método como condição para a ciência. A mudança promovida no mundo pelo corte do cogito cartesiano inaugura o pensamento moderno pela dúvida. O método cartesiano consistia em duvidar-se de cada idéia para que, na tentativa de responder a estas dúvidas, um saber possa se constituir até que a idéia esteja clara. Ou seja, sendo a dúvida indubitável, tudo que existe é passível de ser duvidado, pensado, elaborado e comprovado,a ponto de afirmar que apenas nossos pensamentos estão sob nosso poder, qualidade atribuída por Deus para discernir o verdadeiro do falso.

Com isso, fez uso deste método para duvidar e responder quanto à duas entidades que tem grande importância: o eu e Deus. Foi através da dúvida que colocou Deus em análise e assumiu que, para que seu método seja eficaz é preciso considerar que Deus não seja enganador. Este foi o primeiro golpe desferido pela modernidade (e que a instituiu propriamente dita) contra a onipotência divina. Se há um Deus, este se tornou limitado com o princípio a ser considerado de sua impossibilidade de bagunçar as leis estabelecidas pelo método. E há um Deus que criou o mundo perfeito e o fez funcionar por intermédio de leis, e que, para garantir seu funcionamento, precisou retirar-se dele, cabendo ao método descobrir estas leis que regem a existência.

A ciência moderna marca a passagem de um cosmo fechado e ordenado hierarquicamente a um universo infinito e homogêneo a partir do corte feito por Descartes em relação ao saber. Há de um lado o eu autônomo, dotado de suas faculdades de pensar, cuja ação do pensamento determina certa relação com o mundo, mundo este que se torna então objetivo, separado e também autônomo. O corte cartesiado, corte entre saber e verdade, é também o que determina o sujeito e o objeto.

A Psicologia encontra sua dificuldade na própria determinação de seu objeto. Wundt inicia seu projeto de uma psicologia experimental pela introspecção, método onde sujeito e objeto se confundem, onde o sujeito é ele próprio objeto. Sua primeira tentativa para responder a este impasse é apontar para um treinamento necessário ao sujeito para tomar a si como objeto. Essa medida delicada é substituída por outra prática, a de estudar a Psicologia a partir das manifestações culturais. A resposta de Wundt ao paradoxo inerente não foi suficiente para sustentar o paradoxo em si.

Estebeleceu-se assim, em especial nos Estados Unidos, a necessidade de buscar a empiria necessária para tomar a Psicologia como ciência. O que antes era pesquisado por certo caráter espontâneo da experiência e da capacidade cognitiva de lembrar-se da experiência que se tornou um fato científico, a experiência em Psicologia assume importância fundamental, pois uma experiência científicaadquire só a informação que é relevante, excluindo o mais completamente possível os fatores subjetivos e incidentais na observação. Assim, o pesquisador lança mão da experiência para evitar ao máximo o que seria da contaminação de suas próprias crenças, tratando os dados objetivos a partir de sua matematização e adequação às estatíticas. Enfim, o método científico é um dispositivo que protege o investigador da influência de seu interesse na pesquisa.

Assim, a ciência se afirma como uma prática que se pretende objetiva, mas que em última instância é híbrida, pois não pode ser puramente objetiva. Seu método cria seu objeto de modo que não há possibilidade da neutralidade postulada no plano ideológico. Sendo a experiência uma criação, um espaço controlado onde busca-se isolar certo aspecto de um objeto para tentar responder um problema, o objeto ele próprio é efeito da experiência. A pretensa separação sujeito-objeto, indivíduo-sociedade, ignora que vivemos num mundo repleto de objetos que são mistos de natureza e sociedade, de objeto e sujeito, já que a própria separação natureza-sociedade é ela própria efeito da edificação de um discurso homogêneo que unifica os enunciados ditos científicos. Em suma, a ciência não é uma racionalidade dada, mas produtora de enunciados e regras capazes de constituir a si própria como verdadeira. A epistemologia ganha destaque em importância por ser uma investigação posterior à positividade empírica da ciência, possibilitando a interrogação sobre seus princípios, fundamentos, estruturas e condições de validade.

A ciência avança em certo jogo de continuidade e descontinuidade entre ideologia científica e a ciência em si, como efeito do discurso hegemônico. Em outras palavras, o que é de ideologia — valores que tentam explicar certo fenômeno ou a afirmação de certo saber — está sempre sendo posto à prova pelo método científico, que pode corroborá-lo como verdade científica ou mantè-lo no campo da ideologia como erro. O que hoje é verdade científica, amanhã, pode tornar-se ideologia por não se adequar mais ao que é compreendido como verdade. Assim, a ideologia científica se constitui após o aparecimento de um discurso que delimita sua validade. Não há evolução em linha reta. A ciência se constitui por descontinuidade, em movimento de ideologização e desideologização.

O nascimento de um sujeito a ser objeto de uma psicologia é efeito de um discurso científico que encontra respaldo em outros discursos para então, autorizado, enunciar verdades a respeito das características psicológicas que compõem este sujeito. A subjetividade pode ser entendida como o conjunto de conceitos forjados pelo discurso científico e que cria uma realidade, a realidade da Psicologia. O psicológico como o que é referido à Psicologia, ao ser universalizado pelo discurso científico, dá substância e naturaliza os conceitos como realidade objetivada no corpo e na natureza.

Importante ressaltar também que a própria noção de subjetividade e sua coincidência com uma interioridade é fato intrinsecamente ligado com os dispositivos engendrados pelo discurso científico. Não só apenas, mas do contexto histórico-político-social em que se encontra, a Psicologia enquanto ciência autoriza e legitima uma subjetividade interiorizada. A subjetividade se apresenta como substância, como realidade em si. Torna-se um problema que deve ser manejado pelas mais diversas práticas psicológicas. O problema desta substancialização é o simples fato de que sujeito e subjetividade não existem naturalmente como unidade ou reciprocidade unívoca: a articulação entre estes dois termos faz parte de um jogo de relações de saber e poder, notadamente marcado pelas práticas de normalização. Assim, a subjetividade é produto de relações de forças e de objetivação pelo saber-poder, onde o sujeito se reconhece como tal. Como exemplo, um transtorno mental delimita a subjetividade de quem vai ao seu encontro: cada vez mais as pessoas buscam justificar sua existência com um transtorno.

Referências

DESCARTES, R. O discurso do método. 4ª ed. Editora WMF Martins Fontes: São Paulo, 2009.

FONSECA, Sergio Correa; MORAES, Marcia. “Sobre a regulamentação da profissão de psicólogo no Brasil: notas introdutórias.” Perspectivas en Psicología. v. 9, n.3, 2012. Disponível em: http://www.seadpsi.com.ar/revistas/index.php/pep/article/view/103/49

Todas as imagens foram retiradas da internet


Originally published at www.geekmera.com.br on March 24, 2016.

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