Lerdo

Chegou atrasada. Atrasada não, em cima da hora.
Os ingressos já comprados. A sessão prestes a começar.
Não deu pra conversar muito antes. A luz apagou. O filme começou.
Bocejou o tempo todo. Segurou para não dormir. Deve ter tido um dia difícil.
Não gostou do filme. Saiu reclamando. O roteiro é ruim. A fotografia é ruim. Os atores são bons, mas não têm culpa. Outros filmes exploram a mesma temática de modo bem melhor. Não era grande coisa mesmo.
Estava cansada. Saiu do cinema e já mirou o estacionamento. Recusou o convite para jantar. Estava cansada. De verdade. Ou aparentemente.
Não conversou muito. Tirando a reclamação do filme, não houve muito assunto. Falou pouco. Ouviu pouco. Sobrou silêncio.
Chegou ao carro. Deu a bochecha a beijo. Abriu a porta.
Entrou no carro. Ele virou as costas e foi embora.
“Que cara lerdo”, ela pensou.

Chegou correndo. Era o segundo encontro.
Lutou para achar uma vaga. Subiu as escadas correndo. Desacelerou no último lance para recuperar o fôlego. Ficou preocupada com o suor do corpo.
Ficou preocupada com a roupa também. E a maquiagem. E o perfume.
Encontrou-o na frente da livraria. Ele estava lindo.
Não sabia como dar oi. Beijou no rosto. Mão no ombro, sem abraço. Como estava cheiroso.
Perguntou sobre o dia dele. Nada de especial.
Fez uma piadinha boba. Ele riu de leve. Ela se arrependeu de ter feito.
Tentou pensar um bom assunto. Já era hora da sessão começar.
Entraram no cinema. Resolveu não dar bola para o filme. Talvez ele deixe a tela de lado. Nada.
Só conseguia observar os movimentos dele. Disfarçava quando ele percebia.
Saíram do cinema. Ela morta de cansaço. Dia corrido.
Foi em direção ao carro. Brincou com a chave na mão. Esperou por um movimento dele. Nada.
Ele a beijou devagar na bochecha. Ela entrou no carro e deu partida.
“Ela não está afim”, ele pensou.

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