Ideais versus Ideologias (Parte 2)

Uma critica aos interesses por trás do cientivismo

Na questão das experiências de renda básica sou, portanto um desertor de classe. Não estou mais do lado dos sujeitos donos ou observadores dos objetos de estudo e trabalho, mas do lado dos seres objetivados, segregado e coisificados pela negação do igual direito de sujeito do seu próprio mundo, conhecimento e destino. Minha perspectiva não é mais a só de um realizador de programas e estudos sociais, mas da pessoa humana que jamais poderia estar reduzida a nosso objeto de estudo, emprego e tutela assistencial ou governamental.
Falo, portanto da perspectiva das pessoas que merecem igualmente serem como nós sujeitos econômicos, políticos e culturais do seu próprio mundo. Merecem se apropriarem de seus destinos, identidades e concepções, inclusive como produtoras do conhecimento gerado por sua experiência de vida que não pode ser jamais confundido ou apropriado como experimentação com suas vidas. Defendo, portanto que as pessoas devam ter o controle dos recursos econômicos e políticos para serem sujeitos iguais em direitos civis plenos. Que tenha sua autodeterminação garantida dentro das políticas públicas como protagonistas e não como meros participantes ou beneficiários.
Para mim falar da renda básica e sua universalidade sem abordar inclusive epistemologicamente os direitos econômicos e políticos não é apenas produzir estudos pobres sobre a pobreza, mas reproduzir a pobreza pela manutenção dos dogmas alienadores de direitos fundamentais dos povos e pessoas livres. Se a renda básica não é recurso capaz de restituir e reintegrar os direitos a vida, liberdade e identidade dentro de uma verdadeira democracia como um mesmo direito civil inalienável, ela é só mais programa social e não um direito constitucional garantido de fato.
Um benefício que não só corre o risco de ser subtraído, mas ser instrumentalizado por regimes populistas, autoritários, e até mesmo totalitários. Ou alguém acha mesmo que se um governo como o da Coréia do Norte implementasse uma renda básica incondicional, não haveria mesmo nenhuma condicionalidade implícita exigida perante as autoridades?
A transição dos experimentos da fase utópica da Renda Básica representados por comunidades como Quatinga Velho e Otjiviero Omitara, para a fase científica é importantíssima e deve não só ser efetuado, mas apoiada por toda a sociedade, mas não sem os próprios cidadãos interessados protagonizando estas iniciativas. Porque dos controles sociais é a democracia direita, o controle de fato de pessoa livre a forma mais segura de garantir que tais experiências sejam legítimas, ou seja, estejam de fato dirigidas para responder aos seus anseios, os interesses dos povos e sociedades e não dos governos e mercados.
Sinto muito, mas as pessoas naturais, aquelas que não representam interesses governamentais ou corporativos, não estão à espera de nenhuma prova empírica se a renda básica é ou não boa para sua vida, eles precisam e esperam apenas que se efetive o acesso incondicional ao mínimo vital. Aliás, não é só pressuposto autoevidente a necessidade dos meios vitais e ambientais e portanto o benefício da sua garantia aos carentes, mas é pressuposição teórica fundamental a própria definição da renda básica e estado de paz a necessidade de garantia mútuas dos mínimos vitais.
A pergunta que nós como pessoas comuns e iguais devemos fazer é a que anseios e receios as experiências da renda básica pretendem responder: o dos déficits públicos ou das necessidades incontestáveis dos vulneráveis? Precisamos entender que querendo ou não, as dúvidas que ensejam nossos estudos estão permeadas e de preceitos e pressuposições culturais, e muitas vezes dizem mais sobre nossos dogmas e mitos contemporâneos do que propriamente sobre politicas sociais e os comportamentos dos usuários.
Precisamos mais do que gente disposta a verificar se a renda básica é ou não uma proposta razoável, dúvida que não é razoável a menos que não se considere mortes evitáveis um crime de omissão dos responsáveis. Precisamos sim de experimentos que sejam estudados imparcialmente, mas que não estejam mais encerrados no velho arcabouço dos paradigmas científicos do século retrasado, nos quais os estudos não conseguiam se enxergar como forças constituintes do próprio projeto enquanto instrumentos pedagógico, psicológico e cultural, capazes tanto de influenciar a aferição dos seus próprios resultados e conclusões, mas a trajetória e portanto sucesso e fracasso da própria experiência, especialmente se pensada como processo de constituição de novas tecnologias sociais.
Precisamos de gente disposta não só a discutir se é preciso ou é possível voar ou não, precisamos de gente disposta a construir modelos que voem de fato, modelos exequíveis e sustentáveis de renda básica incondicional seguros e capazes de se sustentar. Precisamos de mais gente disposta a construir a tecnologia social necessária e não só gente preocupada em prova ou comprová-la. Sinto muito pela minha sinceridade ou aparente arrogância, mas já fui e voltei deste caminho, e projetos-pilotos de renda básica, especialmente os governamentais que tenham menos do que a pretensão de fazê-la voar não são apenas tímidos, são inúteis e absolutamente incoerentes com as obrigações constitucionais de estados livres e democráticos.
Quem dera antes de construir muros, declarar guerras, vender armas ou ratificar a criação de corporações danosas à natureza, os governos tivessem o mesmo zelo que tem quando começam a se ver pressionados a cumprir aquilo que não é favor concedê-lo, mas sua obrigação por contrato social provê-lo. Ademais não podemos ser academicamente ingênuos: se decisões políticas fossem guiadas por recomendações da razão ou ciência não haveria mais desastres humanitários nem ecológicos.
Enfim, se há uma coisa que aprendi com Quatinga Velho é que a RB não é um problema de políticos sem boa vontade, empresas canalhas ou pessoas ricas insolidárias com o resto do mundo — nem muito menos dos estudiosos que produzem conhecimento para quem tem poder e dinheiro e não para a sociedade. Eles estão agindo apenas de acordo seus interesses, a pergunta é portanto se nós vamos tomar a frente e a compreender a renda básica em toda sua força libertária e revolucionária, (pacífica, mas revolucionária) ou vamos simplesmente deixar que eles que tem outros interesses se apropriem mais uma vez da garantia ou não dos nossos direitos naturais.
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