Já faz uns bons meses que queria voltar a escrever algo por aqui, mas foi só hoje, após ler uma frase do Ricardo Gondim no Twitter, que tive coragem de abrir o Medium.
“ Aprendi (tardiamente): cura emocional pode iniciar-se em determinado momento mas não se resume a ele. Cura é jornada que dura anos.” Ricardo Gondim
Mesmo tendo um câncer curável, não se fala muito de “cura” do câncer porque há um zilhões de fatores chatos para o povo da medicina mencione a palavra tão sonhada e almejada. Em doenças que não há previsão de cura, por exemplo, usa-se a expressão NED (no evidence of disease — o que no Brasil é chamado de remissão completa).
Esta variável se refere ao estado da doença ao final do 1o tratamento antineoplásico proposto. Está relacionada à evolução da doença, sem levar em conta o bem estar ou a qualidade de vida do paciente. As categorias disponíveis são: sem evidência da doença (remissão completa); remissão parcial; doença estável; doença em progressão; fora de possibilidade terapêutica; óbito; não se aplica e sem informação. (Fonte: CID-O Inca)
Porém, o que aprendi (tardiamente, como disse Gondim), foi que a cura (ou remissão, ou qualquer outro termo) do câncer transcende a cura proposta pelos quimioterápicos.
Quando sai do primeiro tratamento, fiquei um tanto anestesiada pelos meses de sofrimento que é passar pela quimioterapia e tive uns 2 ótimos meses rodeada pelos meus amigos e por planos para o futuro, como meu oncologista costumava me aconselhar a fazer. Sentia que, mesmo que precisasse passar por tudo aquilo novamente, ou até mesmo de forma parcial, dessa vez eu estaria preparada. Mas a vida não é bem assim, e quando saiu o resultado do meu PET-CT e descobri que precisaria passar por um segundo tratamento, fiquei bastante abalada.
Quando saiu meu primeiro diagnóstico, estava passando por um momento bem ruim da minha vida, e descobrir que estava com câncer foi a continuação de uma série de coisas ruins. Quando descobri que o tratamento teria de ser continuado, me senti traída pela vida, por Deus, pelo Universo e Tudo Mais, porque é como meu sofrimento até então não tivesse sido o suficiente.
Os dois foram igualmente difíceis, mas o segundo tratamento foi bem mais tranquilo, não só pelo tratamento em si — a radioterapia e o lugar da exposição foram bem mais gentis comigo do que a quimioterapia, mas também pelo meu mindset após as quimios. Mesmo me sentindo um tanto traída, não queria sofrer tudo de novo e tentava me agarrar às pequenas alegrias. E funcionou.
Veio a remissão sonhada, e então pude pensar na minha vida “além câncer”, pelo menos era o que eu esperava. Mas não foi assim que aconteceu. Poucas pessoas te preparam para o que acontece após o fim do tratamento, e foi um momento bastante solitário. Em tratamento, você sente acolhido de alguma forma. Mesmo se não tiver família ou amigos, você tem uma equipe hospitalar 100% dedicada a tirar aquela neoplasia de dentro de você. Com o fim do tratamento, não há mais consultas semanais, suas queixas recebem menos atenção, seus amigos voltam a te tratar como antes e você se sente meio idiota de ficar lembrando que você ainda está em observação, assim como se sente idiota de estar com saudade dos exames, dos médicos, das enfermeiras.
Uns meses atrás vi alguém falando sobre PTSD e os sintomas, e virei para perguntar “pode PTSD se aplicar a casos pós-câncer?” pois era daquele jeito que me sentia. Se durante o tratamento não havia muito espaço para me sentir assim, porque eu tinha uma meta (que era curar meu corpo) e não havia espaço para muitas coisas além dela, todo o vazio que senti depois permitiu que todo tipo de estresse e ansiedade se acumulasse na minha cabeça. Lembrar do cheiro do hospital me causava náuseas, sentir dores no peito similares as de meses atrás me trazia ansiedade e falta de ar. Com o tempo, percebi que me importei tanto em cuidar do meu corpo que nunca me passou cuidar da minha cabeça.
“Eu ando de perda em perda, perco o que encontro, não encontro o que busco, e sinto medo de que numa dessas distrações acabe deixando a vida cair.” Eduardo Galeano
Passar por um tratamento complicado, seja qual for a doença, é uma experiência traumática. Você se sente obrigado a manter uma imagem positiva para as pessoas que te tratam como “inspiração” ou “pessoa forte”, mesmo quando tudo o que você quer é assistir 10 episódios de Gilmore Girls no Netflix enquanto chora um pouquinho, pensando em tudo que você passou ou tem que passar. Porém foi também por causa dessas pessoas que tomei o primeiro passo em pedir ajuda (profissional), porque não queria que os meus medos e angústias destruíssem meus relacionamentos pessoais.
Após a remissão, voltei a pensar da forma que pensei após o fim das quimioterapias, “sentia que, mesmo que precisasse passar por tudo aquilo novamente, ou até mesmo de de forma parcial, dessa vez eu estaria preparada”. E mais uma vez descobri que a vida não é assim — percebe-se aqui que sou meio cabeça dura para aprender as coisas. Após mais um PET-CT e mais um mês de ansiedade até os resultados, veio mais incertezas e mais sentimento de solidão e perda. Porém, por mais cabeça dura que seja, dessa vez queria fazer algo concreto por mim e pelas pessoas que convivem comigo, porque depressão, ansiedade e outros transtornos não afetam só nós, mas também as pessoas que amamos.
Certa vez li sobre tratar a “cura da doença” como a “cura do queijo”, em que você não se livra de alguma coisa, mas se torna algo diferente, algo melhor. E é isso que almejo para a minha vida “além do câncer”. Me tornar algo melhor.
Não sei se algum dia me verei livre dos medos, muito provável que não, mas já que tenho alguns anos ai pela frente para ser considerada curada pelos oncologistas, quero concentrar esses anos (e os anos após deles, e os anos após os anos após…) em cuidar com carinho da minha mente, afinal é com ela que passo a maior parte do meu tempo.
“¿Para qué escribe uno si no es para juntar sus pedazos?” — Eduardo Galeano