O que é a Pobreza e Riqueza?

Interessantes objeções e um comentário ao artigo de RAW

Primeira

"O Estado conquistador, e a subseqüente fissão da sociedade em classes distintas de privilegiados e carentes, criou a pobreza. "
Não foi isso que criou a pobreza a pobreza já estava ai, isso no máximo criou alguns muitos ricos, mas não pobreza.

Segunda

"A cada nova década, haverá cada vez menos empregos e cada vez mais pessoas dependentes do bem estar social."
Bom, isso não é verdade, emprego vem aumentando e se modificando. Hoje temos mais pessoas trabalhando que a 50 anos atras, até porque tem mais gente hoje.

Terceira

"Já hoje, 0,5 por cento da população detém setenta por cento da riqueza, deixando os outros 99,5 por cento para competirem violentamente pelo restante"
Isso é uma forma bem tola de ver a situação. No geral o acumulo dessas pessoas não é dinheiro dentro do armário e sim investido em fabricas, lojas, desenvolvimento tecnológico, escolas entre outras coisas. Esse capital acumulado vai gerando diversos coisas boas, desde empregos, até novos produtos, fazendo de fato todos ficarem mais rico no final.

E o comentário

Mas tem uma coisa que me chamou atenção, existem estudos fazendo essa comparação do dinheiro a drogas?

Respostas

Sobre a correlação entre dinheiro drogas e vícios

Não posso falar por RAW, uso os textos dele mais como fonte de inspiração para construção das minhas próprias ideias. Então não vou fazer propriamente uma defesa do pensamento do cara. Mas explicar porque trouxe de volta esse texto.

Logo de cara digo pra você que o que mais me chamou atenção também não foi os postulados econômicos, mas o insight da relação de dependência psíquica do dinheiro. E não conheço nenhum trabalho cientifico sobre tal correspondência, mas confesso que não busquei. Mas uma abordagem interessante que chega no mesmo ponto, por via inversa é esse:

Um fenômeno interessantíssimo da utilização deste capital acumulado na fase da obsolência dos empregos (ou escravidão assalariada como queria) é tanto a migração do capital bancário para a nova meca do mundo financeiro-tecnológico (o vale do silício), ao mesmo tempo que muitos destes novos empreendedores do mundo do TI passam a defender ideias como a renda básica incondicional.

Entendo e respeito suas objeções aos argumentos de RAW, foi levando também elas em consideração que desenvolvi muito não só meu pensamento atual que dialoga com essas questões, como tenho me dedicado a construção de novos sistemas políticos e econômicos que funcionem nesta nova sociedade em rede da informação e substituam em caráter imediato tanto os velhos sistemas políticos quando os econômicos tanto socialistas quanto liberais.

A segunda

Quanto a questão do “Fim dos Empregos”, precariado… há realmente vários outros autores que fundamental a questão como mais propriedade que RAW, com dados mais atuais e dentro de teorias econômicas bem mais convencionais, chegando aos mesmo conclusão… diria que Jerome Rifkin é a referencia maior neste assunto.

A primeira

Quanto a origem da pobreza e ao estado sou obrigado a concordar com você que do ponto de vista cientifico não só RAW, mas muitos libertários com eu, fazem um salto sem as devidas provas -com evidencias fortíssimas, mas de fato sem a prova no sentido científico da palavra. Contudo há trabalhos acadêmicos interessantíssimos sobre o tema: um trabalho já referência sobre o tema é o do antropólogo francês Pierre Clastres que viveu e fez sua pesquisa de campo no Brasil (e outros países America do Sul): a Sociedade contra o Estado.

O importante, e nisto acho que os textos de RAW também ajudam a entender de onde vem esta tese que o surgimento do Estado e a pobreza vem como preconcepção estatal, isto é valor preconcebido e imposto a força. Ou mais precisamente como a pobreza antes mesmo de ser um fenômeno econômico é politico.

Não está explicito é claro. Mas você pode ler nos textos destes aurores que não se consegue constituir um monopólio de violência sem colonização psico-cultural, do mesmo modo que não se consegue esse tipo de domínio por alienação sobre um povo ou os habitantes de um território sem antes destruir sua próprias concepções particulares e comunais.

Da mesma forma, é impossível impor suas noções e preconcepções de pobreza e riqueza a outros indivíduos e sociedades sem fazer isto em si um ato de violência, dominação e dependendo do quão absoluto ou sufocante for essa cultura supremacista, sem fazer disso um etnocídio.

A pobreza e a riqueza unidimensionais despolitizadas e pressupostamente submissas não são apenas ideias pobres e empobrecedoras sentido etnológico, antropológico, mas reprodutores de poder econômico e valores reificados e alineados como se fossem realidade e não representação ideológica compartimentalizada e reduzida do conhecimento do mundo e da verdadeira riqueza que não me furto em enunciar: longe de ser os signos e meios-troca ou títulos de posse emitidos e mantidos por monopólios violentos é a diversidade de códigos e formas livres de vida e coexistência em sociedades de paz, em especial as humanas e humanizadas conscientes da necessidade co-significação para dar sentido ao fenômeno da vida.

Se você quiser ir além, verá que esse processo alienista-reificante não é meramente de dominação politico-econômica mas é sobretudo um processo de desintegração politica e econômica, e segregação racional sensitivo que simplesmente desliga o ente do mundo natural. Esse processo de narcolepsia de inconsciência coletiva e massificação induzida por signos e comportamentos repetidos, e outras técnicas psico-social bem conhecidas por agentes estatais ou religiosos, leva a destruição do mais importante valor libertário: a identidade que se forma tanto pela afirmação do eu quanto pela sua ligação como o mundo e a comunidade.

Concordo que a pobreza e a desigualdade não são um crime em si, é o poder politico-econômico para impor como violação material e concepcional que constitui a pobreza que marginaliza os desenraizados e encarcerados em sua própria terra. Eles de fato pertencem a sociedade e não a classe dominante que não é a possessoras dos meios de troca, ou títulos de propriedades, mas a impostoras destes valores como privilegio santificado e sagrado pelo dogma do dinheiro e da economia.

Definitivamente é possível se passar fome frio sem ser pobre e ignorante. Assim como é possível ter posses e riquezas enormes e ser de fato apenas o mais servil e humilhado dos escravos de uma ditadura. A riqueza não se separa da dignidade, assim como o politico, o econômico e o social também não. Uma vez, dividido, uma vez conquistado. E ai seus dominadores descreverão em seus livros de historia a estranha doença dos bárbaros que preferem morrer comendo a terra, do que servir esse delírio coletivo que chamamos de civilização.

O progresso tecnológico e econômico é inegável; a desigualdades de riquezas mesmo que não fosse produtiva ou necessária, não sendo violenta seria justa e ninguém teria nada como isso. O problema não é portanto a produção social (ou não ) de riquezas, mas a produção e reprodução estato-privada de pobrezas. Confundir a riqueza como a desigualdade de poder econômico produzida pela privação primitiva dos meios vitais reitera a exploração dos expropriados do bem comum pelo monopólio da violência. Isto é chamar o roubo de propriedade, e o trabalho forçado de emprego. É renegar a riqueza tanto particular quanto comum a quem de fato pertence como dever e direitos: a sociedade de paz. E isto tem se tornado cada vez mais tão obsoleto e obstrutor quanto era a própria escravidão clássica para a revolução industrial.

Os produtores de riqueza deixam todos mais ricos? Concordo, com você…agora só falta nos livrar dos que produzem de pobreza como poder.

Para fechar recomendo o trabalho de James Scott’s “The Art of Not Being Governed” onde o conceito de zomia é trabalhado aqui uma resenha:

E aqui o excelente trabalho de Kevin Carson Ⓐ sobre o tema:

Espero ter respondido com atenção e sobretudo a seriedade que as suas perguntam merecem.

Marcus Brancaglione

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