As manifestações e o poder no Brasil

Eu tenho uma visão do Brasil um pouco diferente dessa de um país dividido entre apoiadores do PT, adeptos de um suposto “progressismo” que se daria por meio de distribuição de renda intermediada pelo Estado e aqueles que querem um país mais liberal, com um Estado menor e menos intervencionista.


Essa discussão, no Brasil, hoje, é meio que uma cortina de fumaça e completamente fora de lugar. Sabe quando o povo vê o sistema de justiça de uma série americana e acha que no Brasil funcionaria daquele jeito? Eu acho que, dos dois lados, o povo faz isso com política aqui, tanto olhando para o sistema americano quanto com o Europeu.

Esse é um país de proprietários, que não tinham como produzir nada sozinhos e tiveram que importar mão de obra de fora. Escravos, imigrantes pobres, a mão de obra teve variações históricas, mas ela nunca foi inserida completamente no país e nunca teve cidadania plena. Sempre se criou mecanismos para proteger o patrimônio e fortuna dos proprietários originais. O próprio sistema político foi construído tendo isso em vista.

Nosso sistema delega quase todo nosso poder de decisão política a terceiros. Nós temos a ilusão de escolher nossos representantes a cada quatro anos, mas mesmo isso, entra no que a ciência política chama de “a segunda face do poder”, que é quando as opções de escolha já são restringidas em uma etapa anterior, obscura, e faz com que só sejam apresentadas “possibilidades seguras” na hora da escolha. O mecanismo aqui é que não é qualquer um que pode se tornar um candidato a presidência, a governador, a deputado. É preciso que ele provenha do sistema partidário e que possua ou uma quantidade absurda de dinheiro ou patrocinadores com uma quantidade absurda de dinheiro. De qualquer forma, é necessário algum vinculo com as grandes fortunas.

O efeito disso é que os 3,5 milhões de pessoas que saíram as ruas no domingo não possuem nem uma pequena parcela do poder de decidir o futuro do país que tem o Renan Calheiros hoje. Se fossem 20 milhões, não acho que faria diferença. O poder não reside na mão do povo. O máximo que é possível fazer é torcer para que a demonstração tenha conseguido convencer alguns deputados a fazer o que essa parcela da população quer.


Nesse sentido, a atual discussão sobre impeachment é como se dentro do filme Matrix, com Neo e seus amigos lutando contra as máquinas, houvesse um Brasil e, lá dentro, a população brasileira da Matrix estivesse saindo às ruas pedindo o impeachment da presidente deles.

A crise política do Brasil vista de fora

A esquerda “progressista” vive com uns papos do tipo “o pobre hoje anda de avião”, “a filha da empregada faz faculdade”, “o pobre tem a casinha dele”. Bem, em nenhum horizonte futuro dessa esquerda se aponta um futuro onde esse pobre que anda de avião algum dia vai poder ser dono de um avião, que a filha da empregada vai ser dona de uma faculdade ou que o pobre vai poder escolher onde vai ser a casa dele e de que forma ela vai ser construída. No final, acaba se tornando uma esquerda que não luta pelo controle dos meios de produção pelos trabalhadores, só briga para que eles exerçam seu papel de mão de obra com um pouco mais de conforto.

E não tem jeito, quase todos somos pobres e cidadãos de segunda categoria em relação a algumas poucas famílias e donos de empresas que detêm o poder econômico do país desde sempre. Nós não temos circulação de capital de verdade no país. Existe uma pequena parcela do capital que é circulante e 90% da população se mata para conseguir ele temporariamente. E pra melhorar a situação é em cima dessa pequena parcela ai, que já é disputada pela população, que o Estado tenta se financiar. É em cima desse capital que incidem os impostos.

O grosso do capital não é reinvestido aqui, não está disponível para financiar a nossa indústria, para sustentar programas sociais de verdade etc. E é aqui que a mudança tem que ocorrer. As grandes fortunas tem de ser destruídas. As famílias tem que ter a ideia de que se for deixar seu patrimônio para os seus filhos, nem 25% dele vai chegar a próxima geração e que a forma mais garantida de proteger isso é investir na indústria, criando algo para sociedade. E esse capital tem que estar livre para ser disputado e conquistado por todos.

Basicamente, não acho que sejamos uma sociedade moderna. Nós estamos vivendo no feudalismo clássico, mas temos a ilusão de viver no século XXI, tipo Matrix mesmo. Não vejo muito sentido em ficar lutando por uma Matrix mais inclusiva, mais progressista ou em que o pobre viaje de avião dentro da Matrix, ou que o Aécio seja o presidente dela.

Ao contrário do que vende o PT, não temos uma elite burguesa que oprime os trabalhadores. Nós temos uma elite oligárquica que controla o poder econômico e político do país e da qual, hoje, o PT faz parte.

Esse sistema vai precisar de uma ruptura de verdade alguma hora. E, talvez o PT, ao forçar a coisa para além do limite imaginável, consiga dar esse empurrãozinho que falta para os finalmente, embora duvide muito que aconteça.