The one with jealousy

Foi tudo tão rápido e inesperado que hoje os dias se transformaram num grande borrão na minha cabeça. Um dia eu estava fazendo exames de sangue, “estranho, anormal, vamos acompanhar”, no outro, uma outra médica dizia “super normal, leucócitos são assim mesmo, me conta da sua vida”, para finalmente “tem uma lesão no seu tórax, você precisa de um pneumologista urgente”.

A palavra “lesão” não te prepara para possibilidades piores. Para mim era isso, um machucadinho; escrevi um tweet com a maior naturalidade possível apesar do mau humor de estar acordada e fazendo exames há mais de 6 horas, sendo bombardeada por radiação com mil raios-x, contrastes e tomografias. Uma semana inteira de exames para receber um diagnóstico de lesão não parece tão assustador assim.

Até que, horas depois, na sala do pneumologista, a ficha caiu. Mais de uma hora na cadeira ouvindo coisas “pode ser um linfoma”, “tem cara de linfoma de hodgkins”, “dos males, o melhor”, “o LH é o mais tratável”, “ele cresce devagar”, “massa avançada no mediastino”, “você provavelmente está com isso há alguns anos pelo tanto de necrose”, “faremos uma biópsia com uma punção”. Um grande blá-blá-blá. Minha cabeça estava cheia de névoa, não entendia nada do que ele falava. Linfoma? De rodes? Necrose? Pulsão?Media-o-que? É assim que se chama um machucado no vocabulário da medicina? Eu não sabia nem escrever metade daquelas palavras para conseguir escrever um tweet sobre a consulta.

Como uma mulher jovem com acesso à internet, é claro que já me autodiagnostiquei com câncer algumas vezes. Escape marrom dias antes da menstruação? Câncer ou gravidez, com certeza.

Mas nada te prepara para ouvir que talvez você tenha que fazer quimioterapia. Quimioterapia? Como assim? Mas eu não tenho linfoma? Achei que isso era só para quem tinha câncer. “É um tumor maligno em um estágio bem avançado, mas vamos lutar juntos para que você possa sobreviver”. Ah, agora entendi. Depois da palavra “sobreviver” existe um branco e só lembro da minha mãe e eu chorando no consultório e assustando os próximos pacientes.

“Tem um menino que está com um quadro muito parecido com o seu, por que vocês não conversam com ele e a família?”. Essa seria a minha primeira experiência de “cancer bonding”, essa coisa estranha de criar laços com pessoas com quem você não tem nada a ver, exceto pelo câncer e, de repente, tudo.

Semanas depois, biópsia feita, diagnóstico confirmado. De novo naquela sala, esperando para que meu médico querido me encaminhasse para um oncologista. Sai o menino e sua família. “Não era linfoma, afinal. Era só uma lesão no pulmão causada por resquícios de pneumonia”. Hoje pensar nisso me lembra um episódio de Breaking Bad, um em que o Walter White olha para as suas imagens após o CT Scan e pensa que ainda está com câncer, mas era só pneumonia. Naquele dia eu ainda não tinha assistido Breaking Bad e só conseguia pensar “por que comigo não foi assim também?” e acho que foi a primeira vez que senti inveja de verdade de alguém.

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