ortopedia da palavra IV

da casa da sabedoria de bagdá (beit al-hikmah) se anuncia a mística dos fluidos através da geometria mundana.
cantos divinatórios da boubela

ي a pérola (al-jawhar)
a estrela é um corpo em chamas. adentra o que não é tocado quando se toca. atenta ao hálito que não se ouve. um aroma resiste à fala… aguapé sobre as águas é “como a chaminé à toa de uma fábrica montada”. por isso, a casa convida a bagdá o pai dos filósofos de basra para dedicar-se à perfumaria, extraindo do reinado o que chama de essências. seu nome semítico anuncia: pérolas. labora sobre a pedra uma arquitetura maravilhosa. se manipula uma estrela, candeia o ouro para que fique maleável. duas as mãos delicadas ardem ao penetrar nezam. um efêmero constante, tal a artimanha para quando se fica perplexo.

ك o aroma (al-attar)
a mística é uma ciência aromática. meditando sobre um pires de leite, aspira o filósofo-perfumeiro: o leite da cabra se espalha e se reune, de onde se extrai uma pérola designada à pele. não se obtém uma pele macia. mas um caminho suave ao toque. aspirar o mais refinado dos aromas condensa o seu sangue como o mel. o hálito povoa o corpo que fala. palavra nunca foi soprada, assim, vivida por cima. a ortopedia da fala orienta: palavra conduz. ela se transmite nas sendas do corpo sensível. o corpo resiste quando fala, escuta modulações da estática, temperatura e pressão por meio do que aprende posturas ancestrais — quer dizer, como se deitar.

ل transmissividade (barakah)
para a confecção de tinturas da escrita, filósofos chineses aninhavam folhas de cedro maceradas em um cesto de bambu sobre o vapor fervente. das folhas, escorria na estrutura o óleo quente, que lhe umedecia essências. o hálito das águas atravessia o cesto nos vãos, ofertando calor que extrai e umidade que carrega. aprende a tecer, pois as fibras do bambu que não resistem ao uso, aos poucos, cedem. resta que a oferenda das águas rasga o cesto. e a desmedida do vão criado subtrai o caminho das essências. a transmissão da mensagem, um ato poético, evidencia a continuidade do mundo. a ortopedia da palavra restitui a condição criativa ao que diz: concatenação de estórias.