A tragédia anunciada (e planejada) da explosão do estado prisional e o fim do estado de bem-estar social

Workfare e Prisonfare: entenda o arcabouço do Estado Centauro Brasileiro em que eles vão jogar você.

Aviso ao leitor: se não tiver tempo e quiser ler o que realmente interessa vá direto para o último texto…BOURDIEU, FOUCAULT E O ESTADO PENAL NA ERA NEOLIBERAL

Workfare designa programas de assistência pública destinados aos pobres, que fazem do recebimento do auxílio um benefício pessoal condicional, quando os beneficiários aceitam trabalho mal remunerado ou se submetem a estratégias orientadas para o emprego, tais como o treinamento no local do trabalho ou a jobsearching (em oposição ao welfare enquanto um direito inquestionável à assistência).” (…)
“Fazendo uma analogia com workfare, designo por regime prisional (Prisonfare) a orientação política através da qual o Estado dá uma resposta penal às doenças urbanas purulentas e às desordens sociomorais, bem como ao imaginário, aos discursos e aos corpos de conhecimento leigo e especializado que florescem em torno da implantação da polícia, dos tribunais, das cadeias e das prisões, e de suas extensões (liberdade vigiada, liberdade condicional, bases de dados computadorizados de arquivos de criminosos, e os esquemas de monitoramento e vigilância remotos que eles permitem). À penalização juntam-se a socialização e a medicalização como as três estratégias alternativas.através das quais o Estado pode optar em tratar condições e condutas indesejáveis.” — Loïc Wacquant
O Brasil não é um país subdesenvolvido, é um país retardatário. Está sempre comprando lixo, engôdos, e refugos tecnológicos inclusive no plano das políticas e sistemas sociais. Não bastasse comprar lixo nuclear, para chamar de usina, como as Angras, compramos tardiamente ideologias ultrapassadas e falidas e ainda por cima aceleramos desumanamente seu processo de implantação, e olha aí as infelizes coincidência de novo, justamente quando eles, os países desenvolvidos, estão começando a querer se livrar destas porcarias obsoletas que começam a quebrar…
Enquanto o mundo desenvolvido por necessidade se abre e coloca em sua agenda a discussão e disseminação das economia de renda básica e suas experiências, aqui aceleramos fundo na contra-mão. Cabe perguntar esperando o quê? Senão mais tragédias? Cabe perguntar o que esperar de nossos governantes senão um choque de frente entre sociedade e Estado. Um choque enfim forte o suficiente que justifique uma supressão de direitos não apenas trabalhistas, mas civis, um choque que justifique o esmagamento autoritário do cidadão em nome da lei e da ordem? E claro, leve mais uma vez toda a classe politica a direita e esquerda escapar junta de responder por seus atos. Devolvendo-nos ao mais primitivo dos Estados que sempre foi o brasileiro o autoritário do velho: você sabe com quem está falando?

Loïc Wacquant embora não trate especificamente da renda básica é talvez o pensador contemporâneo que melhor forneceu subsídios para entendermos o que seria um estado verdadeiramente um Estado Social no seculo XXI e o quanto neste os direitos constitucionais incondicionais estão diametralmente opostas as assistências governamentais condicionadas; enquanto estas por sua vez estão direta e inerentemente integradas aos atuais estados vigilante neoliberais em expansão nos países periféricos.

Wacquant demonstra como sistemas penais medievais e assistenciais sociais burocráticos são as faces a esquerda e direita de um mesmo Estado que não apenas atrasa e brutaliza seu povo, mas assassina o desenvolvimentismo humano e logo econômico de uma Nação, em cada pessoa seja pela fome, criminalidade ou corrupção. No fundo, três “tragédias” que se retroalimentam e sustentam os mesmos donos e sócios das 3 industrias de tragédias do Brasil.

Wacquant fornece evidências e explicações que nos ajudam a compreender como as tragédias no sistema prisional, não são nada acidentais, mas muito pelo contrário o resultado de uma arquitetura social teratológica que produz e atrai bandidos e monstros com sede de sangue e morte tanto para prisões quanto aos palácios governamentais, ambos entrando numa simbiose que ajuda e mantém seus domínios neste conflito enquanto traga toda a sociedade para um estado de medo e terror que fortalece seus estados paralelos ou não.

Lendo Wacquant fica mais fácil compreender porque os governos convivem e toleram tão bem tais facções criminosas. Elas são a desculpa que eles precisam para criminalizar todos excluídos ao mesmo tempo que podem fingir que não são criminosos por vezes até assassinos em massa, mas sim cidadãos civilizados. Já que não cortam as cabeças com suas próprias mãos, mandam cortar.

A comparação aqui com os EUA não é gratuita. Não é a toa que se assemelha a eles como estados paralelos e na brutalidade do seu terrorismo. Infelizmente as facções criminosas desempenharam na derrocada da nossa precária sociedade e civilidade o papel que o Estado Islâmico desempenhou para generalizar uma guerra contra toda uma religião e seus povos, e legitimar mais uma vez o agressor e invasor como a vítima que apenas está se defendendo contra os bárbaros.

No futuro é capaz inclusive de alterar até a ordem não apenas lógica mas cronológica dos fatos, dizendo um dia que as guerras no Oriente Médio vieram como resposta ao Estado Islâmico, e que as prisões e estado policial nasceram para combater as facções criminosos e não o oposto, que eles não nasceram no bojo de cada uma dessas guerras. Porém hoje, que a realidade está escancarada na nossa cara, só mesmo pensando com a bile, para não ver. Nem um, nem outro existiria senão como efeito colateral da própria incompetência dos Estados em supostamente produzir a paz. Ou se preferir não subestimá-los na extrema competência quase instintiva que as classes governamentais tem para reproduzir inimigos e vender como garotos-propaganda sua industria militar-prisional-policial para sua nação que no final de contas banca tudo.

Entendam, não estou defendendo Estados Islâmicos, Facções Criminosos, ou os políticos e governantes genocidas e criminosos, todos eles devem ser detidos, desarmados e suas organizações desarticuladas. O que estou dizendo é que da mesma forma que não podemos nem devemos defender que políticos e governantes tenham sua cabeça cortada, por pior que sejam seus crimes e danos, também não podemos defender que nenhum bandido maior ou menor sofra o mesmo destino. Simplesmente como não devem existir foros privilegiados para criminosos escapar da justiça, não devem existir porões de desumanidade para punir, matar e torturar nem os piores deles, por mais perversos ou perigosos. E o simples fato de isso que está sendo enunciado, é evidencia mais do quanto estamos nos perdendo e quão perigosa é a situação que eles estão jogando nosso país não para escapar impunes, mas para continuar no poder!

E mesmo assim, quer goste ou não, como seres humanos somos absolutamente iguais em essência aos mais criminosos destes bandidos ou governantes. Pensar diferente disto, pensar que por vocação ou origem já nascemos como sementes predestinados ao bem ou mal, ou que pelo contrário a humanidade pode ser fabricada ou subtraída por eles ou pior por nós, tudo isso redunda inevitavelmente na deformação da nossa humanidade ou o que é a mesma coisa, em abrir a senda do eugenismo, racismo e genocídio em que esse tipo de coisa sempre termina. Pensar que o assassino nasce com o individuo, ou que por outro lado que essa humanidade possa ser completamente destruída e adulterada é se perder da mesma contaminado pelo ódio ou pior ainda, ideologias de ódio.

Entre uma sociedade de gado obediente pronto para o abate, e uma de lobos ainda mais sedentos de sangue que os outros lobos, é possível preservar nossa humanidade sem precisar desumanizar o outro, nem muito menos a nós mesmos para enfrentá-los em legítima defesa.

Mas voltemos a Wacquant, BOURDIEU, FOUCAULT E O ESTADO PENAL NA ERA NEOLIBERAL

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