Liberland: A magnífica sensação de ver quando se está errado (Parte 3)
Marcus Brancaglione
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Liberland: E a terrível sensação de ver quando você está certo

O presidente-fundador não pode entrar em seu território. Mas um dos seus ministros já foi pego em um “escândalo” — entre aspas porque perto dos escandá-los dos ministros dos Estados-Nações que conhecemos é até piada.

Mas se a matéria da BBC estiver correta, Liberland agora depende mais de interesses outros do que da visão do seu visionário presidente-fundador:

Mas o presidente de Liberland gosta de repetir que todos os países são fantasias. “Todos saem da cabeça de alguém.”

Não um pais, não é uma fantasia e nem sai da cabeça de alguém. O território ocupado por um povo, ou um povo sem um território, não é uma fantasia. Como bens sabem os judeus que viveram em cativeiro no Egito ou os africanos que foram sequestrados da sua terra para serem escravizados nas Américas.

Esse é um erro clássico dos libertários de direita que compram a tragedia dos comuns como fato e a redução da propriedade apenas em sua qualidade particular.

A propriedade particular não é uma ficção assim como a propriedade comum não é uma fantasia. São rigorosamente abstrações, não invenções. Conceitos resultantes da percepção de uma realidade e não da sua projeção imaginária que também pode se tornar real, desde que aquele que concebe sua projeção a materialize como fato ou evento. Poderíamos por exemplo não fazer distinção entre os animais e não conceberíamos a abstração por exemplo dos felinos. Poderíamos ainda não fazer nenhuma distinção entre os felinos e não conceberiam a abstração da distinção entre tigres e leões, mas ainda sim a distinção existiria. Como entre cada tigre e leão em particular independe da nossa capacidade de fazer tais abstrações. Contudo um ligre, a mistura de um tigre e um leão, isso sim é uma fantasia, uma quimera, Mas sem fazer aqui juízo de valor a partir do momento que ela é concretizada pode ser qualquer coisa menos fantasia.

O bem comum e particular não precisam de inventividade para serem concebidos, mas de percepção ou mais precisamente de sensibilidade para serem compreendidos. A propriedade pode não ser um fenômeno como a liberdade mas não deixa de ser uma abstração verdadeira isto é a inferência sobre seres ou fenômenos tanto materiais quanto imateriais absolutamente reais. A ideia de propriedade assim como a ideia de movimento ou evolução não se referem a entes com corpo nem a fenômenos com força, mas as relações entre eles, que embora não sejam percebidas ou sentidas em si, são inferidas destas relações para compor a compreensão ordenada dos eventos.

É muito difícil dentro da concepção materialista corpuscular compreender fenômenos reais porém incorpóreos, e não me refiro aos metafísicos, mas os físicos: ondas, a energia, as forças. Fenômenos assim como seres que podem ser percebidos,e sentidos mas não são entes, mas forças. E mais difícil ainda abstrair e compreender fenômenos que não são uma coisa nem outra, mas relações entre eles.

A materialidade é essencialmente a abstração da percepção corpuscular. A liberdade a abstração da imaterialidade, e a propriedade destas relações absolutamente necessárias entre os corpos e as forças constituintes.

Assim se a liberdade é concepção de um fenômeno perceptivo. E a propriedade a sua relação entre com a matéria, mas essa relação com entes e fenômenos não é uma ilusão nem fantasia mas compreensão ordenada e reintegrada de um realidade, que se só se efetua por meio de tais relações.

O processo do entendimento, é feito portanto de abstrações de uma realidade absolutamente integrada, isto é da ignorância cognitiva da integralidade do todo, para conceber as particulares que depois são reordenadas de modo a fazer sentido pelo raciocínio oposto: a comunhão que dá significação e comunicação a ideia da realidade concebida.

A ideias portanto de propriedade, essa relação do fenômeno liberdade imaterial de um ser dotado de materialidade com toda a materialidade que permite a manifestação e preservação desse fenômeno naquilo que chamamos de vida, está portanto intrinsecamente ligada a própria senso comum da matéria viva e morta, a presença dessa anima própria.

A ideia de propriedade particular como o próprio corpo, ou ainda um chão uma terra para ocupar e tirar a subsistência dela não é uma fantasia. É um realidade ainda que não existam seres inteligentes ou conscientes capazes de perceber as necessidades particulares de cada um que relacionadas formam sua necessidade comum.

Da mesma forma, ainda que não efetuamos a distinção de nossa absoluta particularidade e individuatividade, e nos compreendamos como meras células de um organismo, ou que ao contrário concebendo essa distinção não procedamos com o raciocínio contrário que nos integra a nossos semelhante desde os próximos até os mais distintas, desde os humanos até todas as formas de vida. Ainda sim nossa realidade particular e comum será um fato e integrado.

Assim a noção de um povo, não é uma fantasia, ela é uma concepção da integralidade pelas semelhanças e ela não só exclui a noção da individualidade ou humanidade se é concebida como absoluto e não relação integrante da realidade. O mesmo vale para a individualidade e humanidade. A noção de humanidade que renega a noção de soberania dos povos e indivíduos, não é propriamente a concepção de humanidade, porque de fato não compreende a diversidade do universo, ou com mais correção a multiversidade. Assim como a noção de individualidade que renega ambas, desconstrói a própria identidade do individuo que não existe sem a relação que o distingue e assemelha. Ou seja o nulifica, por isolamento. E faz do ser um ligre um ser que existe de fato mas como uma quimera sem possibilidade de uma existência materializada em sua plenitude.

O absoluto seja ele totalizador, seja ele individualizador desintegra, as propriedades, as liberdades e as identidades.

Não é possível portanto conceber um território livre ou não, se não se distingue o que é a quimera, a fantasia, o artificial, do necessário e natural e real. As nacionalidades, as individualidades e as humanidades não são invenção humanas, o nacionalismo, o individualismo e o totalitarismo sim. Da mesma forma que as liberdades e propriedades comuns não são produtos da mente humana, mas a inteligência o produto da capacidade da sua concepção e ordenação.

O estado e os governos autoritários a quimera feita e imposta como real, não anula a realidade da busca das pessoas e povos de lugares que possam viver em comunhão de paz. Da mesma forma que nenhuma propriedade privada, ou coletiva sobretudo as concedidas por estatuto real de violência e seu monopólio anula o direito dos demais seres dotados de vida de buscar sua liberdade e propriedades e o fazê-lo alternativamente em paz.

De fato nenhuma propriedade coletiva ou particular anula ou se sobrepõe sobre essas forças e necessidades naturais. Nenhuma propriedade tenha o estatuto que é legitima se impõe contra a propriedades particulares e comuns naturalmente definidas pelo equilíbrio que sustenta a vida de cada um dos seres dotados da mesma necessidade vontade de viver livre.

O que o regramento social e humano se propõe a fazer, a função do contrato social é justamente impedir que a violação gere luta e conflito. Logo nem as propriedades comuns extinguem a individuais isto é a comunidade tem direito de controlar o que pertence a cada pessoa, nem uma pessoa sozinha ou grupo tem o direito de extinguir ou controlar o que pertence a toda a comunidade. E o elemento que determina o que pertence a cada um não é a quimera da prerrogativa de autoridade de nenhuma delas e sim a necessidades comuns ou naturais.

Daí que do meu rabo cuido eu. Da sua casa você. E da floresta todos nós. Isto não quer dizer que quem precise de um fruto da arvore não possa colhe-la, isto quer dizer que ele não pode impedir os outros de fazer o mesmo, ou destruí-la. Isso não quer dizer que você possa matar pessoas dentro da sua casa, ou incendiá-la colocando os outros em risco, isto quer dizer que você pode fazer absolutamente tudo o que quiser que não prive nem viole o outro de fazer o mesmo. O principio máximo do libertarismo que quando aplicado ao principio ecológico, isto é que vivemos num mesmo barco, significa que não se pode tomar esse barco para si a revelia dos demais nem furá-lo.

Isto quer dizer que as propriedades particulares não são distintas das comuns, estão a elas integradas. E protegidas assim como nosso próprio corpo pelo meio ambiente pela tanto pela rede formada por elas quanto pela própria plataforma onde a rede se conecta, isto é o bem comum, que no caso de seres corpóreos é a nada menos que sua terra!

Sem essa concepção das propriedades correlacionadas a cada nível necessário da existência de um individual comunal e ambiental sem entender a propriedade como propriedade particular (só de uma pessoa), publica (de todas as pessoas) e ambiental (de ninguém). Sem a compreensão de cada uma dessas propriedades de fato não existe desintegrada das demais, não temos como fundar um território livre , não temos como proteger nossa casa e nossa terra, nem preservar nosso meio ambiente e recursos naturais.

Dois dos maiores falacias da humanidade formam a tragédia dos comuns e o comunismo. A primeira porque pregou que abolição da propriedade comum em prol da propriedade privada seria a solução para o “inevitável” esgotamento dos recursos naturais se todos continuassem acessando-os livremente. E o segundo pela abolição da propriedade privada, em prol da redistribuição dos recursos naturais monopolizados. Notadamente nenhuma das duas soluções nem promoveu a preservação da terra e sua natureza, nem redistribui as riquezas, pelo contrário. E por um mesmo motivo: a propriedade em ambos os sistemas permanece sob o monopólios que violam direitos naturais. Quem detém o poder, o controle sobre as terras e os territórios detêm a sua propriedade em todos seus aspectos reais, particulares, públicos e ambientais, ainda que renegue ou proíba algum deles, e conceda ou libere outros aos demais.

A desintegração da politica da economia. A falta de entendimento que o poder politico é econômico, e o econômico é politico e eles só separam como abstração. Permite a alienação da propriedades dos alienados, e a apropriação dos alineados como propriedade por quem detém de fato tais poderes politico-econômicos que na prática se reintegram legal ou criminosamente a revelia das suas pregações e teorias pelo simples fato que não mais o que os impeça.

Um dos elementos fundamentais a independência e fundação de novos mundos e territórios é portanto literalmente a fuga desses arcabouços que são tanto preconceituais e culturais quanto politico e economicamente policiais. É literalmente a utopia dos piratas, dos pioneiros e dos religiosos que um dia lançaram-se ao mar em busca de suas Libertálias de suas terras prometidas.

O pensamento libertário não se compreende sem a noção de privação servidão e escravidão. Libertarismo é uma palavra vazia a quem desconhece a opressão do autoritarismo de direita ou esquerda, comunista ou capitalista.

Libertarismo é a fuga da servidão. É busca da terra prometida, e o sonho do novo mundo. Algo que como estratégia concreta adota por profeta, pioneiros, piratas e libertadores não se fez sem resistência armada ou não.

A libertação como criação de um territórios e comunidades livres, passa por uma equação econômica fundamental:

a imposição de custos maiores para a sua dominação do que os lucros com sua exploração.

Isto pode ser feito se afastando dos centro de poder e tributação e exploração do trabalho. Isto é, instalando-se o mais distante e descentralizadamente possível dos expropriadores. De tal modo que o risco e custo da busca e expropriação não compense o roubo. É muito mais fácil, tributar e expropriar uma ou duas empresas gigantes e milhares de pessoas apinhadas em grandes centros urbanos do que no fim de mundo. Seja no Egito de Moisés, seja na São Paulo de… deixa pra lá.

Isto pode ser feito como dentro dos próprios guetos, que as pessoas são encerradas. Como nos morros do Rio e favelas de São Paulo. Impondo perdas a qualquer tentativa do Estado em reaver e controlar esses verdadeiros estados paralelos que para sua emancipação só falta a vontade politica… de quem de fato os controla!!!

Numa eventual e cada vez mais provável crise do Estado-Nação, mais fácil que as comunidades formem novas comunidades-estados dentro do velhos Estados e União falidos do que Liberland ser reconhecida por Estados em plena potência de suas prerrogativas de monopólio.

É claro que eles não seriam nem Estados de paz, nem libertários. Mas seriam de fato novos territórios independentes ainda que não livres para seus habitantes. A questão é livres de quem e do quê?

Essa é a questão se você não é autoritário e quer impor seus sistema de valores aos demais. Livre do quê e de quem? Eis a questão libertária. Porque a liberdade é absoluta, universal, mas a libertação é relativa, as privações.

Liberdade é fenômeno, libertação movimento. Liberdade é principio. Libertação fim. E propriedade e identidade não são obstáculos, mas seus meios absolutamente necessários… a todos.

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