O que Spike Lee e Tarantino te contaram sobre a guerra da Síria e você não sabia

Aviso: este artigo contém spoilers sobre os filmes e o mundo

Dois dos melhores filmes sobre a condição negra e o supremacismo branco são Malcolm X de Spike Lee, e Django Livre de Tarantino.

Dificilmente você vai encontrar alguém que goste de ambos. Pelo contrário, quem gosta de um geralmente odeia o outro. Porém ambos são criticas ferozes a mesma condição só de ponto de vistas opostos, mas a partir de visões de mundo opostas.

Malcolm X retrata a luta negra com a dignidade e seriedade que o olhar do marginalizado exige. Django Livre, por sua vez retrata esse sofrimento de forma caricata, com violência estilizada e exagerada, mas justamente por que o faz como o olhar do outro: o da mentalidade branca. E o faz propositada e provocativamente. E esse é justamente a sua grande virtude. Ele é uma das criticas mais contundentes e bem feitas do supremacismo.

Django não faz uma leitura histórica da escravidão, ele usa a escravidão para expor e ridicularizar a desumanidade e hipocrisia do supremacista. Como ele já havia tentado fazer em Bastardos Inglórios, ele traz ao espectador a perspectiva mais nauseante possível a de racista branco, tanto na estética quanto na narrativa. E num filme comercial.

Robert Rodriguez seu colaborador mais próximo segue essa mesma linha de forma ainda mais subversiva e escrachada, como na paródia Machete, onde o protagonista não é nem uma ator americano, mas mexicano sempre relegado ao papeis de bandido e secundários. Seria mais ou menos como uma novela das oito protagonizada não por um Lazaro Ramos, mas por ator paraguaio desconhecido e com trilha sonora do Nelson Ned, em castelhano.

O primeiro filme que eu me lembro fazendo esse jogo com as referencias e preconcepções do espectador foi Era uma Vez na América de Sergio Leoni. Mas voltemos a Django, com essa subversão em mente.

Quando você assiste ao filme ele não está contando sobre o universo dos oprimidos, mesmo quando ele mostra seu sofrimento está expondo o universo do outro e a partir do seu olhar. Não é portanto um retrato fidedigno do sofrimento dos oprimidos “negros”, mas sim da perversidade da estética e (a)moralidade dos “brancos”.

E o que tudo isso tem a ver com o que a guerra Síria?

Quem não assistiu o filme talvez não entenda, porque o desfecho pode não fazer muito sentido sem todo o contexto e seu prelúdio (os flash do personagem de Waltz ao som de Bethoven). Mas a cena que diz tudo é esta:

Revejam o que acontece quando eles negociam a vida e liberdade dos outros. E antevejam “onde”, “porquê”, termina a sua diplomacia e principalmente “como” esses homens civilizados resolvem derradeiramente seus impasses.

Infelizmente, olho para Síria e penso Tarentino esta certo: eles não são apenas péssimos perdedores, eles são ainda piores vencedores.

Em Hateful 8, Tarantino então vai além. Deixa ainda mais explícito qual é o verdadeiro zeitgeist desse mundo dos homens, hipócrita e decadente, na cena final do enforcamento da mulher seguido da leitura da carta (falsa) de Lincoln:

Bem, mas Tarantino exagera, banaliza a violência, não e? As coisas não são assim… elas não terminam assim… não é mesmo? Afinal, Jesus olha por todos nós.

Todos nós, não?

A foto do menino Sírio afogado, já não perturba mais como antes. Porque nunca foi a morte dele que incomodou, mas o que sua imagem mostrava. No fundo ninguém se importa com o fato de que elas continuam morrendo, desde que o façam longe dos nossos olhos e não violentem nossa delicada sensibilidade. O insuportável para a moral dos “civilizados” não é o sofrimento alheio, nem a imagem ou representação violenta, mas a visão do reflexo monstruoso da sua alma refletida no espelho da arte.

O problema é que não é mais a ficção que a denuncia.

http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2016/10/14/super-herois-entram-em-acao-contra-massacres-em-aleppo.htm
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