Bloody, but unbowed
Find a subject you care about and which you in your heart feel others should care about. It is this genuine caring, and not your games with language, which will be the most compelling and seductive element in your style.
Kurt Vonnegut’s How to Write with Style
Não sei o que me fez ter esse ímpeto de escrever sobre minha experiência com o câncer. Por um tempo, segui muitos blogs, colunas no jornal, participei de comunidades; mas embora me trouxessem o conforto de me sentir compreendida num mundo tão solitário quanto o Reino dos Doentes, não senti em mim a necessidade de me explicar, me expor. Penso que, talvez, não quisesse divulgar a minha vulnerabilidade.
Illness is the night-side of life, a more onerous citizenship. Everyone who is born holds dual citizenship, in the kingdom of the well and in the kingdom of the sick. Although we all prefer to use only the good passport, sooner or later each of us is obliged, at least for a spell, to identify ourselves as citizens of that other place.
Susan Sontag’s Illness as a Metaphor
Mas poucas coisas são tão inerentes da nossa condição humana quanto a vulnerabilidade. Tentei me mostrar forte porque achei que era isso que as pessoas esperavam de mim — mãe, namorado, amigos, médicos. Quando fui ao hospital em que me trataria pelos próximos meses e ouvi minha médica explicar o que é um linfoma, chorei e pela primeira vez ouvi “Tá chorando por que, menina?” Quando estava deitada na cama e chorava ao pensar em como seriam os próximos meses, tive minha mãe entrando no meu quarto e me dizendo pela primeira vez “Ficar deprimida não vai te curar, muito pelo contrário.” Quando estava recebendo quimioterapia no início do tratamento, mandei uma mensagem para o meu namorado e li pela primeira vez “Chorar não vai mudar nada.”
Talvez eles estivessem certos. Por que estou chorando? Isso muda algo?
Ontem recebi a notícia que permaneço doente. Um ano depois e 16 doses de quimioterapias não foram o suficiente para remover o câncer do meu corpo. “A gente já esperava isso,” diz minha mãe. Verdade. Parte de mim já esperava.
Foi essa parte que me fez andar lentamente por aquele caminho. Foi essa parte que não me fez perder a cabeça porque não seguraram o elevador para mim. Foi essa parte que me parou ante aquela porta e me fez cruzar os dedos enquanto repetia o mantra “vai dar tudo certo, vai dar tudo certo, vai dar tudo certo…”
Sabe, parte de mim também já esperava que o meu namoro fosse acabar quando eu não me sentia compreendida. Parte de mim também já esperava que o meu trabalho não fosse me trazer a realização que por um momento acreditei alcançar. Então, sim, parte de mim também já esperava que eu continuava doente. Aquela dor que não cessa, aquele peso que continuo perdendo.
Mas há também a outra parte que esperava pelo melhor. E que ainda espera.
Ontem ouvi essa notícia e não chorei, não de imediato. Um tempo depois o fiz, mas não pela notícia, sim pelo cansaço. De ser forte. De ser “inspiradora.” Não quero mais fingir ser forte nos dias que não acordo me sentindo assim. Não quero que minha história inspire alguém — mas se o fizer, que bacana. E não quero mais ter medo de me mostrar vulnerável.
“Pick a subject you care so deeply about that you’d speak on a soapbox about it,” disse Kurt Vonnegut em seu ensaio sobre como escrever com estilo.
E eu me importo com isso. Me importo pra caralho. É a minha vida, porra. Muitas vezes senti que fosse a personagem secundária ou coadjuvante no filme de alguma outra pessoa. Mas não mais. Esse é o meu filme, no momento ele não está do jeito que quero, mas é meu. E se eu quiser chorar, vou chorar. E se quiser escrever, vou escrever. E um dia, enquanto isso, como todas as minhas partes esperam, vou me curar.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate,
I am the captain of my soul.
William Ernest Henley’s Invictus