Desvendando O mito Utilitarista do Progresso (Final)

Da janela lateral do quarto de dormir em Paranapiacaba

O utilitarismo é uma doutrina ética [não, moral[1]] defendida principalmente por Jeremy Bentham e John Stuart Mill que afirma que as ações são boas quando tendem a promover a felicidade e más quando tendem a promover o oposto da felicidade.
Filosoficamente, pode-se resumir a doutrina utilitarista pela frase: Agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar (Princípio do bem-estar máximo).
Trata-se então de uma moral eudemonista, mas que, ao contrário do egoísmo, insiste no fato de que devemos considerar o bem-estar de todos[não, da maioria (se muito)] e não o de uma única pessoa.- Wikipédia.

Antes de continuar a critica ao mito utilitarista do progresso, ou mais precisamente o mito do progresso marcado pela moral utilitarista. Vale a pena explicar a correção feita na definição. Em Filosofia, moral e ética não são a mesma coisa. A moral trata das noções, valores e definições de bem e de mal. A ética das ações comportamentos e procederes segundo o critério correspondente de moralidade. Tomemos o exemplo do típico dilema da moral utilitarista versus a humanista aplicada a ética médica e cientifica: Supondo que o estudo que provoque ou permita a morte de um certo número de pessoas, para salvar um número muito maior.

O utilitarista considera segundo a sua moral, aceitável sacrificar um certo número de vidas, se essa infelicidade no contabilidade geral servir para promover a maximização e bem-estar “de todos” — neste caso a palavra todos é no final das contas, de certo modo perverso correta, afinal a infelicidade foi eliminada… exterminando os infelizes em beneficio da felicidade das maiorias eleitas.

Já o humanista ira se negar a submeter a vida humana a esse tipo de contabilização. Não importa se o sacrifício seja de um, ou poucos para salvar toda a humanidade. Essa é uma decisão que não pertence a moralidade, mas ao livre-arbítrio, a voluntariedade de cada pessoa humana e ninguém mais. E violar esse direito natural é sempre um crime contra o direito humano e a humanidade, não importa se seja efetuado para aumentar a felicidade, o bem-estar, a riqueza, ou mesmo acabar com a pobreza, a doença ou o infortúnio de outras.

O livre-arbítrio ou como prefiro chamar a livre vontade, é por lógica e definição fenômeno anterior e constantemente necessário a existência do pensamento moral. A moralidade como em sabem os juízes, juristas e versados em direitos, é um requisito que depende de 2 elementos: o conhecimento da culturas e costumes. E segundo a capacidade mental não só de tomar decisões, mas de distinguir entre o bem e o mal, ou seja, por definição, a capacidade de exercer o livre-arbítrio. Ser livre e responsável — e logo passível de ser responsabilizado por seus atos- não é portanto uma noção moral, como o utilitarismo ou o humanismo, mas um princípio fundamental para a possibilidade da formulação não só de qualquer pensamento moral mas da própria noções de bem e mal, ou seja da própria Moral em si.

É neste sentido que digo que o pensamento libertário, ou mais precisamente a sua lógica, o seu logos não é um principio meramente, econômico, politico, religioso, filosófico ou moral, mas de ordem natural tanto cosmológica (mundo físico) quanto epistemológica (processo mental).

Assim sendo, o libertarismo está em outro plano ou campo. E dizer, exemplo que o utilitarismo, não é um principio contraditório ao humanismo, desde que aquele individuo que sacrifica seu vida, bem-estar ou felicidade em nome da maximização do resto do mundo, o faz voluntariamente, como um mártir e santo, é o mesmo que anular o utilitarismo como filosofia moral. A função da moral e consequentemente da ética não somente prescrever critérios de bem e mal (moral) capazes de orientar aquelas ações que podemos ou deveríamos fazer, mas sobretudo aquelas que não podemos e como devemos ou não devemos reagir diante destas (ética). Ou seja, a moral pela qual se estabelece as noções de juízo e justiça, tem por finalidade determinar o nível de intervenção de uma pessoa na vida da outra; quando se pode, quando se deve, e principalmente quando jamais se deve e — por consequência dessa violação — quando sempre precisa. Uma moral que não fornece critérios para a prescrição do agir e não agir, do reagir e não reagir, não é propriamente uma filosofia moral, mas escrito pop de auto-ajuda.

Mesmo o libertarismo não como epistemologia, mas como filosofia moral, atende esses requisitos, fornecendo critérios morais através do principio moral da não-agressão para o proceder ético de acordo com o que essa moral define como o bem: a liberdade. Até mesmo o libertarismo anarquista. Por sinal o anarquismo enquanto filosofia moral (não confundir com a propaganda política pelo ato) prega um proceder ético muito mais restritiva e menos liberal do que muitas filosofias ditas moralistas ou conservadoras naquilo que prescreve tanto no que “pode e não pode fazer”em favor do bem, quando no que se deve ou precisa fazer em reação ao que se considera o mal — especialmente no que se concerne as exceções a regra.

Isto posto. Voltemos ao utilitarismo. O utilitarismo como se lê na definição acima -que não corresponde a obra dos autores, mas corresponde sim a leitura dos seguidores (como de praxe) — está baseado em três princípios reducionistas contrários não só ao humanismo, mas :

(i) a possibilidade de qualquer ciência ou consciência humanas a medida que não só é incapaz de explicar a complexidade desse fenômeno, mas não chega sequer a seus princípios mais simples e elementares.

(ii) e mais importante a fundação a medida que não leva em consideração as causas e consequências que compõe as “leis” naturais, que são absolutamente necessárias a noção de direitos (e deveres) fundamentais necessários a celebração dos contratos sociais, ou o que é a mesma coisa a fundação e preservação dos estados de paz.

Os princípios são:

1.Felicidade como sentido existencial e medida do bem-estar.
2. A quantificação desse bem-estar com propósito da sua maximização.
3. E a contabilização desse bem como valor coletivo e não individual.

Comecemos explicando a segunda objeção. Porque o utilitarismo não finda o que os filósofos contratualistas chamam de “natureza”, guerra, para dar inicio a um estado de paz em sociedade.

Muito embora essa divisão seja na prática completamente artificial, a medida que os “estados de paz”, não tenham historicamente sido capazes de cumprir a função de estabelecer a paz, pelo contrário, ampliaram absurdamente a destruição causada das guerras, através do crescimento desenfreado da máquina estatal e do seus negócios militares. Esse processo se deve muito mais a noção completamente adulterada de bem e paz adotada, e não propriamente do mal que natural que supostamente intencionavam eliminar: a violência. O problema portanto estava na solução artificial, a estatal, que ao invés de eliminar o problema, o alimenta junto com o próprio crescimento inerentemente sem limites da corporação estatal e não propriamente na identificação do problema natural, a violência e violação em sentido amplo tanto das agressões quanto das privações que levam naturalmente os indivíduos, classes e povos ao conflito. Não vou entrar nessa questão porque é vasta a literatura sobretudo econômica que demostra essa tendência estatal e o resultado completamente adverso das soluções coercitivas. Até porque ele é a contradição perfeita dos princípios fundamentais, a eliminação da violência pela supremacia da violência, que elimina bandidos para criar ditadores, ou melhor conduz bandidos a ditaduras. Para sanar a violência e autoritarismo de pequenos bandos e bandidos, gera um gigantesco e único monopólio de bando de bandidos que se valem também da violência. Ora é obvio que o interesses particular deles não será jamais pela preservação da paz, mas para manter seus domínios sem concorrência seja interna, seja externa. Até porque a paz, implicaria seja na sociedades ou no mundo o fim dos seus grande negócio. O fim do Estado prisional vigilante sempre me pé de guerra, para o estado delegacia de interior.

A solução do estadismo é portanto um erro flagrante. É um dos maiores golpe da história da humanidade, e o que é pior, é que depois de milênios os povos ainda continuam a cair nele, mas é explicável, afinal ninguém herda a memórias do carcere de seus pais, e cada nova geração nascida em cativeiro mais natural acredita sua condição e menos ideia faz de outras ou de como ela possa ter surgido. Mas o problema permanece e a leitura esta perfeitamente correta. A visão romântica e idílica de um mundo não propriamente pré-estatal, mas pré-social, é o sonho de uma utopia voltada para lembranças de passado que nunca existiu.

O estado de natureza por evidente não é o Estado de guerra de todos contra todos, até porque a cooperação, a empatia e livre iniciativa não estão mortas e apagadas para favorecer a dependência da proteção e provisão estatal, mas estão tão vivas quanto todas as forças e naturais como a violência.

O principio que o utilitarismo assim como o próprio estadismo viola, é o mesmo: embora a noção de bem-estar como felicidade do utilitarismo não seja necessariamente composta de paz e liberdade, ambas visões de mundo atendam contra uma lei da natureza: o bem-estar, a felicidade, a paz, a liberdade de um, mesmo que seja a maioria, mesmo que seja construída apenas com a infelicidade, o mal-estar, a privações, agressões ou ameaças ao outro, mesmo que este outro não seja um povo, mas um único ser dotado da vontade viver é o equivalente a manutenção de uma permanente estado de guerra não declarado contra a sua existência. E o seu direito a legitima defesa chama-se uma lei natural, porque por analogia ao mundo dos homens, essa ação possui uma reação, que assim como as transgressão dos direitos em sociedades equivale a uma punição. Talvez se objete que nem sempre no mundo natural toda transgressão é punida ou punida com correção. Nem no mundo social. O fato é que leis que não são apenas orientações de comportamento precisam prever consequências para os atos, e claro tentar executá-las. Ou seja precisa imitar a natureza e não o contrário, de tal modo que quando mais segura ou previsível por a consequência de um ato previsto, maior será a validade da lei, seja natural ou artificial. É por isso que se chama com propriedade a gravidade newtoniana de uma lei.

Evidente que os seres dotados de anima são muito mais complexos. E dotados justamente por conta da sua força de vontade de um grau de imprevisibilidade muito maior que pedras por exemplo, mas atire uma pedra em qualquer animal selvagem maior que você e você vai ver que não é tão imprevisível assim onde você o animal vão parar. Na verdade, até em animais domesticados é possível encontrar se chegar ao mesmos limites da não-reação, dependo da selvageria, inclusive o homem.

Logo a contabilização do bem -seja ele qual for o valor que esteja baseado- na somatória da coletividade produz sempre uma media do bem absolutamente falsa, especialmente para aqueles que não estão jantando mas sendo jantados. E consequentemente absolutamente contrária a paz. A paz desse onde esse tipo de mentalidade predomina, é aquela fugaz entre as bestas que dividem sua presa. Morto o infeliz, a felicidade de todos os sobreviventes é máxima. Porém, aí porém… a fome volta e como sobreviventes presos a um mesmo navio, uns começam a olhar para os outros e se perguntar quem será o próximo. E essa é toda paz e felicidade que a maximização do bem pela somatória da coletividade pode produzir a longo prazo, em ultima instancia um último homem lobo do homem morto de fome ou devorando-se a si mesmo. De certo modo, quando olhamos para a humanidade não como uma coletividade total e homogênea, mas todo plural de indivíduos, podemos ver a humanidade já a ser como é esse lobo; a passar um pouco de fome, a devorar um pouco de suas parte, para sobreviver, no sentido de meramente de adiar seu inevitável fim.

Nisto entramos no mito do progresso utilitarista. Assentada em cima de uma falácia a do bem estar de todos, estabelecido a partir da busca de felicidades e bem-estares particulares para no fim trocar os termos e calcular isso como somatória totalitária de coletivos. Não existe felicidade nem bem-estar coletivo, a não ser como delírio ou ficção tal e qual a própria vontade supremacista tomada por coletiva. O calculo utilitário que embasa o progresso civilizatório sempre parece justificar a si mesmo pelo resultados, mas justamente porque ignora os procedimentos pelo qual não apenas efetua sua avaliação de resultados finais, mas sobretudo o histórico dos métodos pelos quais esses resultados foram obtidos. Como se qualquer experimento nazista justifica-se uma única vida tomada. Não justifica, pelo simples fato que cada vida em si é um universo, não é parte de nenhum conjunto maior, ainda que integrada a ele. Novamente por analogia as terminologias da justiça humana, é uma questão de jurisdição. A somatória de todas as felicidades e progressos alheias literalmente pertencem a outro mundo. É o patético (e revoltante) do supremacismo quando não se reconhece como tal; que em meio as ruínas de uma Síria, a pobreza de uma Bangladesh, ou as doenças na Africa faz a apologia do progresso da civilização e humanidade, qual humanidade? a sua cara-pálida?

Contabiliza-se perdas e ganhos como se seres humanos fossem um células de uma grande organismo nacional ou internacional, cujo sacrifício se justificaria para a preservação dessas ficções ou da somatória do bem-estar desse todo. Como se o bem pudesse ser amalgamado em qualquer totalidade. Toma-se as abstrações como reais, e o real como partes da ficção. Ou mais precisamente, os entes naturais como meros componentes do artificial. Literalmente o progresso da humanidade é nulo, para os soldados que morreram nos fronts de guerra, para as famílias que desaparecem, é absolutamente zero para os povos e pessoas que foram exterminados em meio as marchas da civilização. Ou mais propriamente falando o infortúnio dos canibalizados não se soma nem subtrai na contabilidade da felicidade e bem-estar canibais, ela não pertence aos seus cálculos, sues números nem sequer a seus sistemas de valores. O todos, o universal do utilitarismo não existe. Porque até a felicidade daquele que se sacrifica pelo outro não está no número, mas nas pessoas que eles significam. E gente não se marca nem se conta. Nem o seu valor humano. A matemática da ciência e consciência é outra.

Então estou dizendo que 30 pessoas salvas e 10 mortas não são 20 vintes pessoas salvas? Exatamente. 30 pessoas salvas e 10 pessoas mortas são 10 pessoas mortas e 30 salvas, não 20. E as outras 10 são o universo inteiro perdido, são absolutamente todas as pessoas, se essas 10 era tudo o que você ‘tinha”. E por elas assim como por sua vida, você vai a guerra contra as outras 30 para não ser mero registro da contabilidade da felicidade e bem-estar alheio.

É por isso que o fundamentos morais dos cálculos e raciocínio utilitários não é apenas anti-jusnaturais, são desnaturados desumanizador e por princípio antissocial na mediada que nenhuma sociedade de paz se funda nele, sem a eliminação e incorporação dos descontentes como o obstáculo a maximização totalitária da felicidade dos que prevalecem entre mortos e vivos.

A filosofia utilitarista é simplesmente desprovida da moralidade absolutamente necessária para a fundação de um estado ou melhor sociedade de paz (contrato social). É absolutamente desprovida da noção de respeito INCONDICIONAL e UNIVERSAL aos direitos individuais, isto é dos direitos da pessoa humana. A individualidade é meramente uma unidade desse bem-estar coletivo que em tese é abstrato, mas que na prática sempre tem dono. Esta preso no dilema inescapável e absolutamente justo e inviolável que pode ser expresso na seguinte máxima: concordo que se sacrifique uma vida humana para salvar a humanidade, desde que não seja a minha…

Reclamar que falta solidariedade a pessoa que não queira sacrificar a sua vida por qualquer outra pessoa, seja ela uma ou muitas é em si um atentado contra a própria instinto de preservação da vida. Nada impede que a pessoa, se arrisque ou sacrifique, mas isso não é nem pode ser em hipótese alguma a regra da moralidade, mas uma decisão absolutamente livre pessoal.

A moralidade como assinalamos trata do que pode e não pode, do que e deve ou não ser feito. É portanto necessariamente as bases sobre as quais tratamos daquilo constitui de fato a justiça: a intervenção. Quando falamos de direitos naturais e deveres sociais correspondentes; quando falamos em estado de paz e sociedades civis, estamos falando claramente sobre nossos direitos e deveres de intervenção uns na vida dos outros. Algo que remete a moral. Uma sociedade cuja moralidade não toma o respeita ao direito individual da pessoa humana, está fadada a se manter em pé de guerra com dos indivíduos que seu progresso passa por cima. Da mesma forma que uma sociedade que não protege esses indivíduos está fadada a ser substituída por sociedades concorrentes mais seguras capazes de prover tal proteção a vida e liberdade das pessoas não como um todo abstrato, mas como a rede formada por cada individuo.

Toda moral estabelece portanto a prescrição dos poderes e deveres. As circunstancias em que podemos ou devemos intervir na vida e ações uns dos outros e as que não. Até sociedades anarquistas e pacifistas possuem uma moral prescritora de regras de intervenção. No caso contra a desigualdade de poder ou contra a violência. O que é evidente. Afinal uma sociedade pacifica que não é capaz de conter ou impedir a violência, está fadada a ser uma sociedade de ovelhas a espera do lobo. Assim como uma sociedade anárquica, cuja ordem livre não seja capaz proteger liberdades e propriedades fundamentais, nem intervir contra suas violações, está fadada a ser substituída por qualquer ordem, até mesmos as primitivas e autoritárias ditaduras, onde impere a absoluta desigualdade hereditária de poderes e liberdades. Exatamente como qualquer outra sociedade libertária ou liberal. Todas tendem a cair frente a sociedades autoritárias e desiguais, se na prática as liberdades garantidas para cada pessoa, for de fato maior por mais desigual e injusta que seja em relação aos privilégios de quem detém o poder.

E se esses poderes e deveres não observam e respeitam a unidade fundamental constituinte das sociedades, a vida e liberdade pessoa natural, não se tem propriamente um estado de direito e justiça e paz, mas de guerra, desigualdades e privilégios mantidos pela força dos que prevalecem sobre os dominados. Suas intervenções não são praticadas para proteger a vida e liberdade de cada pessoa integrante, mas em tese do todo, que na prática não senão o todo dos protegidos e privilégiados.

E este é de longe o maior problema moral do utilitarismo. A felicidade como finalidade e a busca da sua maximização como objetivo moral. A felicidade não só é um interesse difuso, que nem sempre está em sintonia com as necessidades vitais e naturais de diferentes pessoas, e um interesse que pode estar em contrariedade as necessidades materiais básicas do próprio individuo, como pode estar em contrariedade as suas necessidades imateriais, de busca de sentido existencial. Simplesmente pode não compreender os valores e sentidos que a pessoa busca ou atribui a sua vida, como pode não satisfazer o sequer o essencial para preservação da sua própria vida e liberdade.

É evidente que a busca da felicidade não é a mera busca por prazer ou evitar a dor e sofrimento. Ela envolve um estado emocional mais complexo, que pode exigir evitar certar prazeres e enfrentar certos sofrimentos em busca da realização que proporciona essa felicidade. Mas há ainda outros estados de espirito que mesmo a pessoa vivendo em absoluta privação, sofrendo como dores físicas e emocionais, e completamente triste e infeliz e até mesmo deprimida ela pode vivenciar capazes de superar todas as sensações ruins ou boas e dar sentido existencial a vida independente das circunstanciais. Um verdadeiro estado de graça a medida que não importa a desgraça que é a vida permanece. Permanece até mesmo quando há uma completa falta de prazer ou desprazer, felicidade e infelicidade, permanece até mesmo no mais completa afasia.

Esse estado de espirito não é só confere a resistência ao sofrimento e tentações, ele confere a pessoa aquela persistência mesmo na completa ausência de adversidade ou facilidades estímulos positivos ou negativos. Um estado de espirito que parece ter força própria. E tem. Tem toda a força de vontade que ao encontrar um sentido se torna Vocação, se torna a própria manifestação do sentido existencial do ser. o torna uma entidade livre, empoderada e autodeterminada, soberana de si mesma no propósitos constituídos a partir daqueles princípios que ele toma como sua essência. Uma forma de vida, um forma de ser integrada que é o próprio meio da integração do que ele tem por princípios e finalidades.

Um estado de espirito que faz da existência material do ser a própria encarnação desse vontade e vocação como entidade. Literalmente um estado de graça, que não deixa de ser um estados mental e emocional, mas que se processa em um plano mais profundo de consciência dentro de uma sensibilidade mediada pela razão, ou mais precisamente uma profunda fé nas razões. Fé não no sentido de credo, portanto, mas como um sentimento de verdade sobre certas coisas que por serem tomadas como certas se constituem a base da construção dos pensamentos e entendimentos.

Essa noção de verdadeiro e sua busca, independente do que se atribua especificamente serve inclusive como demonstrativo do paradoxo da busca da felicidade como proposito ou sentido existencial. Pois podemos viver situações onde uma profunda sensações não só de prazer, mas de felicidade sejam fruto de processos não só induzidos por substancias ou estímulos químicos e psicofisiológicos, como viver numa condição feliz mantida por mentiras ou de forma complexa pela ocultação ou adulteração de realidade. No dilema entre viver feliz, mas ignorante, iludido ou engano, ou infeliz mas consciente sobre o que está vivenciando e acontecendo, o utilitarismo prega que se for possível manter a mentira, evitar o desgosto da sua revelação, isso é preferível do que vivenciar a revelação de uma verdade cuja alegria da sua descoberta jamais superará a tristeza do seu saber. Mas eis a questão: você prefere vivenciar uma felicidade mantida por mentiras, ou enfrentar uma infelicidade irremediável por saber a verdade? Não duvido que há quem prefira viver no conforto da ilusão, mas nem todo mundo prefere. E o simples fato de haver vontades distintas que guiam as pessoas a uma tomada de decisão contrária não só retira da busca pela felicidade, o caráter universal como o bem maior, como evidencia que existem outros sentidos capazes de compor outros valores diversos e tido pela pessoa como superiores.

Mas quais seriam esses valores verdadeiros se não é a felicidade? Esse é o ponto a verdade desses valores são indeterminados, o que jamais deve ser confundido com subjetivos e relativos. O componente que objetiva a universalidade dos valores e sentido de vida próprios como absolutamente verdadeiros é justamente o componente que permite a formação desse complexo de sentidos existenciais diversos e até mesmo contraditórios: a liberdade.

É a liberdade que permanece como principio fundamental ou gerador das subjetividades e autodeterminação dos valores e sentidos de vida de tal modo que a verdade deles não é relativa, isto é, só valida para este ou aquele individuo, mas absoluta naquilo que é o denominar comum de todas: a possibilidade de atribuição e reatribuição de sentidos que por mais diversos que sejam, ainda sim se originam (e preservam) no mesmo fenômeno.

Literalmente neste sentido a busca pela felicidade, é apenas um entre muitos sentidos que uma pessoa pode dar livremente a sua vida, assim como a mera busca do prazer, ou até mesmo simplesmente negar a existência de qualquer sentido, que na prática não tem o poder para negar, bem como a própria afirmação do sentido da vida como liberdade não tem o poder para atribuir, pois rigorosamente ambos são fruto dessa mesma princípio original, que no máximo conseguimos reconhecer e conhecer não no que observamos no mundo, mas naquilo que vivenciamos em nós mesmo, porque a liberdade não é um fenômeno sensível a observação, mas um fenômeno sensível a experimentação, condição que só existe e se materializa na própria vivência do ser.

A moral libertária como toda moral, tem uma epistemológica tanto material quanto transcendental a qual o utilitarismo não compreende nem como moralidade nem como episteme. E aos olhos do utilitarista sobretudo o materialista o espirito libertário não só não existe como sua práxis parece a loucura de quem acredita que há verdades e razões de ser que vão muito além da sensibilidade e percepção comum das coisas dadas.

Não é portanto só entre o céu e a terra que existem mais mistérios que podem nossa vã filosofia imaginar; é entre o homem e o mundo, até mesmo porque é o homem dotado da capacidade não só de elucidar mas criar mistérios tão reais quanto o da própria natureza da sua criação.

A liberdade é uma força, é um fenômeno, o progresso uma abstração relativa a mentalidade do que está dado e concebido, e nem sempre coerente com a ordem natural das coisas.

Por isso sempre me surpreende a insensibilidade de quem fala no progresso, ou avanço da humanidade, na eliminação da pobreza, ou do ganho de liberdades reais para todos, ou “felicidade geral”, julgando imparcial por não tomar a sua perspectiva como absoluta mas usando a perspectiva do outro, mas ainda assim aplicando seus valores e cálculos para determinar com sua autoridade não só a felicidade, mas pior a liberdade alheia. Como se essa objetivação do outro, já não fosse uma subtração das mais absolutas e universais liberdades de cada individuo para definir não só seus valores, e sentidos existenciais, mas a sua própria condição de existência como o sujeito do mundo e não o objeto do outro.

E essa é o resumo de toda a moral libertária, ela não é meramente a defesa da pluralidade de concepções e forma de vida, é a defesa com todas as força e vontade do princípio de paz gerador desse mundo possível: a liberdade como o fenômeno e não como mera ideologia. A liberdade como fenômeno gerador da vida e seus infinitas formas e ideais do qual o libertarismo se de fato libertário e autoritário, palavra vazia é nada menos que apenas uma forma da expressão da sua verdade, a forma que comporta todas as formas de ser que não privam nem precisam se valer da privação ou contrariedade das demais para a existir.

E é por isso que afirmo que não há nem jamais haverá um estado de paz, ou qualquer humanidade universal, sem o fundamento social de uma moral libertária, que literalmente liberte os seres humanos do seu delírios autoritários, não só os utilitaristas clássicos, mas objetivistas derivados.

Mas isso já é uma outro mito “de liberdade”.

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