Ideais versus Ideologias (Parte 3)

Experiências e experimentações

V Estudos Experimentais
Não preciso dizer que não tenho dúvidas, precisamos de modelos experimentais com avaliações cientificas, mas estas experiências não podem mais estar apartadas do mundo real. Não podem ser laboratório de experimentos sociais com seres humanos.
Precisamos de produtores de conhecimento comprometidos com os anseios, dúvidas e necessidades das populações e sociedades e não de seus chefes privados ou governamentais. Precisamos de estudos independentes que respondam as perguntas não dos estados falidos e mercados financeiros parasitários, preocupados em produzir novas farsas que substituam os direitos precários, os programas compensatórias e assistencialistas e claro os empregos estúpidos e indignificantes- quando não servis mesmo.
Precisamos de cientistas livres do arcabouço das premissas e valores neoliberais, que não se finjam de robôs desinteressados ou a parte das necessidades, vulnerabilidades e interesses mais do que evidentes dos seres humanos. Precisamos de cientistas sociais que não ponham em duvida as necessidades e capacidades naturais das pessoas e comunidades, nem que se ponham ao serviço sujo de questionar ainda que subliminarmente em seus metodologias direitos humanos e naturais inalienáveis aos quais não cabem questionamento não por fundamentalismo ou supremacismo ideológico ou moral, mas por necessidade de ordem geracional, dado que não apenas o ideal e a moral carecem de liberdade conceitual para serem concebidos mas a próprio ser pensante carece de condições vitais básicas para materializar todo seu potencial.
Pessoas desprovidas do mínimo vital não podem ser reduzidas a mero objeto de estudo, elas devem ser sujeitos da construção sobretudo pedagógica do seu conhecimento. Conhecimento não é poder, conhecimento é liberdade e responsabilidade. E nos colocar na posição de estudo não nos livre dos crimes de omissão de socorro. Fazer ciência supondo-se apartado dos objetos de estudo não é fazer só uma ciência desumana, é fazer ciência obsoleta desprovida dos descobertas mais atuais acercas das incertezas sobre os fenômenos no nosso universo, e a profunda relação e interferência do observação na trajetória e historicidade do observado e vice-versa. Por isso se em algum momento os estudos que publiquei até aqui deixaram qualquer impressão errada de eram experimentos de renda básica, e não experiências de renda básica, acima de tudo projetos pilotos de políticas publicas de interesse social quero pedir perdão por não ter sido absolutamente claro em minhas pretensões e estudos.
Não sou um relativista. Nem questiono o direito a dúvida, mas há certas questões que nos fazemos sobre a renda básica que revelam mais sobre nossos preconceitos e pensamentos condicionados e servis do que sobre as pessoas que reduzimos a abstrações em nossos estudos. Toda dúvida é válida, mas por em questão a necessidade daquilo que se sabe sem necessidade senão de sensibilidade e reflexão ou é desonestidade intelectual ou segregacionismo descarado. Garanto a vocês não adianta observar a privação alheia, é preciso compartilhar a dor e medo da privação. E assim como é preciso experimentar da fome para saber porque precisamos de comida. É preciso experimentar da arvore do conhecimento para saber de fato o que é uma maçã.(…)
O conhecimento é subjetivo mas a ciência é dialógica. Se saber é sempre objetivo e experimental sua comunicação depende da consciência daquele que conhece não só que quer comunicar mas a quem e para que o que nem sempre significa o mesmo que a troco de quê. Pois assim como nós não devemos entregar a terra aos tiranos e seus estados de poder e corporações, não devemos renunciar a nosso direito de saber sobre o mundo desintermediado dos seus interesses. Precisamos tomar posse direita não só nossos bens comuns e particulares, precisamos nos reapropriar também das nossas experiências como sujeitos passivos e não objetos passivos de estudo ou ensino.
Não podemos renunciar, transferir nem nos alienar de experimentar como sujeitos a renda básica. Não somos nem podemos mais aceitar ser classificados como meros dependentes dos benefícios de governos assistencialistas; reféns da exploração do trabalho servil e emprego de mercados neoescravagistas; mas para tanto também não podemos mais também deixar que nos reduzam a mero objetos da observação, estudo e ensino de uma experiência de vida que é nossa e não de nenhum dos intermediadores de poderes. Precisamos de experiências com a renda básica voltada para os anseios dos povos e pessoas. Principalmente voltada para aquelas pessoas que já conhecem por experiência a necessidade de uma renda básica: os carentes, marginalizados e refugiados. Aqueles que hoje estão mais privados entre todos nós de suas liberdades e dignidades mais fundamentais.
Precisamos formular socialmente nossa própria concepção das coisas como sujeitos capazes não apenas de controlar econômica e politicamente nossa vida particular e comum, mas de conceber nossos ideais, valores e julgamentos como sociedade consciente se o que experimente corresponde ou não aos seus ideais e expectativas. Que construamos, portanto e sem dúvidas suspeitas, egoístas ou servis nossas experiências de renda básica não apenas com ciência, mas com consciência para tomar posse do nosso saber e vivência próprias enquanto iguais em autoridade e liberdade.
Temos direitos não só a terra e ao seus bens naturais; temos o direito de descobrir por conta própria se os frutos de todas árvores sobretudo as do conhecimento são bons ou ruins de acordo com a nossas experiências de paz e livre vontade. Por isso quando digo que precisamos experimentar a renda básica estou dizendo que precisamos nos libertar desta preconcepção alienada de saber, onde o conhecimento empírico é dado por um relato das autoridades que tomaram terras, vidas e vivem não só de comer todas as maçãs, mas sobretudo de proibir que se aproprie da vida como liberdade e do sua fruto da sua fertilidade natural como conhecimento sensível. Não meu amigo se você quer conhecer o poder da renda básica não peça a ninguém que lhe pague uma, tome a frente a faça-a acontecer como quem banca, quem paga, e reflete sobre o que aprende como esta responsabilidade.
VI Ciência
Creio portanto que a grande pergunta que devemos nos fazer sobre as experiências de renda básica é qual os objetivos dos seus realizadores e responsáveis?
Ou mais claramente a quem estes estudos estão dirigidos: as pessoas ou os governos e mercados. Não podemos ser ingênuos ou tentar fugir como avestruzes de toda a politicidade que envolve a produção do conhecimento. Não podemos nos furtar jamais de questionar os verdadeiros propósitos por trás dos estudos, os propósitos humanos que movem os seres humanos, e que não podem ser inconscientemente reduzidos a uma estado neoliberal e hipócrita como se este fosse a condição natural ou predestinada da humanidade. Precisamos nos perguntar sem receio ou cumplicidade quais são os medos e desejos que movem aqueles que chamam tamanha responsabilidade publica social e humana para si. Precisamos nos perguntar a que senhores ou causas eles respondem. Senão, corremos o grave risco de abandonar uma prática libertária e libertadora nas mãos de uma ciência sem nenhum compromisso com valores sociais ou humanos, literalmente vendida a interesses particulares, corporativos estatais e privados; completamente comprometida com os interesses capitalistas, no pior sentido que estas palavras podem assumir. A saber o sentido reacionário de preservação de um status quo cujos dogmas trabalhistas nunca deixaram nem tempo nem espaço livres para nenhuma liberdade.
Claro que este não é um problema especifico da renda básica, mas da ciência. Mas isso não importa. Não podemos perder o sentido da renda básica em nome de nada que se pressuponha como valor absoluto ou absolutamente relativo contra as necessidades universais. E se preciso for por em questão os dogmas científicos para destituir as prevalências supremacistas das ideologias que se supõe a imagem do real contra o direito e a ordem livre e geracional da vida tanto melhor. Não podemos mesmo continuar a fingir que a ciência é imparcial e supracultural, porque isto é falsear e impedir a própria produção cientifica consciente. É negar que a ciência como qualquer conhecimento não só se assenta sob certos preconceptos, e se reproduz como todo saber, não apenas lógica abstrata e apartada do mundo, mas se ciência reconexa e dialogicamente.
Por mais que se pretenda imitar a produção cientifica como se fosse “a arte pela arte”, não é o amor ao conhecimento nem ao estudo (nem muito menos aos objetos de estudos) que motiva o estudo e experimentação. É de absurda ingenuidade e hipocrisia tentar compreender a produção de conhecimento como se fosse produto do mero instinto ou vontade de conhecer. Deixar-se se levar por esse jogo de representações sociais é quase tão perigo quanto supor que os representantes políticos representam outros interesses senão os deles ou hierarquicamente impostos contra eles. Ao fingir portanto que os reis de qualquer domus inclusive do saber nunca estão nus corremos o risco de ver tanto toda a academia reduzida ao mesmo paradigma desumanizador das politicas e economias quantos os estudiosos a meros aparelhos reprodutores de ideologias.
Não.
Se a renda básica é a demanda pela restituição dos direitos políticos e econômicos ela também é a demanda pela restituição dos direitos de concepção e entendimento livre e consensual, sobretudo das certezas e pressupostos epistemológicos. Experiências devem e precisam ser estudadas, mas por qual tipo de ciência social? Ciência comprometida com quais paradigmas?
Quem produz ciência sem se fazer estas perguntas “para que?” “e para quem”; quem produz ciência se achando um artista, que pode se dar ao luxo de ser despolitizado ou se vender comercialmente não é um cientista nem um artista. E não se engane empregados subvernientes estão egregados ao sistema de exploração por privação dos meios vitais e não ao das garantias de direitos naturais. Trabalham pela manutenção do que supõem seus privilégios particulares e não pelos direitos de todos.
É lógico. Não ha ciência sem consciência. Nem saber sem sensibilidade em relação ao mundo não como objeto, mas como rede de seres dotados de força de autodeterminação. Quem se dispõe a estudar a prática da renda básica sem se dispor a entender seu poder inclusive epistemológico de libertação precisa primeiro se libertar das pretensões de objetivação dos seus semelhantes e aprender um pouco mais com a dimensão da pobreza sua própria condição humana. Precisa refletir mais sobre suas questões, se elas se identificam com a necessidade da garantia de meios virais das pessoas comuns, ou como os anseios das autoridades- que por definição nunca estão privadas dos recursos mas o detém inclusive como poder de definição.
Da nossa parte como pessoas comuns, em hipótese alguma podemos cair na armadilha de experimentos que não estejam voltados para nada menos do que fazer a renda básica acontecer como nossa própria historia da humanidade. Não importa se quem não se identifica com as pessoas e o senso comum não considerem nossas experiências relevantes, ou reneguem seus resultados. O que não podemos aceitar é os argumentos falaciosos dos representantes de governos e mercados de que não podemos colocar a renda básica em prática sem antes passar por seus rigorosos testes e aprovações. Quem nos dera, eles tivessem toda essa reservas e precauções contra o fabrico e uso de bombas ou derivativos financeiros.
Não. Não, podemos mais nos deixar fazer de tolos. Quem detém o poder (salvo desvio padrão), quando quer algo, não espera, simplesmente joga em cima de quem quer e pode jogar. Se as decisões politicas e financeiras fossem guiadas por estudos científicos ou razão, ou melhor, ainda por controle dos cidadãos comuns não só não teríamos tantos criminosos financeiros e de guerra soltos pelo mundo, como não teríamos que lidar com os desastres ambientais e humanitários ainda em curso causados por eles.
VII Filosofia
Sim. Após 5 anos de experiência em Quatinga Velho defendo ainda mais veementemente a renda básica, mas minha voz não é mais a dos meros observadores e estudiosos, não é sequer mais a voz do ativista. Minha voz é daqueles que precisam de uma renda básica já e não tem voz é de todos nós que que saibamos também precisamos para ontem dela e ainda não acordamos. Não. Não falo, portanto como uma autoridade, mas como pessoa igual em autoridade e portanto humanidade. Por isso, não se enganem eu não falo como um negro, latino, miscigenado, marginalizado ou segregado apenas como recurso de retórica. Eu não só voluntariamente me solidarizo com a carestia dos necessitados como me identifico com ela e porque foi entre os mais carentes que encontrei a nossa condição humana em toda sua igualdade de vulnerabilidade construída por inclusão e afirmação, mas por exclusão e renegação.
Foi assim, buscando libertar as pessoas das suas privações materiais que encontrei minha própria libertação. O significado da liberdade não como realização, mas como busca como luta revolucionária pela liberdade. Hoje busco não só não retomar o projeto de Quatinga Velho, mas ainda espero que ele seja um ponto dos pontos precursores do que vejo como uma rede de renda básica livre de fronteiras não só geopolíticas mas antes do saber. Sonho ainda com a renda básica, e a vejo tanto como principio fundamental de um novo sistema econômico, como dispositivo constitucional de novos territórios libertários fundados na plenitude da democrática e cidadania. Democracias de renda básica exercidas não por voto ou representação, mas por direito de alocação direta de recursos garantidos por rendas básicas e plena liberdade de associação econômica para todos.
Concebo uma renda básica completamente incondicional que seja dada por pessoas iguais em autoridades, e não como concessão de um poder superior a seus dependentes submissos. Uma renda básica provida diretamente de pessoa para pessoa entendida tanto como garantia social do direito a vida quanto o dividendo social devido sobre o a herança natural e da humanidade. Vejo a renda básica, portanto, não apenas como uma revolução político-econômica, mas de valores e controle social sobre o bem comum hoje estatizados e privatizados. Vejo a renda básica nascendo de um processo de desculturalização em direção a cosmopolitização e emancipação plena das pessoas naturais e reintegração de direitos políticos e econômico e culturais na garantia de direitos civis e sociais plenos e de fato.
Concebo portanto a luta por renda básica como movimento de abolição não só da servidão politica e econômica mas da desalienação psico-cultural. Movimento de libertação não só de classes ou gêneros, mas de toda uma nova geração privadas de sua herança natural literalmente por falta de espaço e tempo livre no mundo tomado patriarcalmente por todos que tomaram violentamente primeiro nosso planeta.
Não só tenho certeza mas recomendo, a renda básica é um ideal que deve ser experimentado e conhecido por todos nós e em todos os níveis: do comunitário ao nacional. Deve ser uma prática capaz de transcender todas as fronteiras, impedimentos, e pressuposições ideológicas no sentido da constituição de direitos humanos como cidadania plena. A renda básica é um instrumento de garantia de liberdades, mas também um instrumento de libertação de todos, muito mais sensivelmente percebido e emergencialmente necessário para as os povos e pessoas mais carentes e vulneráveis, mas ainda sim necessário a todos nós e que não pode deixar de ser apoiado em nenhum lugar instancia ou iniciativa genuína.
É certo que há pessoa e lugares que precisam mais urgentemente da renda básica, mas não há demanda por renda básica que seja mais ou menos legitima ou necessária. Não há grilhão que não se quebra desta enorme corrente que não ajude a libertar a todos nós. E se os homens e os elefantes de circo soubessem que depois que depois de adultos as mesmas correntes que os prendiam quando crianças não podem mais segurá-los não só já teríamos uma renda básica como democracias diretas nos lugares das distopias do mundo.
A renda básica não deve objeto de pedidos, mas de demanda porque é uma necessidade tão antiga quanto o imperialismo, a democracia e a filosofia e que só virá como conquista social e libertária não porque acredito em revoluções de paz, mas revoluções, mas porque a renda básica é inerentemente revolucionária. Por isso quero encerrar esse discurso como uma imagem ou alegoria, que costumo identificar com o que aprendi com a experiência de Quatinga Velho, pois creio que a renda básica significa para mim o que luz do Sol significava para o filósofo e não por acaso mendigo Diógenes de Sinope especialmente diante dos Alexandres magnos da vida. Significado que traduzo livremente por:
Não tente me dar nem tirar aquilo que não é seu, nem para dar nem negar, mas é seu tão seu quanto é meu”.
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