O Futuro do Medium

Resposta em aberto ao convite para produção de conteúdo exclusivo pago: Uma contribuição

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É uma honra e um privilégio esse convite para participar deste desafio que é a capitalização do Medium. Um desafio que encampa e reflete a própria luta de quem gostaria de se sustentar do trabalho como escritor, com a liberdade para produzir com a qualidade que notabilizou essa plataforma como provedora de conteúdo diferenciado.

Em tempos de extrema polarização, superficialidade e descredibilidade da informação e pensamento, o Medium conseguiu se constituir como uma referência de pensamento crítico e lúcido tanto pelo trabalho daqueles que escrevem, quanto pelo trabalho daqueles que o leem. Ora como leitores, ora como escritores essas pessoas constituíram e continuam a constituir de forma voluntária o capital merecido do Medium como provedor deste espaço.

Neste sentido o Medium é muito mais do que um provedor de conteúdo, ou uma biblioteca da produção literária contemporânea independente, é uma comunidade desses leitores-escritores que criam coletivamente essa riqueza. Um dos diferenciais mais magníficos do Medium, e fator determinante da geração da sua produção de qualidade, é a interação que ele proporciona entre esses escritores-leitores.

Lendo as vezes a prosa poesia de uma pessoa que não faz parte do meu círculo de “seguidos-seguidores”, mas de alguém que por alguma razão deu um “gostei” num escrito, ampliou minhas próprias perspectivas e sensibilidades e “conversando” com ele através da sua obra, encontro novamente inspiração para a minha. Se refletirmos veremos que esse efeito amplificador das inspirações é um evento que encontrou espaço para ocorrer em raras oportunidades ao longo da história da criação do pensamento. E nunca com tal amplitude cosmopolita e multicultural.

Penso, sinto e escrevo em língua portuguesa mesmo quando traduzido para o inglês. E o faço isso dentro da realidade do Brasil, um país de não-leitores. Marcado de um lado pelo analfabetismo funcional de uma população que não teve acesso à leitura, e do outro por uma grande maioria que mesmo tendo sido devidamente alfabetizado carrega em si uma profunda falta de vontade de ler o mundo. Por isso aprecio profundamente o desafio que Medium se coloca, porque dentro dessa realidade periférica querer viver da escrita é como passar um atestado de pobreza, e querer viver da escrita fora da grande mídia soa como declarar-se como um marginal ou vagabundo.

Logo, o capital que o Medium merecidamente já possui tanto como marca, como rede em si já é gigantesco. Se efetuarmos uma filtragem da produção de conteúdo sobretudo original e crítico que o Medium possui em seu acervo, e reproduz diariamente, não se compara ao de nenhuma mídia ou rede social. E sem sombra de dúvida compartilho da visão que aqueles que usufruem e principalmente usam desse bem e podem pagar por ele deveriam fazê-lo. Assim como concordo que esses leitores-escritores que sustentam a provisão desse conteúdo deveriam naturalmente também ser remunerados pelo percentual dos ganhos.

Por isso quando você pergunta sobre qual percentual espero receber sobre o conteúdo que será pago. Sugiro por efeito de simplificar o cálculo, o famoso 10 por cento. Porém gostaria que 10 por cento do que seriam à mim fosse também igualmente distribuídos igualmente a todos os demais escritores-leitores do Medium.

Quanto a produção acho perfeitamente justo que quem possa pagar o faça, mas não gostaria que quem não pode, mas ainda assim quer ler ou usar essa obra possa fazê-lo. Sei o quanto efetuar tais distinções na provisão de serviços não é só difícil, mas contra-produtivo. Mas não é na discriminação dos clientes-usuários que se efetua essa distinção, mas nas licenças de uso e reprodução da propriedade intelectual. É através delas que pode-se desonerar aqueles que não tem como pagar pela provisão de conteúdo, mas contribuem com a sua publicidade através da difusão gratuita, daqueles que de fato vão aferir ganhos econômicos a partir do uso comercial e econômico do conhecimento provido.

Estou portanto falando em licenças de copyright hibridas que liberam o acesso e a reprodução do conteúdo para veículos e entidades e usos não-lucrativos, mas que garantem royalties predeterminados sobre os ganhos auferidos para os proprietários da obra.

O Facebook hoje faz bilhões não vendendo publicidade paga aos seus usuários, mas rigorosamente seus usuários como consumidores às empresas. Seu capital está na apropriação que não é criminosa dos dados pessoas. Seu valor agregado é tanto a redução destes dados em produtos vendáveis as empresas, bem como a formatação do própria rede e consequente redução da mentalidade dos usuários a mentalidade de consumidores tanto econômicos quanto políticos. Por isso é extremamente louvável que o Medium em seu plano de negócios não opte por essa lógica perversa. Mas isso não impede que, como o Facebook, ele cobre e cobre bem caro de quem realmente detém o capital, e de uma forma ou de outra vai se apropriar do conteúdo e serviço que ele provê. Porque uma coisa é vender outra é cobrar.

O fato de não poluir o Medium com anúncios, ou perverter sua arquitetura de comunidade para se incorporar interesses corporativos, não impede que essas corporações adentrem e utilizem o Medium para usá-lo como um mercado, nem muito menos que tomem o conteúdo aqui produzido de forma gratuita para vendê-lo como próprio. Por isso, espero que quando vocês estejam projetando seus ganhos econômicos, o estejam projetando sobre quem de fato tem recursos tanto para provê-los quanto para engolir o Medium se não houver esses contratos e termos de uso previamente estipulados para essas entidades jurídicas que tem por função justamente deter e negociar imensas de capital que nenhuma pessoa física sem elas seria capaz de ganhar ou movimentar.

Espero que seja sobre estas instituições que tem por finalidade o lucro que esteja a projeção de cobrança tanto para se tornar “pessoas” publicando suas ideias que necessariamente precisam estar atreladas a suas marcas dentro da rede, quanto usando ou reproduzindo o conteúdo aqui construído. Porque o Medium é aos olhos corporativos essas duas fontes de recursos: já se constitui um importante rede de “formadores de opinião” e estar presente nela influência será para eles fundamental. E se valer do conteúdo produzido por ela para sustentar suas mídias e veículos de comunicação.

O Medium para o capitalista da era da informação é ao mesmo tempo um Uber onde ele vai tirar a mão de obra que substituirá seus produtores de conteúdo assalariado. E ao mesmo tempo um mercado de produção de opiniões qualificadas que não substitui os estudos acadêmicos pesdo-científicos comprados, mas que pode muitas vezes ter mais impacto na opinião pública que eles. Se eles vão pagar mais barato por isso, ou não vão pagar absolutamente nada. Como uma camisa do Chê Guevara vendida no Wal Mart, isso vai depender da proteção da propriedade que o Medium pode prover através das licenças de uso, auferindo ganhos pela provisão por esse serviço, ou melhor espaço de proteção intelectual independente.

Considerando que o objetivo é tanto o ganho econômico quanto a publicitação da obra sugiro que considerem a uso de licenças alternativas e redistributivas de copyright, como o RobinrightⒶ para que sempre seja cobrado quando houver ganhos através da sua provisão de conteúdo sem jamais impedir o seu acesso por falta de recursos a quem quiser utilizá-lo. Até mesmo porque neste caso enquanto biblioteca do conhecimento na era do capital vocês funcionam como um novo tipo de banco, disponibilizando gratuitamente essa nova forma de matéria-prima e ganhando se ou quando as empresas conseguem auferir lucros.

Ademais cobrar de quem pode e deve pagar por aquilo se não houver tal proteção, não é apenas uma questão de justiça, é uma questão de futuro, de sobrevivência. Vejo o Medium como uma plataforma que tem tudo para ser a a rede da própria comunidade internacional dos escritores, prestando serviços de divulgação, proteção ao trabalho e a obra. Provendo remuneração quando essa obra é capitalizada e logo por óbvio cobrando de quem irá lucrar de fato como essa comunidade de escritores-leitores criadores do pensamento e conhecimento.

Não acho que isso seja uma utopia. Na verdade não acho nem que seja um futuro bem próximo de ser tornar uma realidade. Essa é minha contribuição inicial. E é sobre isso que desejo falar: Futuro, para todos nós. E por isso fiz questão de responder esse convite em aberto, e não só em inglês mas também em português. O futuro do Medium é tema de suma relevância de toda sua comunidade.

Na verdade minha contribuição é dupla. Porque além do texto, também estou liberando para todos os efeitos inclusive o uso e reprodução de todos os meus escritos originalmente publicados aqui no Medium de acordo com os termos da referida licença RobinrightⒶ.

Dentro das opções de licença que a plataforma fornece, os textos permanecem como “all right reserved”, mas isto apenas porque nenhuma das opções disponíveis contempla os termos dessa licença, a saber: autorizado para ser usado e reproduzido inclusive comercialmente sem minha autorização prévia, porém com seu uso comercial implicando automaticamente na concordância das taxas sobre os ganhos que, no meu caso, deixo a cargo de vocês estabelecerem o valor do autor com base no média.

Entretanto, gostaria de encerrar insistindo para que considerem com carinho a possibilidade de todos os autores que eventualmente vierem a ser remunerados através do Medium, ou pelo uso comercial de terceiros de obras aqui publicadas — previamente autorizado por licenças similares a que descrevi- que tenham ferramentas para destinar uma parcela dos seus ganhos para os demais membros da rede, preferencialmente como um termo de contrato com um percentual fixo, senão ao menos como uma possibilidade eventual e voluntária. A força do Medium está na rede. Quando um ganha todos deveriam participar desses ganhos.

Abraços para vocês, obrigado pela oportunidade e sucesso nesta nova fase

Marcus Brancaglione

Ativista Libertário da Renda Basica e membro da Fundação ReCivitas

Referências sobre a licença:

O artigo que originou a licença foi publicado no livro CopyFight: Pirataria e Cultura Livre Organizado por Adriano Belisário e Bruno Tarin em 2011.
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