histórias inacabadas: 16.06.16

[…]
as noites em que você luta melhor
 são
 numa noite como
 essa
 quando você expulsa
 do teu cérebro
 mil ratos sinistros,
 quando você se rebela contra o
 impossível,
 quando você se irmana
 dessa terna
 alegria e
segue em frente
indiferente.
(Charles Bukowski)

Acordou após quase sete horas de sono, o que era raro, de uma noite sem sonhos e com frio. Levantou cumprindo o ritual diário de dobrar a roupa de cama enquanto colocava os pensamentos em ordem e se situava no espaço-tempo de sua vida. Era, ainda, um homem de 21 anos, militar, ainda, aviador, ainda. Naquela manhã seria decidido se tinha mais uma chance ou se deixava a FAB por hora, ou para sempre. Escovou os dentes e fez a barba ao som de qualquer playlist do Spotify. Até então, não admitia, mas era tomado de uma certeza de que ganharia a oportunidade de voar novamente. Mas o “e se não” o acometeu naquela manhã.

O quê faria, o civil que vivera quase cinco anos na rotina de caserna? E agora? Ou, na melhor das hipóteses, voltando ele, e se seus amigos fossem mandados embora? [e foram] Está tudo nas mãos do… Universo. Recusava-se, orgulhoso, a pedir o auxílio de Deus, por julgar que não existisse, por recusar-se a ser tomado de tolo por sua própria consciência. Mas sua temência era tamanha que não conseguia livrar-se dos medos e tradições. Mais por amarras sociais do que por crença verdadeira, como quando cumprimentava seus pais ao telefone com o tradicional bênção, pai, bênção, mãe. Como no seu último voo, em que, após receber qualquer palavra de incentivo de seu comandante, fez o sinal da cruz e olhou para o céu conforme caminhava em direção ao avião.

O balanço que fazia de sua trajetória resultava num saldo positivo. Seu maior medo era o de falhar e, ao falhar, ter o sentimento de não ter feito tudo o que era possível para que tudo desse certo. Pela primeira vez, não culpava santos ou o universo, não se questionava por que Deus haveria de tê-lo abandonado, não. Experimentava em muito tempo de uma paz de espírito recente. Porque sabia que tinha falhado em apenas um ponto, e via com bons olhos sua evolução naquele lugar ao longo dos três meses que se passaram. Sabia, ao sair do avião, o que tinha errado e por isso estava em paz.

Quando viu que as coisas começavam a caminhar melhor, conseguiu-

— Alex, Barros, Douglas Alves e Rafael Tavares. Comando no horário da Educação Física.

O resto é história.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.