A síndrome do paternalismo que assombra uma nação

Monan Bertoluci
Sep 8, 2018 · 6 min read

Hoje pela manhã, estava tomando o meu café e refletindo sobre uma experiência que tive há alguns anos atrás quando atuava como professor de uma determinada faculdade … Ao término do curso, quando eu havia entregue a avaliação final, um aluno que havia tirado 7 (média para aprovação), com sua avaliação aberta no computador me olhou com os olhos cheio de lágrimas e disse:

“Professor isto não é justo!” — E apontava veementemente para a tela de seu computador.

“Eu realizei o trabalho que me foi solicitado, porque eu fiquei com esta nota?”.

Então, pensei que esta seria a oportunidade perfeita para mostrar-lhe que o resultado de seu trabalho estava associado não somente a entrega do trabalho no prazo, este era apenas um dos critérios que somariam a nota durante a avaliação. Anteriormente eu havia apresentado os critérios de aceite que definiriam a nota máxima do trabalho.

Contudo, mesmo ciente do porque o aluno não havia atingido a nota máxima, pedi para ele aguardar até o término da aula para que nós pudéssemos repassar a avaliação e assim eu ter a chance de lhe explicar detalhadamente o porque ele não havia atingido sua nota.

Então, quando chegamos no final da aula o aluno estava lá me esperando para falar sobre sua avaliação nos detalhes! Sentei ao seu lado, abrimos a ferramenta de desenvolvimento e comecei a apontar os itens que faltavam e os que justificavam sua nota. Após 40 minutos de revisão e discussão o aluno demonstrando um certo desconforto diante dos fatos, se levanta com os olhos cheio de lágrimas e diz:

“Você é responsável por isso, eu não concordo com essa avaliação.”

E assim, rapidamente ele pega suas coisas que já estavam organizadas na mochila e se retira da sala com passos firmes.

Eu fiquei sem reação, durante toda a conversa o tom estava ameno, não havia motivos para tamanha explosão.

Hoje compreendo os motivos que causaram tamanha frustração neste aluno e para ser sincero, estes motivos estão presentes na maioria das pessoas que observo no meio social em que estou inserido, principalmente nas redes sociais.

Antes de citar o motivo quero ressaltar que o aluno neste caso está no direito de cometer erros, ele é aluno. A função do aluno é errar, observar e aprender. Eu hora estou atuando como aluno e hora estou atuando como professor. Contudo é natural que todos nós sejamos alunos e professores. Erramos, observamos, aprendemos e orientamos o tempo todo em todas as nossas relações.

Mas o ponto que eu gostaria de ressaltar nesta experiência e nas observações que faço é o fato da responsabilidade de aprender não estar associada ao indivíduo. Ficou claro que na cabeça deste aluno a responsabilidade de aprender não é dele, a responsabilidade é apenas do professor de ensinar. Se ele não fez o trabalho corretamente a culpa é do professor que não está avaliando e orientando de acordo.

E assim eu consigo estender um paralelo a grande parte das reclamações que vejo no trabalho, nas redes sociais e em minha família. Vamos a alguns exemplos:

No dia a dia:
“- Nossa, olha aquele cachorrinho abandonado ali na pista, se ninguém tirar ele de lá ele vai acabar morrendo.”

“- Alguém precisa cortar esse mato na entrada do prédio, ja faz meses que está assim …”

“- Vamos votar neste Fulano que ele vai resolver nosso problema …”

“- Nossa, como o combustível neste posto está caro! Coloca R$50,00 por favor …”

“- Que absurdo, o museu pegou fogo e ninguém fez nada para impedir! Eu nem sabia que existia esse museu! A culpa é do governo se tivesse feito sua parte nada disso teria ocorrido …”

“- Se Deus quiser eu … ganharei na mega-sena e resolverei meus problemas financeiros”

Na família:
“- A tia Beltrana não me ligou então eu não vou …”

Na escola:
“- Eu não aprendi porque isso não foi passado na escola …”

Na faculdade:
“- Esta faculdade é um lixo, não me ensina nada …”

No trabalho:
“- Eu trabalhava nesta empresa por 15 anos e fui mandado embora porque um aplicativo tomou o meu lugar …”

“- Meu chefe deveria ter visto isso …”

Estas atitudes definem o conceito de terceirização da responsabilidade, a síndrome do paternalismo. A culpa é sempre de algo externo. Algo incontrolável, distante o suficiente para receber a culpa de seus problemas, justificando as consequências e lamentando o ocorrido.

Claro, não sejamos radicais!

O professor, a sociedade, o governo, o presidente, a faculdade, o chefe, a tia Beltrana … Todos esses papéis e entidades em sua menor escala, o indivíduo, possui sim sua responsabilidade e deve ser cobrado caso seus atos não estejam de acordo com o contrato social, seja este um documento legal ou psicológico gerado através de expectativas entre relações humanas e padrões sociais.

Gostaria de abrir uma aspas sobre dois itens importantes:

Expectativa vs frustração

Não sejamos hipócritas em delegar responsabilidades sem expor nossas expectativas para as pessoas que nos cercam, acreditar que o amiguinho do lado vai fazer exatamente o que estamos querendo sem se dar ao trabalho de expor suas expectativas claras e objetivas é certamente se frustrar diante da ação do indivíduo. Certifique-se de que a pessoa na qual esta recebendo a responsabilidade entendeu exatamente como você espera que ela haja diante de uma determinada situação. Se você delega, você especifica!

Afinal, ninguém tem bolas de cristal para saber o que esta em sua mente!

Centralização de responsabilidades

Quando eu digo que devemos assumir as nossas responsabilidades cabe aqui uma palavrinha chave neste processo que normalmente é conhecida como “maturidade”.

Não, eu não tenho que carregar as dores do mundo nas minhas costas!

Se há uma divisão de responsabilidades esta deve ser seguida. Por exemplo, se alguém que trabalhe junto a você não está realizando o seu devido papel e você passar a absorver as responsabilidades deste indivíduo em prol do bem da organização logo você será cobrado e será responsável pelas atribuições desta pessoa, não estamos falando de caridade, se você está diante deste cenário há algumas estratégias para conseguir driblar a situação expondo o problema para solução.

(Falarei mais sobre estes temas nos próximos posts que devo escrever em breve.)

Sejamos coerentes em assumir nossas responsabilidades, entender que enquanto não aprendermos a tomar nossas próprias decisões, enquanto não assumirmos o controle de nossas vidas, enquanto não agirmos com maturidade encarando as consequências de nossas escolhas sempre estaremos a mercê de uma sociedade impune e escrava dos que decidem por nós.

E no final, ainda seremos culpados.

O primeiro passo para resolver este hábito é elencar três problemas que você costuma apontar que mais te incomodam e reflita qual a sua responsabilidade para solução completa ou parcial destas questões. Entenda o que VOCÊ pode fazer e simplesmente FAÇA. Sua ação deve causar algum efeito nas pessoas que estão envolvidas e talvez se inicie uma corrente de solução ativa até que o problema seja de fato solucionado.

duas maneiras de fazer as pessoas seguirem seus atos, através da força ou através da inspiração, porém somente através da inspiração que conseguimos um processo orgânico, sustentável e escalável. Devemos ter em mente que o caminho da inspiração é como se diz, um investimento a longo prazo. Pois para inspirar é preciso arregaçar as mangas e fazer acontecer e não simplesmente se manter sentado em uma pedra gritando e dando ordens como um louco desvairado.


E ai, gostou? Já teve alguma experiência como esta? Deixe seu comentário para que possamos aprender com seus erros e acertos! Juntos podemos ir mais longe!

Um forte abraço e até a próxima!

Monan Bertoluci.

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