menina de guerra
Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você.
Carl Sagan
Quando nasceu, foi a alegria da casa. Não aquela alegria duradoura, foi uma alegria momentânea, não durou mais que uma semana. Era tudo planejado— pra não mimar demais, pra não estragar a menina, pra não. Indiferença deve evitar vícios.
Cresceu numa casa enorme, num bairro à época confortável. Com vizinhos ricos como sua família, mas nem tão ricos assim. Morava quase ao lado de um clube e nadava quase todos os dias. Os avós a levavam. Boas pessoas, os avós. Inteligentes, cristãos, educados. Os pais prosperaram, foram felizes por um tempo e depois se separaram.
Ela sempre quis ser bombeira. Admirava a coragem daqueles homens e mulheres, a coragem da renúncia mas acima de tudo, o bem que faziam por desconhecidos. Sonho de criança.
Cresceu e tornou-se uma bela jovem. Conheceu garotos. Apaixonou-se, beijou muitas bocas. Estudou. Sempre foi a primeira da sala, com aquele sonho antigo de servir, de ajudar. Quando contava aos colegas, eles faziam troça. Ninguém acreditava naquela sinceridade de criança.
Chegou o momento de decidir. Conheceu a Aeronáutica. Deve ser que no fim, estamos servindo. Ao país, às pessoas. No fim o que importa é o bem que fazemos, não? A menina de guerra pensava que sim.
E foi num dia de fevereiro que eu conheci a menina de guerra. Aquelas olheiras fundas, cara de mocinha indefesa, olhando para frente, com as mãos para trás num uniforme camuflado sujo e suado. O que será que a garotinha está pensando? Finalmente realizando um sonho. Mas achou que não fosse bem assim. Ou pode ser que esteja apenas preocupada com o horário, ela é sempre tão preocupada. Sendo o melhor que pode, fazendo o que sempre fez: sendo boa demais. Sou arrancado do pensamento: por que você está olhando para o lado, estagiário?
Agora ela é uma orgulhosa militar. Você é uma nobre menina de guerra. E aos meus olhos, é tudo o de mais bonito nesse mundão.
E agora eu te escrevo tudo o que não foi possível, menina de guerra. O que eu tiro de todo esse tempo. Tudo o que eu queria dizer mas não tinha o jeito certo — porque eu sou um ogro, você bem sabe. E também porque você não ouviria, ia fazer um beiço maior que o meu e fechar a cara. Mas o seu único erro foi ser assim, inteligente demais, sincera demais, bela, empática, cuidadosa, aplicada, esforçada demais. Nesse lugar onde tudo é medíocre, onde a virtude — mas principalmente a pobreza de espírito — reside no meio, seu erro foi ser demais.
Menina de guerra, eu vi a maldade neles. Eu vi o sadismo por meio de risadas quando você caiu em forma, os comentários maldosos que refletem a porcaria de mundo em que a gente se meteu. Quem foi que caiu? Foi ela que caiu! Bem feito. Quando o que eu queria era sair da minha posição passiva e estática e saber se você estava bem. Enquanto a autoridade falava palavras aleatórias sobre uma terra que tem palmeiras onde canta o sabiá, naquele momento eu queria sair dali e mandar todos pro inferno.
Eu já sabia como você ficaria. Sabia que quando aquela formatura acabasse e eu fosse falar com você, você estaria com aquela cara arrasada e inconsolável. Aquele olhar de frustração que nem meu melhor sorriso podia combater. Nem minhas palavras imbecis de “não fica assim”. Nessa hora eu queria cagar pra os regulamentos e te abraçar bem forte, te proteger de tudo.
Eu vi a maldade quando eles comemoraram uma injustiça que você sofreu. Quando o seu nome estava lá no quadro pra quem quisesse ver, sua cara a tapa para quem quisesse te machucar. O verdadeiro absurdo do qual você foi vítima. Eles riam, sem nenhuma empatia, sem nenhum remorso.
Eu já fui revoltado por causa de tudo isso. Já fiquei inconsolável com as injustiças que você sofreu quando que você me contou. Mas eu não me conformava mesmo era com a sua resignação, com o seu controle, seu discernimento e a sua convicção de que as pessoas não são más, elas só estão perdidas. Fiquei puto pelas diversas vezes em que estávamos numa conversa e alguém que eu sabia ter te magoado interrompia o papo com a cara mais lavada e a audácia de te pedir um favor, sorrindo como se fossem melhores amigos, e para minha surpresa, você dizia sim. Eu cheguei a perguntar diversas vezes se esse perdão era sincero, e você afirmava. Eu, quietinho, intimamente duvidava.
Mas você não deixa dúvidas, menina de guerra. As pessoas te desejam o mal porque você se aplica, dá coração, acredita em tudo isso aqui como se não houvesse outra coisa a se agarrar. Como se esse sistema fosse a redenção.
É um ódio gratuito. Que não precisa ir muito longe pra conhecer, infelizmente. Eu assustei quando o presenciei pela primeira vez. É uma raiva frustrada, de quem pensa “não é possível que essa garota faz isso simplesmente por ser assim”.
Mas menina de guerra, eles não sabem de nada. Não sabem do seu amor à essa profissão, da sua vontade, sua busca. Sabem nada dos seus sonhos. Não sabem que eu já te observei de perto, porque eu também duvidava. Não sabem que eu já fui imbecil de chegar a dizer pra você parar de cantar tão alto, ficar ofegante como você fica, parar de gritar e levantar tanto essa droga de joelho porque vai ter problemas articulares mais tarde. Eu achei que te dando essas porcarias de conselho iria te proteger.
Mas felizmente, menina de guerra, você não muda.
Porque independentemente do que você fizesse, eles iam continuar falando. Iam continuar te odiando por ser esse robozinho que você é, chata e insuportável desse jeitinho. E embora você não seja reconhecida em parte alguma desse lugar, o bem que você faz, menina, fica pra quem sabe observar. Insistir é o seu defeito, e sua maior arma. E quando você insiste, significa que não se deixou vencer. Significa que está machucada, que está sangrando, que está todos os dias a um fio de abandonar o barco, porque essas pessoas batem realmente forte.
Mas quando você insiste… Não deixa os outros desistirem. Quem olha pra você com cuidado vê quem realmente é: uma menina de guerra. Porque é de tudo isso que se precisa pra combater. Essa luta diária que é viver por aqui. E a cada dia que você fica, você mostra pra eles que eles perderam. Mas nem por isso você faz chacota. Nem por isso você devolve essa maldade com que te feriram.
A cada dia eu agradeço por você me ensinar a levar essa vida. Ensinar a resistir, a insistir, a ter coragem, com esse sorriso que esconde tanta coisa, e que me dá tanta força. E juntar dois dramáticos como nós não poderia dar certo nunca. Mas do nosso jeito, sem toque, sem muita conversa, a gente se dá.
