Gelderloos: A Não-Violência é ilusória

Como a Não-Violência protege o Estado (Parte 6)

(…)Frantz Fanon escreveu:
Aqui, no nível das organizações comunitárias, discernimos claramente os bem conhecidos padrões de caráter da evasão. É como se o fato de mergulhar num banho de sangue com seus irmãos, permitira-lhes ignorar o obstáculo, e adiar a decisão, inevitável de modo qualquer, que abre a questão sobre a resistência armada contra o colonialismo. Portanto, autodestruição coletiva, de uma forma concreta, é um dos caminhos através do qual a tensão dos nativos é libertada.[33].

Ward Churchill defendeu que o pacifismo é patológico. Eu diria que, no mínimo, o avanço da não violência como prática revolucionária depende, no contexto atual, de um grande número de ilusões. Por onde começar?

Frequentemente, depois de mostrar que as vitórias da não violência não foram realmente vitórias, exceto para o Estado, deparei-me com uma simples réplica de que porque alguma luta militante ou alguma ação violenta fracassou, a “violência” é igualmente inefetiva. Não me lembro de ter escutado alguém dizer que o uso da violência garante a vitória. Espero que todo mundo perceba a diferença entre mostrar as falhas de vitórias pacifistas e mostrar as falhas de lutas militantes que ninguém nunca alegou serem vitórias. Não é controverso afirmar que os movimentos sociais militantes têm tido sucesso em mudar a sociedade, ou mesmo se tornado a força que prevalece na sociedade. Para reafirmar esta ideia, devo dizer que acredito que o mundo todo deveria admitir que as lutas que usam uma diversidade de táticas (incluindo a luta armada) podem funcionar. A história está cheia de exemplos: as revoluções no norte e sul de América, França, Irlanda, China, Cuba, Argélia, Vietnã e assim sucessivamente. Também não é terrivelmente controversa a afirmação de que os movimentos militantes antiautoritários tiveram sucesso durante um tempo liberando zonas e criando mudanças sociais positivas nelas. Estes casos incluem as coletivizações na Guerra Civil Espanhola e na Ucrânia de Makhno, a área autônoma da província de Shinmin criada pela Federação Anarco-Comunista Coreana ou o temporário espaço para respirar ganho para Lakota por Crazy Horse e seus guerrilheiros. O que é discutível, para alguns, é se os movimentos militantes podem ou não vencer e sobreviver a longo prazo e continuarem antiautoritários. Para defender convincentemente contra essa possibilidade, os pacifistas teriam que mostrar que usar a violência contra qualquer autoridade faz com que, inevitavelmente, sejam adotadas características autoritárias. Isso é algo que os pacifistas não fizeram, e não podem fazer.

Frequentemente, os pacifistas preferem caracterizar-se como os certos ao invés de defenderem suas posições com argumentos. À maioria das pessoas que ouviram argumentos sobre a não violência ser-lhe-á familiar a ideia de que a não violência é o caminho da dedicação e disciplina, e que a violência é a “saída fácil”, uma entrega a emoções básicas[1]. É claro que isso é absurdo. A não violência é a saída fácil. As pessoas que escolhem se comprometer com a não violência estão garantindo um futuro mais confortável para si do que aquelas que escolhem se comprometer com a revolução. Um preso do movimento de libertação negra contou-me por carta que quando se juntou na luta (sendo ainda um adolescente), sabia que terminaria ou morto ou na prisão. Muitos dos seus camaradas estão mortos. Por continuar na luta atrás dos muros das prisões, ele ficou preso em solitária por mais tempo do que já vivi. Compara isso com a recente comodidade que temos visto nas comemoradas mortes de David Dellinger e Phil Berrigan. Os ativistas não violentos podem dar suas vidas por suas causas, e alguns até o fazem, mas, diferente dos ativistas militantes, não têm que encarar um ponto sem volta para uma vida confortável. Sempre podem se salvar comprometendo sua oposição total, e a maioria o faz.

À parte de refletir uma ignorância a respeito da realidade das diferentes consequências de certas ações políticas, a crença de que a luta não violenta é a saída mais fácil esta com frequência tingida de racismo. Os autores do ensaio Why Nonviolence? (Por que a não violência?), fizeram o seu melhor para que, no ensaio, evitassem menção de raça, mas na seção dedicada a perguntas e respostas, forneceram veladas respostas às críticas de que o pacifismo é racista retratando “pessoas oprimidas” (pessoas negras) como raivosas e impulsivas. “Pergunta: Pedir que as pessoas oprimidas tenham um comportamento pacífico com seus opressores é estúpido e injusto! Elas precisam colocar sua raiva pra fora!”[2]. A “resposta” que os autores deram a esta lograda crítica da não violência incluiu muitas das típicas e enganosas falácias que tenho citado: os autores dão conselhos às pessoas, que estão muito mais oprimidas que eles, para que tenham paciência e vivam sob condições as quais eles não poderão jamais compreender: dão conselhos aos negros para atuarem do jeito mais “nobre e pragmático”, evitam críticas soltando o nome de algum referente negro qualquer e concluem ameaçando, tacitamente, que o ativismo militante por parte das pessoas negras resultará em abandono e traição por parte dos poderosos “aliados” brancos. Para saber:

Em respeito à justiça, se os oprimidos pudessem fazê-la sumir, terminariam com sua opressão. Não há um caminho para a libertação que esteja livre de sofrimento. Devido ao inevitável sofrimento, é tão nobre como prático representar a disciplina e o sofrimento não violentos (como fez Martin Luther King Jr.) como imperativos. “Botar a raiva para fora”, de modo que custe aliados a um grupo, é um luxo que os movimentos sérios não podem se permitir[3].

Os pacifistas iludiram a si mesmos, relacionando o ativismo revolucionário com uma atuação impulsiva e irracional, proveniente unicamente de “raiva”. Na verdade, o ativismo revolucionário, em algumas das suas manifestações, tem um forte caráter intelectual. Depois dos distúrbios de Detroit, em 1967, uma comissão do governo achou que o típico desordeiro (além de estar orgulhoso da sua raça e ser hostil com os brancos e negros de classe média) “é substancialmente melhor informado sobre política do que os negros que não se envolveram com os distúrbios”[4]. George Jackson educou a si mesmo dentro da prisão, e, em seus escritos, enfatizou a necessidade dos militantes negros de estudar as relações históricas com seus opressores e de aprender os “princípios científicos” de guerrilhas urbana[5]. Os Panteras leram Mao, Kwame Nkrumanh e Frantz Fanon, e requeriam que novos membros educassem-se acerca de teorias políticas por trás de sua revolução[6]. Quando finalmente foi capturado e levado para um júri, o anarquista revolucionário do Nova África, Kumasi Balagoon, rejeitou a legitimidade da corte e proclamou o direito dos negros de se libertarem numa declaração com a qual os pacifistas poderiam aprender muito:

Antes de me converter num revolucionário clandestino, era um tenant organizer, e fui preso por ameaçar o superintendente de um prédio colonial de 270 hectares com um facão, que tinha fisicamente impedido a entrega de azeite a um prédio em que eu não morava, mas que ajudava. Sendo um organizador do Community Council on Housing, participei não apenas na organização de greves de pagamento do aluguel, mas também pressionando os superintendentes dos bairros baixos para fazerem reparações e manterem a calefação e água quente, matando os ratos, representando os inquilinos nos júris, impedindo despejos ilegais, confrontando os City Marshals, ajudando a converter aluguéis em obras de melhorias e propriedades coletivas formadas pelos inquilinos, e me manifestando sempre que as necessidades dos inquilinos estavam em jogo […] Logo comecei a perceber que com todos estes esforços, nós não poderíamos reduzir o problema […]Os rituais legais não têm efeito algum em processos históricos de luta armada das nações oprimidas. A guerra continuará e se intensificará, e, quanto a mim, prefiro estar na cadeia ou morto, que fazer qualquer outra coisa que não lutar contra os opressores de minha gente. A New Afrikan Nation [Nação da Nova África], assim como a Native Americans Nation [Nação de Americanos Nativos] estão colonizadas nos presentes limites dos Estados Unidos, assim como as nações porto-riquenhas e mexicanas estão colonizadas, bem como todo o exterior dos Estados Unidos. Temos o direto de resistir, expropriar o dinheiro e as armas, matar os inimigos de nosso povo, atentar contra eles e fazer qualquer outra coisa que ajude-nos a ganhar, e ganharemos[7].

Em comparação, a análise estratégica e tática do ativismo não violento é algo mais simplista, e estranhamente vai além da regurgitação de seus mais que usados clichês e de suas lapalissadas moralistas. A quantidade de estudos e preparação que exige realizar com sucesso ações militantes, em relação à quantidade exigida para as ações não violentas, também contradiz a percepção de que o ativismo revolucionário é impulsivo.

Pessoas dispostas a reconhecer a violência da revolução — é um erro falar em escolha da violência, porque ela é inerente a toda revolução social e ao opressivo status quo que a precede, independente de usarmos ou não a violência — são mais propensas a compreender os sacrifícios envolvidos. Qualquer conhecimento sobre o que os revolucionários preparam e passam por, demonstra a cruel e ignorante alegação pacifista de que a violência revolucionária é impulsiva. Como já disse, os escritos de Frantz Fanon estavam entre os mais influentes para os revolucionários negros nos Estados Unidos, durante o movimento pela libertação negra. O último capítulo de seu livro The Wretched of the Herat lida inteiramente com “guerra colonial e desordens mentais”, com o trauma psicológico sofrido como um problema no percurso do tempo que vai desde o colonialismo até a “guerra total” declarada pela França, contra os defensores da liberdade na Argélia[8] (uma guerra, devo assinalar, que tornou-se uma parte ampla dos textos de livros usados pelos Estados Unidos nas guerras contrainsurgentes e de ocupação dos momentos presentes). As pessoas que lutam pela revolução sabem onde estão se metendo, na medida em que pode-se conhecer o alcance deste tipo de horrores. Mas os pacifistas o sabem?

Uma nova ilusão (expressada por aqueles pacifistas que querem aparentar força e militância) é que os pacifistas apenas defendem-se de forma não violenta. Isso é lixo. Sentar-se e cruzar os braços não é lutar, é uma recapitulação recalcitrante[9]. Numa situação que implique intimidação ou um aparelho de poder centralizado, lutar fisicamente desencoraja futuros ataques, porque faz aumentar os custos da opressão realizada pelo opressor. A dócil resistência não violenta apenas faz com que os ataques tenham continuidade mais facilmente. No próximo protesto, por exemplo, veja como a polícia é relutante em cercar grupos militantes como o Black Bloc e submeter-lhes em grande número à prisão[10]. Os policiais saberão que necessitam de um ou dois deles para cada um dos participantes e que alguns terminarão gravemente feridos. Os grupos pacíficos, pelo contrário, poderão ser bloqueados por um número relativamente pequeno de policiais, que poderão então irromper com tranquilidade na multidão para sua satisfação, e carregar os moles protestantes um a um.

A Palestina é outro exemplo. Não há duvida de que os palestinos são um inconveniente para o Estado de Israel, e que o Estado de Israel não se importa com o bem-estar dos palestinos. Se os palestinos não tivessem feito da ocupação israelita e cada agressão posterior algo tão custoso, toda a terra palestina estaria ocupada, exceto por umas poucas reservas de trabalhadores excedentes necessários para suprir a economia israelense, e os palestinos seriam já uma lembrança afastada na longa sucessão de povos extintos. A resistência palestina, incluindo as bombas suicidas, tem ajudado a assegurar a sobrevivência da Palestina diante de um inimigo muito mais poderoso.

A não violência se ilude e cobre suas costas com a crença de que “a sociedade sempre tem sido violenta. O que é revolucionário é a não violência”[11]. Na prática, nossa sociedade honra e celebra a dissidência pacífica respeitável que concorda com a violência do Estado. Os ativistas que gritam que nossa sociedade já está a favor da violência podem escutar o nome de Leon Czolgosz (o anarquista que assassinou o presidente Mckinley) no jornal corporativo local e saber que a audiência majoritária condenará esse personagem violento. Entretanto, o mesmo ativista referenciará pacifistas como King ou Gandhi para dar às suas crença uma aura de respeito aos olhos do público majoritário[12]. Se a sociedade já está a favor da violência em todos os níveis, e o pacifismo é suficientemente revolucionário para fundamentalmente desafiar nossa sociedade e suas ingratas opressões, por que Czolgosz ganhou o ódio da sociedade, enquanto Gandhi mereceu sua aprovação?

O pacifismo também abriga possibilidades sobre a defesa do Estado e, inconscientemente, sobre o grau de proteção que seus privilégios concedem a quem o sustenta. Outro exemplo é o dos estudantes que dirigiam a ocupação da Praça de Tiananmen no “Beijin Autônomo” pensando que seu “governo revolucionário” não abriria fogo contra eles se permanecessem numa oposição pacífica e fiel. “A quase absoluta falta de conhecimento da natureza da legitimidade do poder burocrático e o sonho de que o partido poderia negociar com eles, deixou os estudantes sem defesa em termos dos meios teóricos para descrever seu empreendimento e em relação à adoção daquela prática limitada da desobediência civil”[13]. Deste modo, quando os estudantes que estavam no controle rejeitaram pegar em armas (diferente de muitos da classe trabalhadora dos subúrbios, que estavam menos “educados”, mas eram mais inteligentes), o movimento todo estava vulnerável, e o Beijing Autônomo foi esmagado pelos ataques do Exército de Liberação do Povo. Os estudantes de Kent State sofrerem uma sorte similar, ainda quando o mesmo governo que assassinava muitos deles massacrava milhões de pessoas na Indochina sem vacilar e sem que isso tivesse consequências maiores.

Por fim, acontece que a não violência tem uma mínima profundidade intelectual. O pacifismo existe num preguiçoso, amplo, intencionado e não analítico termo — violência — compreendido em termos de precisão científica. Depois de tudo, não ser racista, nem sexista, nem homofóbico, nem autoritário, e sim ser violento, deve ser o eixo crítico das nossas ações. Por que teríamos que prometer ser antirracistas numa marcha de protesto, ou participar de um movimento que se supõe respeitoso com as mulheres, os travestis e os trans, quando podemos fazer promessas menos vinculantes, como a de ser menos violentos? A probabilidade mínima de que a maioria de simpatizantes dos códigos da não violência tenha se perguntado isso alguma vez só demonstra as limitações do pensamento pacifista. Assim, os pacifistas ignoram as verdadeiras divisões, como seria o privilégio branco, e, no lugar, fazem diferenciações sem fundamentos e potencialmente racistas/classistas/patriarcais entre a destruição de uma fechadura durante uma manifestação de modo que os manifestantes possam entrar numa base militar e fazer uma “sentada”, e quebrar uma janela sob a proteção de um distúrbio para que um habitante de um gueto possa pegar comida e dinheiro para a sua família. De modo significativo, e não de casualidade, os pacifistas não fazem uma diferenciação crítica entre a violência estrutural, institucional, e sistematicamente legal e pessoal do Estado (compreendendo o Estado num sentido amplo, que inclui suas funções econômicas e patriarcais), e a violência social individualizada de qualquer tipo de “criminal”, ou a violência social coletiva de qualquer tipo de grupo “revolucionário”, que esteja contribuindo com a destruição da grande violência do Estado. Fingir que toda violência é a mesma é conveniente demais para as pessoas privilegiadas, supostamente antiviolentas, que são beneficiadas pela violência do Estado e que têm muito a perder diante a violência da revolução.

Espiar uma base militar, pondo em jogo sua vida, e destruir mísseis, têm nos contado que é não violento, mas fazer voar a planta de Litton Systems (onde são fabricados os mísseis cruzeiro) seria violento ainda se ninguém fosse ferido. Esta diferenciação ignora dois fatos: que aquilo que é considerado ameaçador está determinado, amplamente, por preconceitos existentes contra raças e classes, e, para a maioria da população mundial norte-americana, um míssil que não funciona é muito menos ameaçador que um que funciona, não importa quantas bombas tenham tido que explodir, no hemisfério norte, para alcançar este fim. Com certeza, não há dúvida de que um atentado possa contribuir na destruição de mísseis de um jeito mais efetivo que destruí-los um a um com um martelo. O segundo argumento, como tenho assinalado, ignora a sorte das vítimas por fora das fronteiras norte-americanas. Uma bomba assegura que uma fábrica não será capaz de fabricar mísseis melhor do que faz um martelo, e os mísseis em posse dos Estados imperialistas matam muito mais pessoas que as bombas (ou martelos) que possam estar na posse dos grupos de guerrilha urbana. Mas esta consideração está tão afastada das mentes dos pacifistas como das freiras que bateram nos mísseis com martelos no exemplo que dei. Elas basearam uma boa parte de seu processo de defesa no argumento de que não causaram nenhum dano real, apenas um dano simbólico, nas instalações de mísseis onde infiltraram-se[14]. Elas podem ainda ser consideradas realmente “revolucionárias pacifistas”, depois de ter malgastado, deliberadamente, uma oportunidade para confiscar instrumentos principais de guerra?

Em uma oficina que dei sobre as falhas da não violência, conduzi um exercício que demonstrava quão vaga a ideia de violência de fato é. Pedi aos participantes, que incluía apoiadores da não violência e apoiadores da diversidade de táticas, que se levantassem e, enquanto vagarosamente lia a lista de várias ações, que andassem até um ponto se eles considerassem a ação violenta, e até outro, se considerassem a ação não violenta. As ações incluíam coisas como comprar roupas feitas em “lojas de suadouro”[15], comer carne, um lobo matar um veado, matar alguém que está prestes a detonar uma bomba em uma multidão etc. Quase nunca houve o perfeito consenso entre os participantes, e várias ações que eles consideraram violentas, também consideraram moral, enquanto alguns ainda consideraram certas atitudes não violentas imorais. A conclusão do exercício: faz mesmo sentido basear tanto nossa estratégia, nossas alianças, e nosso envolvimento no ativismo em um conceito que é tão confuso que duas pessoas não podem concordar no que significa?

Os esforços para definir realmente a violência são dirigidos para dois resultados. Se o que chamamos violência é definido como algo que provoca medo e dor, e não pode ser considerado como algo imoral porque inclui atividades naturais, como o parto ou comer outros seres vivos para sobreviver, ou se é definida como uma preocupação ética sobre os resultados, e, neste caso, a não ação ou a passividade diante de uma violência maior também deverá ser considerada como um exercício de violência[16]. Ambas definições excluem a não violência, a primeira porque a violência é inevitável e normal, e a segunda porque a não violência deve ser considerada violenta se fracassar no seu tento de terminar com o sistema de violência, e também porque todas as pessoas privilegiadas devem ser consideradas cúmplices da não violência, considerem-se ou não pacifistas. Mas os pacifistas, eles mesmos enganam-se, ao pensar que a violência está bastante definida a ponto de o seu uso implicar em certas e inevitáveis consequências psicológicas ou em um perfil psicológico concreto.

Todd Allin Mormam, no seu escrito Social Anarchism, extrai de Erich Fromm a metódica diferenciação entre “autoridade racional” e “autoridade irracional”. Mormam afirma que o “anarquismo é contra todas as formas de autoridade irracional e a favor da autoridade racional no seu lugar”[17]. A autoridade racional está baseada em um poder acima das pessoas, enquanto que a autoridade irracional é definida como uma influência voluntariamente concedida baseada na experiência e na competência. “É impossível promover a violência para movimentar uma ordem anarquista superior porque a violência reproduz, necessariamente, atitudes psicológicas que são antiéticas para os fins da revolução anarquista”. De um jeito bastante típico, argumenta que deveríamos ir até uma revolução pacífica, porque, do contrário, apenas “reproduziremos o Estado em uma forma nova”. Mas, por que é possível deixar de sermos violentos agora, antes da revolução, mas não depois dela? Por que têm nos contado que nos converteríamos em ineficazes e inevitavelmente autoritários depois de uma revolução violenta, ainda quando é evidente que é necessário, precisamente, romper com os padrões psicológicos da nossa sociedade violenta para levar adiante uma luta militante? Não sabemos como Morman pode ver as pessoas como entes absolutamente determinados no final da frase, enquanto afirma sua existência como agentes livres no início da mesma sentença. Suspeito que isso acontece pois os acadêmicos como Morman têm medo do que aconteceria no caso de uma revolução militante; assim, eles preferem reafirmar sua “autoridade racional” e fingir que estão contribuindo em um processo que de algum jeito voltará obsoleto ao Estado. Com certeza, nossa principal contribuição teórica como anarquistas é a ideia de que o Estado resulta obsoleto desde o começo, mas ainda assim abriga e atesoura poder. O silogismo de Fromm, ou ao menos a interpretação posterior de Morman, esquece a questão de que, embora a “autoridade irracional” seja irrelevante e não tenha sentido, é poderosa.

Acho que seria muito mais fácil terminar com os padrões psicológicos da violência e da dominação, depois de ter destruído as instituições sociais, instituições e organismos políticos e estruturas econômicas especificamente constituídas para perpetuar a dominação coerciva. Mas os partidários da não violência, audaciosamente, estão clamando por uma prorrogação, quando declaram que devemos tratar os sintomas antes, enquanto a doença é livre para se estender, se defender e ganhar adeptos. Morman diz: “a violência apenas é capaz de atacar as manifestações físicas das relações sociais que perpetuam o Estado. Alguém não pode matar estas relações através de agressões físicas”[18]. Deixando de lado o fato que este ponto de vista é flagrantemente falso em relação às culturas indígenas que lutam contra estrangeiros invasores e imperialistas (neste caso, matar ou expulsar o colonizador é, de fato, matar o colonialismo, se isto fosse possível antes da ocidentalização), vamos aceitar a visão eurocêntrica de Morman e seu foco nas sociedades nas quais opressor e oprimido pertencem à mesma nação ou cultura. Ele estabeleceu justamente que a violência pode destruir as manifestações físicas, mas não as psicológicas da opressão. Qualquer pessoa razoável sabe que uma luta revolucionária contém atividades destrutivas e também criativas; a violência contra os opressores e sua maquinaria vive junto a um cuidado e uma preocupação clara com a comunidade. Morman e os milhares de pacifistas que pensam como ele, em vez de perceber isso, continuam declarando que deveríamos nos focar na libertação psicológica, enquanto evitamos a luta física. De repente, pensam que as relações sociais de opressão são independentes em sua estrutura e que são elas que criam as estruturas físicas de opressão, mas isso seria absolutamente absurdo. As relações sociais e as estruturas físicas não podem ser separadas completamente (na verdade, um pouco como na filosofia, estes termos são apenas recursos de análise que tornam mais fácil falar dos diferentes aspectos de um mesmo fenômeno), e elas claramente evoluem em conjunto. As estruturas físicas e as relações sociais estão em uma relação de mútua dependência e são retroalimentadas.

Morman se apega à ideia totalitária de revolução. “O revolucionário é promover um conjunto de novas relações sociais e destruir as antigas, não pelo ensino, por exemplo, ou através de um argumento bem fundamentado, mas pelo poder, pelo medo e pela intimidação: os apoios da autoridade irracional”[19]. Este argumento sugere que a revolução não pacifista deve ser contra as pessoas que estão desviadas filosoficamente ou são politicamente incorretas — as pessoas que acreditam nas coisas erradas (assim é como um partido político vê a revolução). Mas existe mais de um caminho para a luta pela libertação. Pode ser cultural, para lutar pela expulsão de um estrangeiro colonizador e os partidos políticos burgueses que têm adotado as características desse colonizador (assim como escreve Fanon); ou pode ser estrutural, para a destruição de estruturas do poder centralizado e instituições hierárquicas sem ter, na realidade, alguém como objetivo, além daqueles que escolhem lutar do lado do poder. Depois de uma revolução que destrua todas as estruturas do capitalismo — se apoderando de todas as fábricas, redistribuindo as terras, queimando o dinheiro todo –, a pessoa que filosoficamente é capitalista deve ser perseguida e intimidada através da “autoridade irracional”. Não tendo um aparelho militar para implementar o capitalismo ou um aparelho policial que o proteja, eles — como pessoas — ficam bastante indefensos, e, ou aprendem a fazer algo criativo com as suas vidas, ou morrerão de fome sem terem compreendido que já não podem pagar a alguém para que se faça de seus escravos. A típica construção pacifista-anarquista de Morman evidencia uma visão política eurocêntrica da revolução, em que um partido político se pendura no poder e reforça sua visão de liberdade para todo o resto da sociedade através de um aparelho centralizado. De fato, é a própria sociedade — assim como funciona hoje em dia, como uma união artificial de pessoas sem interesse algum por trabalhar conjuntamente, que não seja de forma forçada — que deve ser destruída. Um movimento revolucionário militante pode destruir o centro de gravidade de um governo que mantém políticas de massas unitárias em um só Estado-nação. Depois deste ponto, já não precisaremos de alguma ideologia racional e bem racionada para unir alguém, porque as sociedades serão divididas em unidades orgânicas menores. Os revolucionários não terão que usar a violência para convencer ao mundo todo que se comporte de um determinado jeito, porque não haverá, no país todo, necessidade alguma de se submeter.

O raciocínio de Morman se baseia também nas ideias da cultura ocidental, que não conseguem apreciar razão alguma para a violência que não seja a serviço da dominação. Estas ideias têm muito a ver com o totalitarismo inerente à cultura ocidental (coisa que é evidente também nas inclinações estadistas do pacifismo, privilegiando a violência do Estado, enquanto, ativamente, submete-se ao ostracismo a violência da rebelião). A ideia de que o uso da violência “constitui automaticamente uma autoridade irracional”, não tem sentido a partir da perspectiva dos valores culturais que não pintam necessariamente a violência como uma ferramenta a serviço da dominação. Segundo o Mande, Mangala, o criador, matou Farrow como um sacrifício para salvar o futuro da criação. Pelo contrário, na mitologia grega, Cronos tentou matar seu filho, e, mais tarde, Zeus devorou sua amante, Metis, para manter ambos em seu poder. Esta dinâmica é um padrão que atravessa as mitologias do Ocidente. O uso da violência é calculado para ganhar poder e controle imposto, ou exaltado, que, no caso, a motivação está sempre muito perto dos ciúmes nascidos do desejo de possuir outro ser vivo. Esses padrões não são universais para todas as culturas.

Também não são universais em todas as situações. A violência coletiva e coordenada para estabelecer e reforçar um conjunto de novas relações sociais que devem ser preservadas através da violência, ou uma revolução feita através da tomada de posse das instituições centralizadas, constitui a criação ou preservação de uma autoridade coercitiva. Mas estas não são as duas únicas opções para a mudança social. Já vimos como Frantz Fanon descreve a violência como uma “força de limpeza” quando é usada pelas pessoas que sofrem a desumanização produzida pela colonização para libertar-se. (E as dinâmicas do colonialismo aplicam-se hoje em dia aos povos indígenas, para colonizar-lhes completamente, desde o Havaí até Samoa, e para ocupar zonas que vão desde o Kurdistão até o Iraque, enquanto dinâmicas similares são aplicadas nas populações das neocolônias da África, Ásia e América Latina, e para as “colônias internas” que descendem das populações escravas dos Estados Unidos. Resumindo, estas dinâmicas ainda são aplicadas a centenas de milhares de pessoas e não estão, em absoluto, obsoletas.) Fanon ajudou ao FLN (Frente de Libertação Nacional) na Argélia e trabalhou num hospital psiquiátrico, especializado na psicologia dos colonizadores e nos efeitos psicológicos das suas lutas pela libertação. Em outras palavras, ele está, de algum jeito, melhor posicionado que Erich Fromm para avaliar a psicologia da violência na busca da libertação a partir da perspectiva da maioria dos povos do mundo — não apenas desde a experiência de um partido político educado na procura ou no desejo de refazer o mundo na sua imagem, mas desde a experiência das pessoas subjugadas por um sistema que é tão violento que não pode contra-atacar nem deslocar esta violência sociopática contra outro objetivo. Falando sobre a colonização e a resistência a esta, Fanom escreve, “é sabido por todos que a maioria das agitações sociais diminui a frequência da delinquência e das desordens mentais”[20]

Para acrescentar no que já está se convertendo numa longa lista de enganos, devo dizer que a não violência engana-nos ao repetir que os meios determinarão os fins. Embora nunca antes tenha acontecido uma transformação nas condições finais, foram fundamentalmente diferentes dos meios pelos quais foram produzidas. Depois da guerra de Red Colud, em 1886, por exemplo, os Lakota não caíram numa orgia de violência porque cometeram transgressões morais e psicológicas quando mataram soldados brancos. Pelo contrário, desfrutaram de quase uma década de paz relativa e de autonomia, até que Custer invadiu os Black Hills para procurar ouro[21]. Mas ao invés de ajustar os meios (nossas táticas) à situação a qual enfrentamos, imaginamos que temos que realizar as nossas decisões baseando-nos em condições que nem sequer estão presentes, atuando como se a revolução já tivesse acontecido e como se já vivêssemos em um mundo melhor[22]. Esta negação sistemática das estratégias esquece que nem sequer os louvados títeres da não violência, Gandhi e King, acreditavam que o pacifismo era uma panaceia universalmente aplicável. Martin Luther King Jr. concordava com a ideia de que aqueles que fazem impossível a revolução pacífica, apenas fazem inevitável a revolução violenta[23]. Devido à crescente consolidação da mídia (presumida ferramenta dos ativistas não violentos[24]), e à crescente repressão dos poderes do governo, podemos realmente acreditar que um movimento pacifista poderá realmente superar o governo na hora de comprometer seus interesses?

Para terminar com a lista de enganos comuns, a mais frequente das pretensões é que a violência aliena as pessoas. Isso é abertamente falso. Os videogames violentos e os filmes violentos são os mais populares. Mesmo guerras descaradamente falsas ganham o apoio de pelo menos metade da população, com frequência com o comentário que o exército americano é humano demais e contido com seus inimigos. Por outro lado, as vigílias pacifistas, com sua profissão de velinhas, são alienadas para a maioria das pessoas que não participam, e também para as que o fazem. Votar é alienador para milhões de pessoas que sabem fazer algo mais que participar, e também para as pessoas que participam por falta de melhores opções. Mostrar um suposto “amor” pelo “inimigo” é alienador para as pessoas que sabem que o amor é algo mais profundo, mais íntimo que um superficial rosto sorrindo e que é fornecido para seis bilhões de estranhos simultaneamente[25]. O pacifismo é também alienador para milhões de americanos de classe baixa que fazem um brinde em silêncio cada vez que um policial ou um agente federal é assassinado[26]. A verdadeira pergunta é: quem está alienado pela violência, e por qual tipo de violência? Um anarquista escreveu a respeito:

Ainda se estiverem, quem se importa se as classes médias e altas estão alienadas pela violência? Já tiveram sua revolução violenta e estão vivendo nela justo agora. Além disso, a ideia de que as classes médias e altas estão alienadas pela violência é completamente falsa […] Apoiam a violência, sempre, seja para quebrar greves, em brutalidade policial, nas prisões, nas guerras, nas condenações ou na pena de morte. A quem eles realmente se opõem é à violência dirigida a expulsá-los [do poder] e [eliminar] seus privilégios[27].

A perigosa violência que submete as pessoas a riscos não necessários, sem nem sequer se esforçar em ser efetiva ou um sucesso, será mais capacitada para alienar as pessoas — especialmente aqueles que ainda têm que sobreviver sob violência da opressão. Ainda assim, lutar por sobreviver e pela liberdade, com frequência, ganha simpatias. Recentemente, fui afortunado suficientemente por manter correspondência com um preso do Black Liberation Army, Joseph Bowen, que foi condenado depois que um policial tentou assassiná-lo. “Joe-Joe” ganhou o respeito dos outros presos após ele e outro preso assassinarem o diretor e o subdiretor e machucarem o chefe dos guardas na prisão de Holmesburg na Filadélfia em 1973, em resposta a uma intensa repressão e a perseguição religiosa. Em 1981, quando uma tentativa de fuga massiva, que ele ajudou a organizar na prisão de Graterford, foi frustrada e transformou-se em uma situação com reféns, boa parte da atenção da mídia centrou-se nas horríveis condições das prisões da Pensilvânia. Durante os cinco dias em que a situação foi mantida, dezenas de artigos saíram no Philadelfia Inquirite e a imprensa internacional colocou mais fogo nas motivações dos presos e sublinhou o fato de que estas pessoas, que não tinham nada a perder, continuariam lutando contra a repressão e as más condições. Alguns artigos dos meios de comunicação comerciais mostraram-se até simpáticos com Joe-Joe[28], e, no final, o governo cedeu em transferir uma dezena de rebeldes para outra prisão; ao invés de crivar-lhes de balas, preferiram a tática. Na verdade, depois do cerco, Bowem incomodou tanto certas esferas do poder político, que conseguiu com que os políticos estivessem na defensiva, ao ponto de convocarem uma pesquisa sobre as condições da prisão de Graterford. Neste e em muitos outros exemplos, incluindo os Zapatistas, em 1994, e os mineiros Apalaches, em 1921, vemos que as pessoas humanizam-se, precisamente, quando as armas são tomadas para lutar contra a opressão.

Desde que saiu a primeira edição deste livro[29], aproximaram-se muitas pessoas que não eram ativistas para me contar o muito que tinham apreciado os sentimentos que os tinha acordado. Enquanto os ativistas afirmariam que essas pessoas permanecem apáticas frente aos movimentos sociais normais, porque nunca participam em nenhum deles, contaram para mim, uma e outra vez, como desejavam se envolver, mas não sabiam como fazê-lo, porque os únicos esforços de organização que têm visto tem sido protestos pacifistas, mas que não se sentiam inclusos, e que, obviamente, não realizariam coisa alguma. Um homem da classe trabalhadora contou-me como, sob a invasão estadunidense do Iraque, subiu em seu carro e dirigiu durante duas horas até Washington D.C. para formar parte do protesto, sabendo que ninguém o incluiria. Quando chegou e viu que a multidão pacífica era dirigida como um rebanho pela polícia, deu a volta e retornou para casa.

O frequente papel dos ativistas não violentos de controlar e sabotar os movimentos sociais revolucionários, assim como os seus fracassos na hora de proteger os ativistas revolucionários da repressão do Estado e suas “ênfases” nas vitórias de seu movimento sugerem um motivo subsequente para o ativismo não violento. Parece-me que o motivo mais comum é para os pacifistas se aproveitarem da sua suposta superioridade moral e se aliviarem da substancial culpa que sofrem ao reconhecerem muitos dos sistemas de opressão que ocupam. Ward Churchill sugere que os pacifistas brancos buscam se proteger da repressão, consagrando seu ativismo em posturas e formulações da organização social de um mundo pós-revolucionário, enquanto as pessoas negras do mundo todo sofrem todas as fatalidades lutando por esse mesmo mundo[30]. Isso está muito distante de se corresponder com o papel solidário que os pacifistas brancos acreditam estar cumprindo.

O ativismo não violento, que tem como objetivo a Escola das Américas (School of the Americas, SOA), é um bom exemplo. Organizar-se contra a SOA inclui uma das campanhas mais longas de desobediência civil acontecidas na recente história, por ter atraído a maior participação e apoio de líderes pacifistas. Durante minha implicação com o ativismo anti-SOA, concebi a desobediência civil e sentença prisional como um meio de demostrar a absurda e autoritária natureza do processo democrático, e para fomentar a escalada até um verdadeiro movimento revolucionário, que tivesse como objetivo os aspetos todos, do capitalismo e imperialismo, e não apenas a SOA. Que ridícula seria a campanha pelo fechamento de só uma escola militar, quando muitas outras instituições, incluindo a estrutura toda do Estado, trabalham com os mesmos fins? Mas, antes de finalizar a minha sentença prisional, percebi que para a grande maioria do “movimento” anti-SOA, a desobediência civil era um fim em si mesmo, usado para ganhar influência como lobby no Congresso e para recrutar novos participantes, e para aliviar a culpa proveniente de sua posição privilegiada e alcançar o dever moral que lhes permita tomar a palavra para palestrar aos demais. Permitiu-lhes que, por terem conseguido uma condenação leve de seis meses ou menos, se autoproclamassem “testemunhas vivas” e “se levantassem em solidariedade com os oprimidos” da América Latina[31].

Por toda a sua safadeza, a não violência é decrépita. A teoria não violenta é resumida em um amplo número de manipulações, falsificações e enganos. A prática não violenta é ineficaz e não deve ser considerada. Em um sentido revolucionário, a não violência não só não tem funcionado, assim como nunca existiu. Dirigir um carro, comer carne, comer tofu, pagar o aluguel, pagar os impostos, ser amável com um policial — todas estas atividades são violentas[32]. O sistema global e todos os que estamos nele somos absorvidos pela violência; é reforçada, coagida e involuntária. Para aqueles que sofrem a violência do colonialismo, da ocupação militar ou da opressão racial, a não violência não é sempre uma opção — as pessoas devem também se defender da violência de seus opressores, ou deslocar essa violência até uma violência antissocial de uns contra os outros. Frantz Fanon escreveu:

Aqui, no nível das organizações comunitárias, discernimos claramente os bem conhecidos padrões de caráter da evasão. É como se o fato de mergulhar num banho de sangue com seus irmãos, permitira-lhes ignorar o obstáculo, e adiar a decisão, inevitável de modo qualquer, que abre a questão sobre a resistência armada contra o colonialismo. Portanto, autodestruição coletiva, de uma forma concreta, é um dos caminhos através do qual a tensão dos nativos é libertada.[33].

A paz não será uma opção até que a violência centralizada e organizada que é o Estado seja destruída. Uma exclusiva dependência na hora de construir alternativas — para nos manter, fazer com que o Estado fique obsoleto, e trabalhar o tema da violência para prevenir uma possível autodestruição -, também não é uma opção, porque o Estado pode esmagar toda alternativa que não possa se defender ela mesma. Se nos é permitido viver a mudança que desejamos ver no mundo, não é necessário tanto para a revolução. As nossas opções têm sido violentamente reduzidas nas seguintes: apoiar ativamente a violência do sistema; apoiar taticamente rejeitando desafiá-la; apoiar qualquer das enérgicas tentativas de destruir o sistema baseado nessa violência; ou perseguir novas e originais formas de lidar e destruir esse sistema. Os ativistas privilegiados devem compreender aquilo que o resto do mundo já sabe faz tempo: estamos em meio a uma guerra, e a neutralidade não é possível[34]. Não há nada neste mundo que possa merecer o nome de “paz”. É mais uma questão que se reduz a de quem é a violência que nos assusta mais, e do lado de quem vamos resistir.

Notas

  1. Michael Negler, The Steps of Nonviolence (New York: the Fellowship of Reconciliation, 1999), Introduction. Tudo o que não seja não violência é retratado como o resultado de “emoções de medo e raiva potencialmente danosas”.
  2. Irwin e Faison, Why Nonviolence?
  3. Ibid.
  4. Tani e Será, False Nationalism, p. 167.
  5. George Jackson, Blood in my Eye (Baltimore: Black Classics Press, 1990).
  6. Abu-Jamal, We Want Freedom, p. 105.
  7. Kuwasi Balagoon, A Soldier´s Story: Writings of a Revolucionary New African Anarchist (Montreal: Solidarity, 2001), p. 28, p. 30, p. 72.
  8. Fanon, The Wretched of the earth, p. 249–251.
  9. “A resistência ativa é quando os ativistas usam a força contra a polícia ou, pró-ativamente, implicam-se numa atividade ilegal como o vandalismo, a sabotagem, ou os danos à propriedade”. Esta frase aparece em Borum e Tilby, Anarquist Direct Actions, p. 211. Os autores, um professor e o outro chefe de formação de policiais, incluem “sentadas” e ações do estilo como resistência passiva.
  10. Refiro-me ao Black Bloc como uma tática militante, não aos blocos de punks vestidos completamente de negro e na moda, e, ao final, atuando pacificamente. O Black Bloc real é cada dia menos comum nos Estados Unidos.
  11. Spruce Houser, Violence/Nonviolence, debate. Houser se autoproclama anarquista e pacifista.
  12. Houser, Domestic Anarchist Movemente Increasingly Espousses Violence, disponível em: <http://athensnews.com/índex.php?action=viewarticle&archives&story_id=17497>. Muito ao estilo pacifista, Hauser enviou seu artigo ao Sthens News na preparação da North American Anarchist Conference, numa intenção de reforçar o pacifismo, fazendo a opinião pública local voltar-se contra os “anarquistas violentos”. Ele, docilmente, protestou contra o fato de que seu artigo tinha se voltado, nas mãos dos meios de comunicação privados, em propaganda contra o movimento anarquista por inteiro, através de uma nota escrita a mão nas muitas fotocópias que repartiu, assinalando que o título original era Anarquismo e violência, mas que o editor o modificou.
  13. Burt Green, “The Meaning of Tiananmen”, Anarchy: A Journal of Desire Armed, n. 58, outono-inverno 2004, p. 44.
  14. Judith Kolher, “Antiwar Nuns Sentenced to 2 ½ Years”, Associated Press, 25 jul. 2003. Não vou julgar ninguém pelo uso de estratégia alguma para se defender num júri que se cria conveniente, mas, neste caso, o argumentos das freiras reflete, sinceramente, o fato de que elas não causaram às instalações de mísseis nenhuma destruição real ou física, quando elas tiveram, sem dúvida, a oportunidade de causar dita destruição.
  15. No original, o autor utiliza o termo sweatshop, que se refere a estabelecimentos que exploram seus empregados.
  16. Uma terceira definição possível pode tentar traçar uma linha, baseada no bom senso, através dos candidatos potenciais para a violência. Se vivermos numa economia política baseada nas necessidades reais, o bom senso reconheceria a necessidade das pessoas defenderem-se. E de libertarem-se da sua opressão; assim, uma ação revolucionária que perseguisse o objetivo de uma sociedade na qual todos e cada um pudessem cobrir as suas necessidades, poderia não ser considerada como violenta. Mas, como vivemos numa sociedade na qual nosso conceito de justiça é baseado no castigo, é sabido que o comportamento das pessoas que se consideram “justas” é impedir a transgressão. O bom senso reconhece o pagamento de impostos (para um Estado imperialista) como uma forma de atuação não violenta, enquanto que pagar a um mercenário é considerado como violento. Contudo, ambas as ações têm resultados similares, porque é mais fácil esperar que as pessoas não realizem a ação sozinhas (o que exigiria tomar a iniciativa) e permitir que a realizem igualmente, só que de um jeito indireto (o que implica apenas em se deixar levar pela correnteza). Numa sociedade deste tipo (por exemplo, a nossa), o pacifismo é realmente passividade, porque não cometer atos violentos tem mais a ver com não nos sentirmos culpados do que com assumir a responsabilidade que nos corresponde.
  17. Todd Allin Morman, “Revolutionary Violence and The Future Anarchist Order”, Social anarchism, n. 38, 2005, p. 30–38.
  18. Ibid., 34.
  19. Ibid., 35.
  20. Fanon, The wretched of The Earth, p. 306.
  21. Churchill e Vander Wall, Agents of Repression, p. 103–106.
  22. Isto é o que o acadêmico anarquista Howard Ehrlich assinala na ideia fundamental de sua intervenção na North Americam Anarchist Convergence, em Atenas, Ohio, 14 ago. 2004.
  23. Citado num vídeo-clipe incluído em Sam Green e Bill Siegel, diretor/produtor, The Weather Underground (The free History Project, 2003). Igualmente ao que acontecia com a flexibilidade do compromisso de Gandhi com a não violência, suas palavras sobre a resistência palestina são também interessantes: “espero que eles tenham escolhido o caminho da não violência para resistir ao que certamente é uma cruzada inaceitável para seus pais. Mas, concordando com os aceitados cânones do que é bom e do que é ruim, nada pode se dizer contra a resistência árabe, apesar de suas grandes vantagens sobre aqueles”. Jews for Justice in the Middle east, The origin of the Palestine-Israel Conflict, 3º de. (Berkeley: Jews for Justice in the Middle east, 2001). Os autores citam Martin Buber e Paul R. Mendes-Flohr, A Land of two Peoples (New York: Oxford University Press, 1983).
  24. Os ativistas não violentos, muitas vezes, confiam nos meios de comunicação para disseminar os seus pensamentos. Já tenho falado de numerosos exemplos disso durante os protestos. Dou mais um exemplo: em 31 de janeiro de 2006, um ativista, num listado de distribuição do suposto grupo radical antiautoritário Food Not Bombs, pendurou um comentário com uma sugestão de uma ação que poderia se realizar durante o discurso de Bush do estado da Nação. A sugestão era que centenas de pessoas escrevessem no Google ao mesmo tempo a frase “Acusamos Bush”, durante seu discurso. Supostamente, os meios de comunicação privados recolheriam a ação e a publicariam, ao invés de fazerem o que normalmente fazem, que é uma análise superficial do bem que Bush apresenta a si mesmo no seu discurso. Não é necessário dizer que não aconteceu nada parecido.
  25. Malcom X dizia o seguinte acerca as noções de Gandhi de amor e fraternidade universal: “Minha fé na fraternidade nunca será para mim uma limitação, de jeito nenhum, na hora de me proteger na nossa sociedade, das pessoas as quais depreciam essa fraternidade e sentem a necessidade de se enforcar com uma corda ao redor de uma árvore”. Perry, Malcom X, The Last Speeches, p. 88.
  26. Por exemplo, os meus conhecidos na prisão mostravam-se bastante conservadores na hora de condenar as ações do assassino em série conhecido como “DC Sniper” [“O franco-atirador de DC”] e ainda desejavam que o acusado fosse condenado à pena de morte. Mas quando um ex-agente do FBI foi adicionado em sua lista de vítimas, todos eles expressaram uma satisfação gigante. [Para mais informação sobre o caso, consultar http://en.wikipedia.org/wiki/John_Allen_Muhammad, N. do T.]
  27. Ashen Ruins, Against The Corpse Machine.
  28. O principal exemplo de Stephen Salisbury e Mark Fineman, “Deep Down at Graterford: Jo-Jo Bowen and ‘The Hole’”, The Philadelfia Inquirer, v. 305, n. 131, 8 nov. 1981, A1. Os seis primeiros parágrafos do artigo são sobre Joseph Bowen e sua experiência em “Hole”, incluindo numerosos apontamentos de Bowen e personalizando descrições que o caracterizaram assim como ele falava — o leitor é, de algum jeito, levado à prisão junto a ele. O oitavo parágrafo começa “mas Joseph Bowen também forçou aqueles negociadores — e de algum modo ao mundo todo na rua — para ver mais de um assassinato triplo, com um poder recém descoberto. Através do negociador Chuck Stone, e a mídia, que contou cada matiz dos seis dias seguintes, Bowem forçou também ao mundo exterior a confrontar realidades de outro mundo — um mundo de instituições que ele e milhões de presos na Pensilvânia percebem como opressivo e racista, roubando das pessoas não apenas sua dignidade, e sim sua vida”.
  29. Aqui, o autor se refere à primeira edição dos Estados Unidos, que ele mesmo autoeditou. [N. do T.].
  30. Churchill, Pacifism as Patology, p. 70–75.
  31. Para confirmar a prevalência desta mentalidade entre os pacifistas anti-SOA e para ouvir estas absurdas reclamações já repetidas demais, deve-se perceber a “yearly vigil outside” Fort Benning sede do SOA.
  32. Comer carne e pagar os impostos talvez seja explicado por si mesmo. Procurar na produção do alumínio (e na concomitante construção de hidroelétricas), nas condições das fábricas automobilísticas, na poluição do ar pelas máquinas de combustão internas, no nível de fatalidades ocorridas como algo natural, para uma cultura que adora os carros, e o jeito em que as nações industrializadas procuram o petróleo, revelam porque dirigir um carro é algo violento, o suficiente para não se levar a sério um pacifista que dirige um carro. Comer tofu, na economia geral, é integralmente conexo com o fato de ter mão de obra migrante, modificações genéticas da soja e destruição de ecossistemas e culturas alimentares, assim como a capacidade dos Estados Unidos de minar as agriculturas de subsistência ao longo do mundo, a globalização do petróleo com a ameaça e a realidade da fome. Pagar rendas de apoio aos proprietários que colocarão na rua uma família que não pode fazer os pagamentos a tempo, que invertem o desenvolvimento ecocida e a expansão urbana, que ajudam no aburguesamento das cidades, que apoiam a violência contra os moradores de rua, os negros, as famílias de baixa renda; ser gentil com um policial contribui com a masoquista cultura que leva aos agentes da lei a bater e assassinar as pessoas com total impunidade. É uma chamativa peculiaridade da história que permite à polícia gozar de um apoio popular geral, e se reconhecer como herói, quando antes era costume vê-la como escória e lacaia da classe dominante.
  33. Fanon, The wretched of the earth, p. 54.
  34. Art Burton, We are at war… (keynote address, People United, Sfton, VA, 19 jul. 2004). Burton foi membro da Richmond NAACP. Os Zapatistas descrevem a ordem atual do mundo como a Quarta Guerra Mundial, e este sentimento tem feito eco ao redor do mundo.

Biografia do Autor na Wikipedia

E da School of the Americas

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