O que devo sentir e a Polícia Militar

Daí dia desses ao descer do ônibus, em Porto Alegre, vi no Terminal Camelódromo alguns elementos da cavalaria (polícia militar montada). Olhando para um homem fardado que estava bem sentado em cima do animal lustroso que, por sinal, parecia muito bem cuidado, fiquei pensando no que eu deveria sentir. Pois, depois de ver um vídeo da Ana Thomaz (uma mulher maravilhosa que dá palestras sobre desescolarização), adotei este processo na minha vida.

Consiste em pegar emprestado alguns conceitos da Autopoiese. Definição criada por dois cientistas chilenos, Humberto Maturana e Franscisco Varela, para dizer que: os seres vivos são sistemas que produzem continuamente a si mesmos. Essa definição tem estado no âmbito biológico, passado pelo âmbito social e ido até o âmbito psicológico. Tudo para explicar o que Humberto Mariotti, no ensaio “Autopoiese, Cultura e Sociedade”, nos resume tão bem dizendo que:

O que nos acontece num determinado instante, depende de nossa estrutura nesse instante.

Assim, parafraseado, entre aspas e em itálico, que é para plantar essa sementinha em seus corações.

E, agora sou eu quem está dizendo, como praticante leiga, que assim acabamos criando um fluxo contínuo com as coisas ao nosso redor, adquirindo um pensamento demasiado dinâmico. O que isto me causa? Por que me causa? Percebendo que as situações, por vezes, nos espelham. E também, que quando entramos em contato com o externo, sempre passaremos por alguma pequena transformação interna, que somos nós que produzimos, e expeliremos de volta outra seiva. Estamos sempre num processo de nos desfazer daquilo que somos, para formar, então, alguma outra coisa.

Agora, voltando ao dia desses em que desci do ônibus, em Porto Alegre, e vi no Terminal Camelódromo alguns elementos da cavalaria (polícia militar montada), não soube o que aquilo poderia causar em mim.

Pensei que minha reação deveria ser: aleluia! Estou em segurança! Agora posso tirar o celular da calcinha e andar navegando na internet pelas ruas da capital! Afinal, além de pessoas fardadas, temos aqui belos cavalos lustrosos. Eu poderia pentear os meus cabelos apenas me enxergando no reflexo desses pelos.

Mas por que cavalos? Continuei. Se fosse para a fácil locomoção, teríamos a polícia militar motociclista. Vejo várias dessas passando pelas ciclovias e pelas calçadas, por entre ciclistas e pedestres, da cidade vez-em-quando. Será que o pensamento é, tipo assim, que o cavalo mete mais medo? Afinal, cavalos nos remetem àquela imagem de guerra meio sanguinolenta e tal.

Mais tarde, em casa, dando uma pesquisada sobre o assunto, soube que uma das principais missões da cavalaria é: manter a ordem pública. Há! Está aí o motivo, é claro! E acredito que usem cavalos porque cavalos são altos, pois, se não, usariam leões. Altura, inclusive, suficiente para pisotear a todos nós, digo, fazer a nossa segurança durante um ato público, por exemplo.

Saindo do Camelódromo e entrando na Voluntários da Pátria, antes de saber de tudo isso, vi o chão da rua todo emporcalhado de esterco, um emporcalhamento que se estendia até a Praça da Alfândega. As pessoas, já empenhadas no difícil dever que é desviar umas das outras naquela rua, agora tinham novos obstáculos pelo caminho.

O que eu devo sentir sobre aquilo, pensei, é que vai mesmo feder.