Policiais, manifestantes e eu virando uma barata

Quem e o quê ganham os que querem os conflitos dos dois lados

É muito difícil para qualquer um de nós fazermos analises imparciais. Não importa o tema. Por isso já adianto que essa questão é muito mais complexa e este texto não vai conseguir compreender toda a complexidade de suas perspectivas. Mas vou por alguns instantes deixar de lado minhas convicções para tentar entender essas outras visões e ver se consigo ao menos ter alguma ideia do porque disso.

Primeiro, não quero mascarar minha posição e fingir que não tendo de antemão a favor dos manifestante. Isso não quer dizer que vá defender todas qualquer bobagem ou canalhice que por ventura eles façam, mas não vou fingir que não tenho opnião formada ou posição. Compartilho da visão de quem acha que a policia deveria mudar completamente sua abordagem. Mas isso não importa. Porque como disse não vou partir desse pressuposto. Nem interessa o que eu acho ou deixo de achar. Mas sobre o podemos concluir a levando em consideração os que os dá para supor que passa na cabeça dos dois lados que entram em confronto o da policia e dos manifestantes.

Não estou falando das suas justificativas ideológicas superficiais. A defesa da ordem, ou o protesto pela causa social. Estou falando do que leva e aqui não vou generalizar, elementos dois lados a mesma certeza absoluta de que o outro é seu inimigo e que não só pode atacá-lo fisicamente, mas deve.

A questão que levanto é porque os dois lados que evidentemente jurar de pé junto que não querem provocar confusão nunca mudam seus procedimentos. Porque os dois lados continuar fazendo absolutamente tudo exatamente igual mesmo sabendo exatamente onde vai dar. Lógico que não sou ingenuo, não espero que o policial louco para dar borrachada ou seu comando que o sabendo que vai provocar um confronto desnecessário jamais admitirá seu intento. Nem muito menos o ativista que vai insufla, agita ou até literalmente empurra seus companheiros para ir ou levar porrada vai assumir o que fez. Mas me pergunto o que eles ganham com esse jogo, ou mais precisamente o que cada um deles, ou cada lado ganha quando o conflito ocorre? Há uma razão? Não dá pra pressuspor só ignorancia desta ou daquela parte ou fetiche deste e daquele em bater e apanhar? Isso é mais do que ridículo? Mas qual o intuito?

Esqueça então o discursinho padrão da policia de que está cumprindo seu dever e do manifestantes que só seguir o seu protesto em paz. Tem gente que acredita e está lá só pra isso, mas não se fosse um ou outro gato pingado dos dois lados não eles seriam contidos, ou já teriam sido expulsos da corporação faz tempo ou retirados dos movimentos. O negocio é que tem gente inocente ou boba como você preferir, mas o resto pode nem estar lá pra isso, mas no minimo não liga, não vê problema se rolar uma treta, pelo contrário, os dois lados acham que faz parte.

Mas como assim? A policia o que ganha com isso ? Os manifestantes o que ganham com isso? Que cultura é essa?

Isso é um absurdo todos perdem? podem dizer. Sim, concordo, todos perdem, é um absurdo, mas não para os dois grupos e seus simpatizantes. Como disse não é o que eu ou você leitor o que conta. Para entender porque, a policia vai de novo descer o cacete, e alguém estar lá para tomá-lo.

Aqui preciso fazer um parenteses, não confundam esses manifestações organizadas por movimentos e partidos politicos com protestos populares. Há uma diferença gigante não apenas de espontaneidade, mas tanta as vezes que o quando aquele que protesta ou apanha periferia não protesta por que gostaria de se posicionar contra uma injustiça ou em favor de uma causa, ele protesta por não pode escapar, sua revolta é explosão com problemas quando ele não consegue mais suportar nem fugir deles. Sem julgar se está certo ou errado, o fato é que o povão não entre em confronto com a policia porque quer, se você perguntar a maioria vai te responder que quer se ver livre da policia ou da violência policial. Mas todos querem viver sua vida em paz. Pobre não precisa procurar confusão e borrachada da policia, alias se procurasse tava morto, ele tem é que fugir como pode. E quando apanha pode escrever, quase nunca nem sabe porquê tá apanhando nem o policia porque tá batendo.

Então não confunda a burguesia de esquerda com os pobres e excluídos, nem as manifestações dos primeiros como protestos e revoltas populares do resto. Essas manifestações podem não ser iguais a dos coxinhas, mas estão mil vezes mais próximas das deles, do que de um protesto da população mesmo. Esses aliás, só aparecem na midia até mesmo a que se diz de esquerda como baderna vandalismo ou coisa de bandido mesmo. E termina com invariavelmente com gente inocente morta.

Na verdade esses conflitos, são eventos muito similar aos conflitos de torcida organizada, não apenas no desfecho violento, mas no comportamento. E entender a pisque de todos que participam deles, seja como membro ativo ou torcedor. Militante e soldado, ou parte da opnião pública amiga ou inimiga deste ou daquele lado. Entender essa mentalidade dos opostos que não vivem mais sem se odiar e de quem entrar dispostos a bater e apanhar pelas suas bandeiras, ajuda a entender que o confronto não é só consequência aceitável, é o prêmio.

É preciso olhar para eles como as torcidas para qual cada grupo está jogando. E só dá para ter uma ideia do que passa na cabeça dessa gente quando você, veste, como experiência mental a camisa desses seus times, e não só como mas principalmente como comandantes. É preciso olhar para esse conflito do ponto de vista de quem acha que isso faz parte de uma estratégia.

Vamos começar nos vestindo da ideologia dos torcedores de cada grupo.

Primeiro a da extrema direita. Para ter uma ideia do que exatamenente passa pela cabeça deles hoje não é difícil, não há segredo, basta lê-los nos comentários de quem defende as ações repressivas até mesmo criminosa quando sai uma noticia de violência absurda contra qualquer um que seja considerado um lixo social. Quando um policial ataca um manifestante pacifico ele é recriminado por quase todo mundo, mesmo quem não é defensor profissional dos direitos humanos, mas na direitada eles ainda será aclamado por quem odeia esquerdista, pobre, preto e marginal.

Agora vista a ideologia da velha esquerda, aquela que nunca erra só se equivoca, que nunca é algoz, só é vitima até quando é governo. Mesmo quando eles cruzam a linha e atacam, ou pior jogam os outros no conflito e saem correndo. Eles são recriminados por todo mundo, mas ainda sim são aclamados ou vitimizados dentro de seus círculos.

Mas estes são só os peões, os soldados. E os comandantes? E os lideres e incitadores? Aqueles que realmente insuflam as animosidades e dão as ordens? Os inimputáveis. Aqueles que quando dá merda nunca estão lá nas linhas de frente, nunca assume responsabilidade por nada. Os generais que mandam seus subordinados pra fazer o serviço sujo e se quebrar enquanto fazem as guerras e pazes juntos. O que a interessa a eles esses confrontos? Um governador não perde votos ao mandar sua policia descer o cacete no povão? Que prefeito ganha com uma militância posta para apanhar?

Não. Não, só não perdem nada. como fidelizam e reforçam ainda mais o apoio que tem naqueles círculos que sustenta politicamente e que não mudam sua opinião nem se cair um elefante na sua cabeça.

Veja os Alkmins da vida, por exemplo, ele não perde um maldito voto quando manda quebrar estudante, porque seu eleitor não só vibra ele se esporra todo quando um coitado perde um olho. Cada borrachada é voto e tesão garantido no curral da direita. E se tinha gente que começa a duvidar da virilidade do xuxuzão que ele não tem tinha bago pra “botar esses vagabundos na linha”; dois ou três coitados mutilados podem não aplacar as saudades do Fleury e Carandiru mas pelo menos tira toda essa paixãozinha besta pela família Bonsonaro.

Já os Haddad da vida não perdem um voto nem se mandarem 300 estudantes para um massacre, nem se for para salvar o Lula ou uma Dilma, eles não perdem vidas ganham mártires. E renovam o apoio dos que acham que tudo os fins justifica os meios para suas causas malditas. Porra, já pensou se eles matam um moleque, bem que podia ser uma criança aí é que a gente se vitimiza mesmo. E o Amarildo? O Amarildo que se foda. Já era. Ninguém mais lembra dele.

A direita ou esquerda a politica tem sua magia e ela é sempre negra, ou melhor de branco: precisa do sacrifício de sangue novo para renovar seus votos, e quanto mais novo melhor.

Haddads só perdem votos quando, por exemplo, tira os colchões dos moradores de rua. Ai já era. E mesmo assim só entre aqueles que ainda não foram completamente alienados, porque com a militância fanática não a o que não se possa racionalizar nem contemporizar, é futebol e religião. O líder nunca é o culpado.

Não adianta pode fazer o que quiser de errado que com os seus fieis nunca perde com eles. Assim como pode acertar o quanto quiser, ou pior errar, pode até tacar fogo em índio que com a paulistada racista e higienista eles nunca vai ganhar um crédito, porque só tem uma coisa que eles odeiam mais do que pobre ou carioca: petista.

Não apenas por justiça, mas por lógica, o mesmo raciocínio vale para o outro lado. Alkmins só perdem voto com essa paulistada desvairada quando, por exemplo, se aproximam dos movimentos sem terra. Para quem não sabe ou acredita ele o fez. E não importa o quão justo seja a demanda atendida, não ganhará absolutamente nada com a esquerda que quer vê-lo morto, só perde com a base fiel do seu eleitorado que quer os sem-terra jogados na mesma vala que os sem-teto e mendigos e claro petistas.

E esse é ponto. A hipocrisia abismou.Abriu um precipício ideológico intransponível entre as partes que se julgam politizadas e dividem a sociedade. Ninguém vê mais gente do outro lado por trás das fardas e bandeiras ou movimentos sociais, ninguém consegue ver mais o humano do outro lado apenas o inimigo. Toda ação recriminável ou meritória de uma ou outra parte tem o mesmo efeito sobre os seus fieis e inimigos, só reforçam as apologias de ódio das bolhas ideológicas que eles se enfiaram e não saem mais.

E isso não é um fenômeno local, mas mundial. Não estamos falando de solidariedade de classe ou raça excludente e segregadoras. Mas de discursos de ódio entre os diferentes. Não estão falando de ocupar os espaços públicos. Mas de expulsar os desiguais deles. Não estamos falando mais de discursos de inclusão social, mas de exclusão.

Entre eles não há solidariedade com ninguém, nem mesmo para com aqueles que eles dizem defendem. Os dois lados estão pouco se lixando com as pessoas por trás das convicções, elas não são nada, só objetos de sua disputa, a desculpa para pagarem de bonito para os amigos e depois se xingarem.

Nem a direitada tá ligando pra policia que morre ou ficam em cadeiras de roda defendendo sua “família e propriedade” desde continue morando na periferia e recebendo salario de miséria. Nem os manifestantes que até fingem que defendem os marginalizados, se lembram deles depois das eleições, ou quando escapam da cadeia. Os dois lado batem a foto, e postam suas posições politico-gourmet no facebook, e depois não querem nem saber se o cara tá traficando, cheirando, miliciando, morreu ou mataram. Não querem saber de nada, dane-se, é massa de manobra. Quem sabe quando tiver um bico de pedreiro ou assalto, o fascista e o esquerdista se lembrem de novo dessa gente que eles tanto amam e odeiam.

De qualquer forma, ninguém precisava ser santo. Mas vou repetir o que tentei falar pros gringos. Todo mundo se acha são e civilizado, e a esquerda ou direita, trabalhador ou burgues, policial ou manifestante ninguém come coco, nem carne humana só porque ninguém está olhando. Suponho.

Todo mundo faz e não faz um monte coisas mesmo sem poder postar no Face ou Instagram, mas socialmente não liga de comer e rolar nessa merda social não liga se o que ele come comer é feito de carne de cachorro, jegue ou de gente. Ninguém tem vergonha e a palavra certa é vergonha de viver como um porco chafurdando num mundo onde as pessoas ainda matam e deixam morrer usando seu dinheiro dos nossos impostos ou pior o seu trabalho suado.

Tem nojo de pobre, tem nojo das feridas humanas mas não sentem o fedor insuportável das suas almas Não o mal-estar da civilização não fede ele doi. Doí na alma.

Compaixão não é um sentimento nobre, mas um instinto tão natural e egoísta quanto a vaidade. É uma dor pelos outros sim. mas que você sente em você. E que não te faz melhor que ninguém, mas a precariedade dela nas pessoas e sobretudo nas sociedades é insustentável.

Sem essa inteligencia solidária não teríamos evoluído e sem ela estamos condenados a extinção por seleção natural. Sem essa sensibilidade imediata o organismo não tem como reagir em rede, ou coordenadamente contra uma ameaça, não antes que cada membro, célula ou elemento destruído um a um por qualquer ameaça ou perca a sua vida autônoma seja para o predador ou sistema de defesa. A perda ou ausência dessa conexão, a incapacidade de reação cooperativa a perigo que o sofrimento alheio no não apenas imobiliza a sociedade acovardando seus membros até a morte e extinção. Ela nos deixa completamente vulneráveis, dispersados alista e até mesmo alista joga uns contra os outros os aterrorizados e fidelizados.

Não estamos apenas nos desnaturalizando e imbecilizando, estamos destruindo qualquer esperança de cosmopolitização para a humanidade que nunca fomos. Quando olho para a diferença entre os adultos e as crianças. Quando olho para a promessa e potencial do que poderíamos ser, e o que no final nos tornamos, não consigo deixar de pensar em que ponto a humanidade se perde? O que afinal nos desliga uns dos outros? O que afinal de contas destrói todo o nexo, o sentimento que deveria nos humanizar? E penso principalmente como é fácil ver a loucura dos ritos cultos e culturas alheias, mas e as nossas? o que precisamos passar para nos livrar da nossa aculturação e nos (re)humanizar?

O fascismo a xenofobia estão profundamente ligados a uma ideia de higienismo primeiro social depois nacional que inevitavelmente para a racial e termina em eugenia e holocaustos não mais passivos mas positivos. Dos sinais que antecedem a queda nesse abismo, não há nenhum mais alarmante de quando os cegos passam a guiar os cegos.

Bombas explodiram em Nova Yorque. Na Alemanha a extrema direita reemerge. Na Síria e no mundo a guerra e a crise de refugiados parece que não vai encontrar fim, antes dos canalhas do mundo terminarem de executar seus genocídios.

E no Brasil?

Bem no Brasil continuamos a ser o povo mais cordialmente falso e hipocritamente solidário do mundo.

Nunca senti tanto a falta de uma renda básica verdadeiramente para todos.

Nunca nosso pequeno projeto social foi tão pequeno.

Me sinto como a barata de Kafka.

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