Certa vez ouvir falar sobre “Crise de direção”.
Jairo Bastos
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Obrigado pelo comentário.

Correto. Crises de Direção, Quarta Internacional... É um debate marxista- trotskistas do século passado, mas ainda presente em certos círculos acadêmicos e partidos políticos.

Confesso que li e conheço muito pouco dos seus escritos. Até porque meus princípios e referências, tanto teóricas quanto práticas, são outras, e estão infinitamente mais próximas de pensadores libertários atuais tanto capitalistas e socialistas, e até mesmo dos anarquistas contemporâneos e antagonistas a Trotski e bolcheviques (partido do qual Trotski fazia parte, antes de ser expurgado e depois assassinado por eles) do que deste ou daqueles.

Nisto meu proceder é bem mais mais do ativista escaldado do que a do teórico incauto: que eles que são brancos e vermelhos que se entendam. Me interesso, por exemplo, muito mais pelas críticas de Errico Malatesta a Plataforma Organizacional dos Comunistas Libertários, uma espécie de “União Geral dos Anarquistas”, proposta pelo ucraniano Nestor Makhno do que a Quarta Internacional de Trotski do qual Makhno por sinal teve que enfrentar bem mais do que somente argumentos.

Eis um trecho da crítica de Malatesta a Makhno:

“A responsabilidade moral (pois no nosso caso não pode senão tratar-se de responsabilidade moral) é individual pela sua própria natureza. Apenas o espírito de dominação, nas suas diversas manifestações políticas, militares, eclesiásticas, etc., pode ter considerado responsáveis homens por aquilo que estes não fizeram voluntariamente.” — Malatesta

E outro da crítica de Makhno ao regime do partido comunista russo, que não foi o primeiro nem infelizmente o último:

O 14º Congresso do Partido Comunista Russo condenou sem paliativos a noção de igualdade. Antes do congresso, Zinoviev tinha mencionado essa noção no decorrer de uma polêmica com Ustrialov e Bukarin. Declarou então que toda a filosofia contemporânea estava baseada na ideia de igualdade. Kalinin falou energicamente durante o congresso contra este parecer, defendendo que nenhuma referência à igualdade podia ser de utilidade, mas antes prejudicial e que por isto não devia ser tolerada. Os seus raciocínios foram os seguintes:
“Podemos falar de igualdade aos camponeses? Não, de modo nenhum porque, nesse caso, se poriam a exigir direitos iguais que os operários, o que estaria em contradição absoluta com a ditadura do proletariado. Podemos falar de igualdade aos operários? Não, de modo nenhum, porque podem questionar por que razão um membro do partido comunista e outro que o não é, fazendo o mesmo trabalho, o primeiro recebe um salário duplo no segundo. Para conceder a igualdade haveria que permitir que os que não são membros do partido comunista exigissem o mesmo salário que o de um comunista. Camaradas, seria isto aceitável? Não, de maneira nenhuma. Podemos falar de igualdade entre os próprios comunistas? Também não, porque ocupam diferentes posições, tanto em relação aos seus direitos como a suas circunstâncias materiais”.
Com base nestas considerações, Kalinin concluiu que o uso por parte de Zinoviev da palavra “igualdade” apenas podia considerar-se como demagógico e nefasto.
Na sua resposta, Zinoviev expôs ao congresso que, embora tenha falado de igualdade, havia-lo feito com um sentido diferente. Tudo o que tinha em mente, disse, era a “igualdade socialista”, isto é, a igualdade que um dia num futuro mais ou menos próximo será uma realidade. Para o tempo presente, até que chegasse a revolução mundial (e não havia maneira de prever quando isso iria ocorrer), não se podia sequer colocar a questão da igualdade. Em particular, não podia haver igualdade de direitos, porque isto seria arriscar uma viragem em direção a desvios “democráticos” muito perigosos.
Esta interpretação da noção de igualdade não saiu em forma de resolução do congresso. Mas, na essência, os dois bandos que se enfrentaram no congresso estavam de acordo em que a ideia de igualdade era intolerável. (…)
Os anarquistas alertaram em todo o mundo os trabalhadores de todos os países para os crimes bolcheviques durante a revolução russa. O bolchevismo, encarnando o ideal do Estado centralizado, tem-se mostrado como o inimigo mortal do espírito livre dos trabalhadores. Recorrendo a medidas sem precedentes, sabotou o desenvolvimento da revolução e destruiu os seus aspectos mais sublimes e dignos. Com uma máscara bem sucedida, ocultou o seu rosto verdadeiro aos trabalhadores, apresentando-se perante eles como o campeão dos seus interesses. Apenas agora, após um reinado de oito anos, cada vez mais próximos da burguesia internacional, começa a retirar essa máscara e a mostrar diretamente ao mundo do trabalho o seu rosto de rapace explorador.
Os bolcheviques abandonaram a ideia de igualdade, não apenas na prática, como também em teoria e o mero enunciado desta parece-lhes hoje perigosa. Isto é compreensível, pois o seu domínio repousa sobre uma noção diametralmente oposta, numa sangrenta desigualdade, no horror mais absoluto cujos males se abateram sobre os trabalhadores. Esperemos que os trabalhadores de todo o mundo retirem as necessárias conclusões e por seu turno deem cabo dos bolcheviques que são os defensores da escravidão e opressores do Trabalho. -Nestor Makhno: A ideia de igualdade e os Bolcheviques

Definitivamente, me interesso mais por esses personagens e suas ideologias enquanto contra-exemplo histórico de revolução e da corrupção dos seus ideários do que qualquer outra coisa. Pois em matéria dos piores crimes cometidos (supostamente) com as melhores intenções, não ficam atrás de nenhuma das grandes ideologias concorrentes…nem as eclesiásticas, nem as imperialistas.

Quando releio textos como esse de Trotski, como o fiz para redigir essa respostas , nunca deixo de me surpreende como a partir de uma série de pressupostos e leituras históricas e econômicas as vezes bastante corretas, eles saltam para conclusões autoritárias das suas ditaduras de classe -conduzidas é claro pela sapiência deles- sem mais; como se elas e a sua direção fossem absoluta e fatalisticamente lógicas e naturais.

Enfim, ao meu modo particular de ver, esses pensadores e suas obras não deixam de ser em essência outras roupagens, hoje também já velhas e rotas, destas mesmas, e mais ancientes ainda, formas de cultura de poder e seus regimes autoritários. Pertencem aquela categoria de discursos que um leitor libertário depois de desembrulhar os argumentos até pode aproveitar alguma coisa da embalagem, mas do conteúdo nada, joga-se fora junto com métodos e propósitos supostamente “realistas” e “pragmáticos” que eles se auto-proclamam. Mas justiça seja feita: não os únicos.

Espero ter acrescentado alguma coisa.

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