Marcus, já enviei outros pitacos mas não resisto.
Francisco Nobrega
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Não, não virei Francisco. Pelo contrário, continuo a não militar por nenhuma forma de violência ou sua suposta justificativa, seja revolucionária seja estatal. Continuo plenamente convicto das minhas objeções de consciência contra todas as formas de violência inclusive as legalizadas e firme na minha fé que a liberdade de fato é o único caminho a paz. Continuo a não ser seletivo em meus princípios, e não fazer nenhuma distinção baseada na autoridade status, justificativa ou ideologia do autor da violência. Acredito que ninguém tenha nenhum tipo de licença para se valer da agressão, privação e coerção para impor seus valores. e não faço exceções nem para quem se arroga o monopólio da justiça social nem muito menos da justiça legal. Não importa as prerrogativas ou racionalizações dos autores ou apologistas da violência seja a estatal seja a marginal. Considero todo uso da força ilegítimo se não for empregado como última alternativa de defesa de direitos naturais a vida e liberdade e seus meios, ou seja, tão somente como reação onde todas as demais alternativas de proteção ou resistência forma esgotadas. Logo recrimino tanto a repressão das reivindicação sociais quanto as próprias violência como meio de reinvida-las desde que haja abertura para o diálogo, negociação e resolução dos conflitos e problemas sociais mesmo aqueles que já se tornaram violentos por outros meios. Seja problema social ou violência fruto dos crimes dos agentes de Estado ou dos próprios membros da sociedade.

Li este trabalho antes mesmos de iniciar o meu ativismo na renda básica há quase 10 anos atrás. E muito deste ativismo e ação social foi desenvolvido levando em consideração minhas as objeções que já tinha a toda resolução violenta e sua institucionalização, como também as objeções a não-violência implícitas e explícitas nos argumentos tanto autores clássicos defensores das prerrogativas de monopólio da violência estatal, quanto dos autores marginais defensores da luta armada ou prerrogativas de violência revolucionária, protoestatal ou anarquista.

A leitura desses autores colocava um dilema e desafio aos meus princípios de paz e justiça social e vontade de ação e transformação social. Já que as duas primeiras posições baseadas na violência ou reação violenta não eram no meu entender a solução, mas uma das raízes do problema. E aquilo que se considerava até então a forma pacifica mais efetiva de combatê-las, a não-violência, embora representasse uma renuncia a contribuir para o avanço destes problemas, não era também a solução na medida na medida em que se configura como postura passiva omissa tolerante seja com a violência da agressão seja da privação. Nenhuma das alternativas se apresentava a meus olhos como caminho nem solução: nem a revolução violenta, nem a desobediência civil não-violenta, nem muito menos o próprio monopólio e culto da violência legalizado e estatizado.

Era preciso formular outras formas de defesa da paz e reivindicação social menos reativas a todas as formas de violência, que se constitui-se tanto como como protesto quanto a ação social em si, mais proativas preventivas e efetivas que atuasse nos fatores geradores dos problemas sociais e conflitos decorrentes. Você sabe aonde eu quero chegar com meu argumento, porque também é um defensor da renda básica. Um defensor que acompanhou, apoio e contribui de fato que para pudéssemos estabelecer essa outra forma de ação e reivindicação social, baseada em uma propaganda pelo ato fundada em algo que considero muito mais revolucionário e construtivo que a violência simbólica ou de fato, legal ou ilegal: a conquista do pão.

Hoje sei que compartilhar voluntariamente riquezas erguer sistemas de proteção social a revelia dos monopólios inclusive do social, é um ato muito mais e efetivo de emancipação e empoderamento popular que nenhuma arma ou bomba seria capaz de constituir. Assim como um forma de protesto muito mais subversiva que grito ou a bala para quem não deseja nenhuma justiça social ou fim da violência nem legal nem ilegal e seus conflitos.

Considero mais subversivo e construtivo a conquista do pão, do que qualquer lixeira queimada, abraço a uma árvore ou petição a políticos e governantes a prática voluntária, cidadã e independente do pagamento de uma renda básica de pessoa para pessoa do que qualquer outra forma de ativismo ou manifestação social.

Se essa forma de ativismo baseado em contra-violência é ou não um fracasso, como os demais isso é uma outra história e vale uma critica. Especialmente quando nossas culturas e sociedades tiverem investido o tempo e riqueza que colocou nas velhas soluções estatais e revolucionárias não por séculos, mas milênios.

Entendo e compartilho das causas dos protestos dos black blocs como Gelderloos, mas se dissesse que apoio ou defendo esse método estaria sendo incoerente e hipócrita, porque meu ativismo não consiste em pegar em armas nem distribuí-las, mas distribuir renda e incentivar inclusive com esse ato essa prática. Até mesmo porque sei que para uma pessoa possa exercer seu direito natural a legitima defesa e resistência seja contra um bandido de qualquer espécie seja ele um marginal comum ou um ditador e tirano ele precisa primeiro parar em pé. Precisa ter os meios para tomar a decisão errada ou acertada de empregar ou não a força de fato de acordo com a sua livre vontade e não se ver obrigado a se submeter ou pior aderir a violência por falta de escolhas perante as agressões ou privações.

Até porque como você bem colocou, uma vez encerrada todas as alternativas de resistência pacifica, é evidente que entre forças armadas armadas bem treinadas vestidas e alimentadas prevaleceram sobre moleques armadas com pedras, e armas caseiras seja em confronto direto seja como a resistência e defesa da sociedade contra a violência de terceiros, como no caso do nazi-fascismo. E que ambas uma vez deflagrada a agressão qualquer uma delas é mais efetiva que qualquer estratégia de não-violência e até mesmo de contra-violência.

Ou seja entendo que mesmo os ativistas radicais do pacifismo se não fazem do seu principio de paz um dogma estúpido, mas uma fé racional e criticamente fundamentada são obrigados a concordar que quando a outra parte não tem disposição nenhum a negociar ou findar sua violência, resta ao violentado apenas a força de fato como meio de defesa. E gritar e protestar não vai adiantar em nada se esse grito e protesto for dirigidos para sensibilizar o violentador e não quem tem ou detém a força de fato para tirá-lo de cima de você. Manifestações ou demandas dirigidas aos violentadores talvez ajudem os manifestam a dormir com a consciência mais tranquila, sonhando com o fiz a minha parte. Mas não servem para prevenir nem deter o conflito, nem protegê-las de fato se serem amanhã o próximo. O ativista pacifista portanto que não se contentam em lavar as mãos, e não tolera por principio nenhuma forma de violência. Não tolera de fato a violência ou sua institucionalização como algo inevitável precisa entender que as ações sociais e medidas capazes de extinguir as causas desses conflitos precisam ser atacadas na raiz do problema com urgência urgentíssima e não podem esperar a boa vontade de nem da classe política nem pode estar condicionada a boa vontade dos demais membros da sociedade para se constituir como ação proativa de defesa da paz.

Aqui acabei adiantando muito dos minhas críticas a Gelderloos que serão publicadas em artigo já pré-agendado aqui no Medium. Contudo a escolha de Gelderloos para construir minha critica dialógica e não por exemplo a obra de Hiler ou afins reflete claramente minha opção por estabelecer uma oposição e debate com aqueles que acredito que exista a mínima possibilidade de dialogo, demoção da violência ou tolerância para com ela como meio de consecussão de objetivos.

Não nego nem escondo que acredito que prefiro tentar demover da violência pessoas que acreditam nela como meio de reinvindicação das suas causas sociais, do que como principio fundamentador da sua superioridade racial e supremacia legal. De fato creio mesmo que seja mais capaz de sensibilizar de demover pessoas que toleram ou usam da violência contra injustiças sociais, do que as que toleram o extermínio de raças e pessoas para impor ideologias de modo a preservar seu poder ou tomá-lo. Não tenho a menor pressunção de mover ações ou possuir argumentos capazes de sensibilizar quem não considera a violência como meio as suas reinvidicações, mas como a propria prerrogativa tanto de legítima delas quanto depois de legalidade da sua imposição como lei e ordem.

Sempre podemos chegar a uma resolução pacifica dos conflitos quando as partes beligerantes são movidas por problemas sociais, mas quando apenas uma das partes e sua ideologia é a causadora desses problemas sociais não. Neste só conseguimos evitar o conflito literalmente desarmado, removendo o poder dessa parte de conflagar o problema e deflagar o conflito.

Afinal é possível demover por exemplo um quilombola ou índio de reivindicar pão água e terra com violência, até mesmo cedendo as suas reivindicações. Mas não é possível jamais evitar o conflito como nenhum nazi ou fascista cedendo as exigências deles, poque o que ele demandam não é igual direito sobre as coisas, mas o direito exclusivo sobre absolutamente tudo, inclusive os outros como coisas, inclusive muitas vezes de forma explicita sem nenhum eufemismo ou disfarce no que isso implica e significa: demandando já o que para eles é solução final, por exemplo o extermínio de índios ou quilombolas.

É claro então que discordo dos black blocs e Gelderloos, e amplio essa discordância para o o movimento do Antifa que agora se levanta nos EUA contra o neofascismo do alt-right. Pois embora, entenda as injustiças que combatem elas não justificam sua violência como estratégia, e que elas devem ser findadas. Já as causas dos nazi-fascistas não. Não concordo Não existe espaço ou debate e portanto a discordância, nem sequer oposição, só resistência. As reivindicação dos nazi-fascistas jamais podem ser consideradas, toleradas nem atendidas, porque seu problema não é meramente de escolha de meios errados para as causas certas, mas de princípios, meios e fins errados. Não são reivindicações feitas com violência, são reivindicação da violação e violação como “seu direito”. São parte da causa e não consequência do problema até como discurso, porque não se constituem como mera ofensa ou discriminação ou chantagem via ameaça ou terror, mas já pura e simplesmente como declaração de guerra a vida do outro.

Logo ainda que seja mínima, sempre existe a possibilidade de que movimentos sociais ou revolucionários renunciem a sua violência sem que haja necessidade do emprego da violência para reprimi-los. Já fascistas e nazistas quando tomam de vez o poder estatal, não. Porque o que eles reivindicam não é outra coisa senão a legitimidade de todos seus atos violentos pela posse de fato da supremacia da violência.

Quando a reivindicação de um movimento é o fim de um problema social podemos acabar com o conflito eliminando suas causas sociais. Quando a reivindicação de um grupo não é mais pela solução de um problema, mas sim da pessoa humana do outro e não sua condição como o próprio problema a ser “solucionado”. Essa solução é de longe em si agora o maior dos problemas.

Assim acredito que uma vez perdida a oportunidade de impedir a ascensão ao poder dessas ideologias; uma vez deixado os povos ao deus (e estados) dará, a violência estadista ou “revolucionária” encontrará os meios e justificativas ideais para prevalecer e se retroalimentar em simbiose de terrorismo e guerras umas as outras, eliminando qualquer chance que até então havia de se empregar outros métodos para instituir de fato estados e sociedades de paz.

Perdão pela resposta longa a uma questionamento simples direto. E mais uma vez obrigado por instigar esse questionamentos que ajudam a construir essas reflexões. Foi bom você ter colocado essa questão porque as vezes escrevo e publico coisas como se todo mundo conhecesse o que faço, quando é o contrário e ninguém é obrigado a conhecer. E pior, presumo que todos tem os mesmos valores que eu, e consideram a ação como o fato determinante das reais valores e posições das pessoas inclusive dos seus discursos. O que é um erro de suposição ao qual devo (e peço) desculpas a você e a todos que me leem, compartilhem ou não da mesma visão e valores. Afinal essa é a questão: nunca temos como saber com certeza.

Abraços

Marcus

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