O que 13 Reasons Why me fez sentir (ou lembrar)

Hi. It’s Hannah. Hannah Baker.

Desde o primeiro episódio, eu já sabia que ia vir textão. A cada cena, a cada descoberta como espectadora, muitas lembranças iam brotando na minha cabeça. Fui assistir à 13 Reasons Why tardiamente — todos os meus amigos próximos já o fizeram. Isto não é uma resenha, é um apanhado de memórias e sentimentos que surgiram enquanto eu assistia à essa série.

Ontem, falando sobre a série, escrevi no whatsapp para algumas amigas que eu gostava do Clay (quem não?) porque sempre tendo a ficar do lado dos fracos e oprimidos, porque talvez eu já tenha me sentido assim de alguma forma. Esse texto é sobre isso. Sobre como já me senti, pelo menos um pouco, Hannah Baker. E, impressionantemente, não foi na escola, foi na faculdade.

Um pouco de background vai te ajudar a entender melhor, vamos lá. Eu cresci e estudei no interior até completar o ensino médio. Logo após, escolhi fazer faculdade numa cidade grande, bem grande: a capital do estado, São Paulo. A ilusão que carregava comigo era que em São Paulo, na faculdade, eu poderia ser quem eu quisesse, sem julgamentos. Lá não era a maior cidade da América Latina? Com tamanha diversidade de povos? Enfim… Não que no interior eu não fosse quem eu quisesse, eu ainda estava formando a minha personalidade, mas era interior, sabe? Catanduva, 110K habitantes, tudo bem vigiado, a grande maioria das pessoas se conhecia e qualquer “deslize” — digamos assim — poderia ser reportado. Descobri mais tarde que, no interior, eu era “mais” do que na cidade grande. Te explico melhor…

Para começar, minha autoestima era um lixo. Não existe outra palavra para descrevê-la. Talvez fragilizada, pífia ou mesmo ínfima. Atenho-me a te dar somente essa informação — meus vários anos de terapia para reverter esse quadro, entre outros, não será tema desse texto. Risos. Sem rodeios, eu fui estudar numa universidade de gente muito rica, com a qual eu nunca me idenfitiquei (não à toa que não levo um amigo se quer de lá) e me perguntei durante os quatros anos da graduação: what the hell am I doing here? Bom, era uma ótima universidade em termos de ensino e infraestrutura — era nisso que eu me apegava, principalmente quando minha mãe me convenceu a não desistir do curso após uma semana de aulas.

A questão é que eu, com recém 18 anos, autoestima tristemente fragilizada, em meio à uma galera com poder aquisitivo imensamente maior do que o meu, não consegui cumprir meu objetivo de ser quem eu queria ser em São Paulo. Eu fui qualquer uma, menos quem eu realmente queria e deveria ser. Mas nada é por acaso, não é mesmo? É nisso que eu gosto de acreditar. No começo, eu tentei, de verdade, ser bem expansiva: ficar à tarde para estudar com um pessoal da sala, colar depois no bar da frente pra tomar umas brejas, sabe como é… Eu iria passar os próximos quatro anos com essa galera. Um pouco de socialização, interação era legal, mas também não passava disso. É aquela velha história: de que adianta tentar tirar leite de pedra? Você já sabe que daí não sai nada.

Bom, falei tudo isso pra te contar uma situação em que eu jamais achei que fosse estar envolvida, mas enfim, me escolheram (why me?). Na época, era 2011, segundo semestre, não existia whatsapp, os smartphones ainda eram escassos no mercado e eu não tinha um — meu celular era daqueles bem simples, mandava SMS, fazia e recebia chamadas. A febre na cidade grande era um tal de Blackberry da Nextel. Pra você ter uma ideia, o Facebook ainda estava tomando corpo aqui no Brasil, era raro ver alguém com perfil ativo. Eis que um dia, ao final de uma aula que eu não me lembro qual era, uns caras colocaram pra tocar a música “Love is in the air” do Paul Young. Já tinha percebido uns cochichos antes de a aula terminar e assim que comecei a olhar em volta, enquanto a música tocava, percebi que era comigo, que os cochichos e risadinhas eram pra mim. Eu só não sabia o porquê. Não fazia ideia. Ah, porque essa música? Aparentemente, acharam que eu estava flertando e investindo em um cara chamado Marcelo — informação nova pra mim até então, já que eu só havia trocado comentários sobre a aula naquele dia com o tal.

Você deve estar se perguntando: mas e daí? Ela ficou mal e se sentiu constrangida por isso? Meu caro (ou minha cara), a questão não é essa. Nem que eu estivesse de fato flertando com o tal Marcelo. A questão é que ficou muito claro que era uma vergonha para o tal Marcelo flertar comigo ou mesmo se interessar por uma garota como eu. Pelo menos é o que estabeleceram como uma verdade ali naquele momento. Se Marcelo achava isso ou não, não sei, mas ele seguiu o mindset dos outros caras, eles achavam isso, ele também achou. Porque? Não sei, de verdade. Talvez porque eu não me encaixava nos padrões de beleza daquele microcosmos, talvez porque me achassem feia, acabei concluindo something like that. No dia seguinte, uma “amiga” me explicou que um dos caras, o tal do Rodrigo, havia tirado uma foto, de lá do fundo, minha e do Marcelo conversando sobre alguma coisa banal de sala de aula, concluiu que eu estava flertando com ele e outro cara chamado João Victor espalhou para quem tinha Blackberry. Aqui já me lembrou bastante Justin Foley e Bryce Walker, não? Uau, quanta maturidade!

Lembra da menina de 18 anos com a autoestima fragilizada e carregando a ilusão de ser quem ela quisesse ser, sem julgamentos? Morreu ali. Sentiu-se humilhada, mais feia do que nunca, reduzida a nada. Forte, não? É, mas como eu te falei, meus vários anos de terapia já reverteram esse quadro, fique tranquilo(a). Essa história tem um desfecho, mas espere um pouco para um adendo. Havia um cara em meio a essa turma de caras bem bacanas, maduros e inteligentes, além de gatos, claro (alerta: aqui estou fazendo uma ironia das fortes) chamado Antonio. O tal Antonio me intrigava um pouco. Sempre bastante irônico comigo, meio mal educado eu diria, fazendo gracinhas e piadinhas pra me inferiorizar, assim, na minha cara, que, sinceramente, não faziam o menor sentido. Só me mostravam o quão inseguro ele também era, o quão desesperado por ser aceito socialmente ele também era. Minha opinião aqui, ok? Talvez não seja isso. But I don’t fucking care, nessa altura da vida.

Até quis tentar confrontá-lo e perguntar qual era o problema dele para comigo, mas fiz a merda (ops, desculpe) de abrir minha boca para uma “amiga querida” de sala, a Rafaela, que muito sorrateiramente, adiantou o assunto com ele sem a minha permissão. Essa me lembrou muito a Courtney Crimsen, sempre fazendo coisas para ser aceita, mesmo que isso prejudicasse outra pessoa. Enfim, obviamente, eu nunca falei com Antonio sobre isso. Afinal, ele já sabia. Aparentemente, abaixou um pouco a bola, mas no fundo, ainda me olhava com olhar de deboche. Alguns semestres depois, fui descobrir que ele era o único a lembrar de minhas palavras numa das primeiras aulas da faculdade, aula de Psicologia. A professora pediu que escrevêssemos, entre outras coisas, um grande medo que tínhamos, e expuséssemos em sala. Meu medo, escrito muito corajosamente e exposto naquele dia, era “tenho medo de ficar sozinha”. Antonio se lembrava disso, repetiu a frase pra mim, não me lembro como, não me lembro quando, não me lembro onde, mas eu fiquei quieta, só consegui absorver e guardar que ele havia se lembrado disso, mesmo alguns anos depois. Bom, antes de voltar ao Marcelo, finalizo o tal Antonio dizendo que “todo ato violento é uma expressão trágica de uma necessidade não atendida” (Marshall Rosenberg). Me pergunto: qual seria a necessidade não atendida desse cara? Nunca vou saber.

Voltando à história do Marcelo, bem, eu nunca mais falei com ele, até porque ele não agregava em nada e repetiu o semestre, ou seja, não era mais da minha sala. Mas no dia seguinte, resolvi confrontar o tal do João Victor, aquele que espalhou a foto. Saí de uma aula rapidamente para tomar água e, quando estou voltando, para minha surpresa, quem está vindo em minha direção? Ele, meu algoz (aquelas), o próprio. Juntei bastante coragem e disse de longe “Preciso falar com você”. Ele, imediatamente, parou na minha frente e disse “Eu é que preciso falar com você. Eu queria te pedir desculpas pelo que aconteceu ontem, eu não devia ter feito aquilo. Me desculpe”. Eu, um pouco surpresa, disse “Ok, tudo bem. Tá desculpado”. Nem precisei gastar saliva. Entramos na sala. Sentei ao lado de duas “amigas” e contei o que havia acontecido.

Apesar de não parecer, eu sempre fui muito rápida para associar fatos e, imediatamente, associei o pedido de desculpas de João Victor a um fato que havia ocorrido no dia anterior, após a aula com a situação que descrevi mais acima. Não era um pedido verdadeiro de desculpas. Bom, me pareceu verdadeiro, mas ter ido até mim e pedido desculpas proativamente (kind of, né? Porque eu que comecei a conversa) não foi totalmente genuíno, foi por medo. Te explico: no dia anterior, no dia da tal humilhação, meu pai estava em São Paulo por conta de algum compromisso e foi me buscar na faculdade para almoçarmos juntos. Ele estacionou o carro um pouco longe e foi até a porta da faculdade me encontrar. Caminhamos juntos até o carro, que estava estacionado do outro lado de um restaurante, no qual Antonio e companhia almoçavam numa mesa na rua. Pois bem, Antonio me viu entrando no carro com meu pai (ele não conhecia meu pai, mas deve ter imaginado quem era). Observei-o pegando o celular imediatamente e telefonando para alguém. Bom, aqui já fica óbvio: João Victor me pediu desculpas porque ficou com medo de eu ter reportado algo à diretoria da faculdade junto ao meu pai. Meio improvável, certo? E quanta insegurança, meninos. Esperava mais de vocês!

Well, meus caros, o que aconteceu foi só isso. Nada aos pés do que aconteceu com Hannah Baker, mas algo que sua história me fez reavivar e escrever com detalhes pela primeira vez. Antonio, João Victor, Rodrigo, Rafaela, Marcelo… Nunca mais os vi após a formatura, não sei nem se estão vivos, nem no Facebook tenho vontade de “segui-los”. Essa nunca foi a minha turma, tanto que mudei de sala após alguns semestres, corajosamente. Foi bom, conheci novas pessoas, pessoas bem legais, que foram importantes para aquele momento, mas que também não levei pra vida.

Essa foi uma das inúmeras situações que me ajudaram a entender, entre outras coisas, que a opinião e atitude dos outros para comigo podem ser devastadoras, podem me arrancar lágrimas (como fizeram), mas valem zero. E ah, importante citar que meus pais nunca souberam disso. Nem meu pai que me buscou, por coincidência, naquele mesmo dia. Digo isso, porque muita gente pensou, “como os pais de Hannah nunca perceberam nada”? Simples, porque ela não deixou que eles percebessem. Assim como eu o fiz.

Eu sei, não foi uma conclusão muito profunda. Mas meu intuito aqui não é fazer resenha crítica. E, além disso, eu me conheço. Se eu me der espaço, escrevo aqui um livro. Risos. Finalizo dizendo que 13RW mexeu comigo, me fez pensar, me fez relembrar, me deixou triste. Triste porque tudo aquilo é verdade, porque existem várias Hannahs, assim como várias Jessicas e Courtneys, vários Justins, Bryces, Alexes, Zachs e Marcus — várias expressões trágicas de necessidadades não atendidas. Tanto existem, que não precisei ir muito longe para encontrar alguns deles.

*Importante: os nomes das pessoas envolvidas na minha história são fictícios (ou não).

**Mais importante: CVV — Centro de Valorização da Vida, ligue 141 ou acesse http://www.cvv.org.br/.