Orgulho e preconceito e algumas lições que aprendi

Recentemente descobri que meu nome estava num post de um fórum conhecido por ser um lugar cujo único objetivo é ofender e “zoar” as pessoas que são diferentes das pessoas do fórum. O post em questão era um print de um texto no Facebook falando de preconceito contra pessoas não binárias e dentre outros comentários do texto, havia um meu onde eu dizia não entender a necessidade das pessoas ofenderem gratuitamente os outros, só por não entenderem a sua existência. Desse meu comentário, a única coisa que alguém que comentou lá tirou foi o meu nome, para fazer piada com a escrita dele.

Durante a minha infância e adolescência, ouvi muitas piadas desse tipo. “Vaca de maio” e “minha vaca” eram coisas até comuns de se ouvir. E isso me fazia sofrer muito. “É o meu nome, poxa, não zoa!” era o que eu pensava… e com isso vinham pensamentos de “porque meu nome não é mais comum?”. Isso, somado ao fato de os meninos ficarem me chamando de viadinho por eu não gostar de futebol e não ser como eles (eu nem pensava em quem eu iria talvez me interessar naquela época) fazia eu cada vez mais esconder quem eu era e me fechar no meu “mundinho”.

Fui crescendo e, mesmo que que em partes fui descobrindo as coisas que eu gostava — fossem elas jogos, quadrinhos, filmes e outras nerdices — , fui reprimindo muita coisa em mim, “vai ser pior se alguém descobrir” eu pensava, mas a verdade é que acontece exatamente o contrário.

Quando você finge ser alguém que não é a coisa acontece mais ou menos assim: por um tempo você consegue sustentar, mas conforme o tempo passa, vai ficando cada vez mais difícil, mais doloroso e a cabeça da gente vira uma confusão generalizada.

O medo de sofrer preconceito por ser diferente do que as pessoas esperam tomou conta de mim e demorou bastante tempo pra ir superando — coisa que ainda não consegui totalmente.

Se por um lado eu estava me tornando uma pessoa bem sucedida profissionalmente, por outro eu não estava me conhecendo de verdade por medo de o que poderia acontecer comigo e com as pessoas que eu amo, medo de perder tudo o que conquistei e por vezes fui me fechando novamente. A cada passo a frente eu voltava dois passos.

Não é fácil ser uma pessoa LGBT+ na área de desenvolvimento de sistemas. É uma área basicamente criada por mulheres (olha aqui e aqui) mas que com o tempo foi dominada por homens e que, por mais incrível que pareça, tem muito mais gentes LGBT+ do que se imagina, só que essas pessoas tem medo de se mostrar como realmente são. Não são raros os casos em que vejo uma notícia, um texto, um relato de pessoas LGBT+ (e muitas, mas muitas vezes trans, principalmente não binárias!) e descubro que a pessoa trabalha com tecnologia.

Aí com o tempo fui analisando, analisando e percebendo que as pessoas dos relatos tiveram uma coisa em comum quando “saíram do armário”: todas elas se tornaram mais felizes. Parece uma coisa óbvia, se a pessoa está sendo ela mesma, ela vai ser mais feliz, mas tente se colocar no lugar dessas pessoas… O medo e a tensão de não ser aceito, de perder amizades, de perder emprego… É o que muitas pessoas LGBT+ sentem, tipo quase todas... Não se trata de a pessoa ter certeza ou não de quem ela é, de quem ela sente atração, mas de como será a recepção das outras pessoas, de como o mundo irá as tratar após elas revelarem quem realmente são.

Não digo que nunca fui uma pessoa feliz! Seria hipocrisia minha afirmar isso. Mesmo porque, a vida das pessoas LGBT+ é muito mais do que sua identidade de gênero, do que sua sexualidade! Assim como todo mundo, temos nossas comidas preferidas, nós vamos ao trabalho, estudamos, jogamos (quem gosta de jogar!), acompanhamos esportes (ou não, isso varia apenas do gosto pessoal de cada um!) assistimos TV, vamos ao cinema, namoramos (ou não também, assim como, adivinha, todo mundo!)… enfim, fazemos as mesmas coisas que as outras pessoas fazem, sem diferença alguma.

Tá, mas Maycow, pra quê ter orgulho se é igual a todo mundo então? Por que não posso ter orgulho de ser hétero?

Porque é muita luta conseguir ser quem a gente é nesse mundão onde ser diferente é errado, é motivo de chacota, violência, ofensa, abandono, expulsão de casa e em casos mais extremos até a morte. É uma luta diária pra garantia de direitos de simplesmente estar com quem gostamos, de até usar as roupas que preferimos, de ser chamados pelo nome que nós temos. É uma luta diária contra pessoas cheias de ódio que afirmam em nome de Deus que simplesmente ser quem nós somos é uma abominação. É até uma luta contra nós mesmos que, devido a tanta pressão que sofremos, criamos uma resistência interna contra nossa própria identidade.

O orgulho é fruto de um esforço, de uma luta, de um caminho que foi superado. Por isso que chega até a ser bobo afirmar ter “orgulho de ser hétero”, ter “orgulho de ser branco”, pois é algo que a sociedade já espera, que dá todo auxílio para que seja assim, pois é o padrão, é algo que não surtirá sofrimento pela pessoa ser assim. Uma pessoa pode ter orgulho de ter concluído os estudos, de ter conquistado um trabalho legal, pois foi algo que exigiu esforço, que foi uma superação pessoal. Simples assim!

Hoje eu tenho orgulho de meu nome. Tenho orgulho de ser LGBT+. Tenho orgulho do meu trabalho. Tenho orgulho de ter superado todo o caminho que passei pra conquistar o que tenho hoje. Mas acima de tudo, tenho orgulho da pessoa que eu sou!

Like what you read? Give Maycow a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.