Porque eu continuo radicalmente contra todas as formas de violência, seu culto tolerância oposição seletiva, reativa ou não-ativa

Legal ou ilegal. Institucionalizada ou revoltada. Seja como privação, violação, agressão, ameaça. Seja como prerrogativa ou licença do seu uso. A violência é a própria materialização do maldade. O seu culto do mal. E sua institucionalização do corpo desta bestialidade.

O que a critica de Gederloos reforça não é só o papel nocivo de todas as forças de violência. Mas o quanto a nossa omissão e tolerância como suas formas culturalmente e institucionalmente aceitas contribuem para ela. Assim como a mera denuncia repudio ou renuncia não produzem absolutamente nada para quebrar as causas geradoras desse mal ou quebrar o seu ciclo.

Gelderloos acerta ao criticar a nulidade da não-violência e até por vezes instrumentalização da mesma para facilitar a violação e violência. Mas não propõe nenhuma estratégia que de fato seja capaz de sair desse dilema.

A violência só é legitima como defesa. Ou seja como reação. E como reação nunca age para proativamente para eliminar as causas geradoras do mal antes que ele ocorra. E se age então se enquadra na doutrina Bush, do ataque ou ameaça preventiva, que faz deste tipo de prevenção a própria violência o praticamente dela a encarnação de fato da ameaça que busca evitar.

Quando a legitima defesa se configura seja contra um bandido ou um governante, seja contra o terrorismo do Estado ou do revolucionário. A reação violenta não é solução mas consequência. E consequência da falta de capacidade de quem tem consciência, inteligencia, meios e poder para detê-la e não das vítimas que não podem fazer nada senão defender-se como todos os meios necessários. ou dos violadores que por definição não tem interesse em findar a violência nem o estado de violência que instauram legal ou ilegalmente.

Quando somos obrigados, e é inegável que a situações em que acabamos chegando a isso, mesmo que em legitima defesa já perdemos. A legitima defesa seja para libertar um povo de uma tirania seja para protegê-lo da instauração delas não é o pilar de sustentação do estado de paz, mas a comprovação de que ele não existe como contrato social com capacidade suficiente de proteger as pessoas das violações e conflitos. É o sinal que não eliminamos as causas sociais do problema e consideramos estupidamente o confronto ou a sua ameaça como a solução para a resolução dos conflitos derivados e inerentes a falta dessa proteção social universal.

Não se luta contra a violência sua cultura e institucionalização com a mera renuncia a violência, ou com como legitima defesa. Mas literalmente cortando o mal pela raiz, promovendo a redistribuição equanime das forças como meios de vida para subsistência e consequentemente autodefesa. De tal modo que não existam nenhuma desigualdade de poderes e forças suficientes para violar ou violentar ninguém, nem ninguém privado de meios para se tornar vulnerável a violação e violência dos demais. O que na em tese se faz eliminando universalmente as prerrogativas de violências inclusive estatais e na prática restituindo os meios de vida e direitos naturais ao bem comum a todas as pessoas.

Os atos violentos que continuaram existindo não terão a força para subjulgar tal a defesa mútua dos iguais. Mas é a força de dissuasão dessa defesa mútua o elemento fundamental constituinte da paz. E sim a presença de um politica social proativa de eliminação da desigualdade de poder e liberdades fundamentais. A prática politica social é a própria base do ativismo que visa desconstruir tanto a cultura da violência quanto ao mesmo tempo as causas matéria político-econômicas que a alimenta como estado condição ou relação de poder entre os homens.

A não violência como mera passividade é inútil. Somente a contra violência enquanto ato proativo de extinção da violência em todas as suas formas da segregação do outro, sua coisificação até a privação dos seus iguais direitos naturais ao bem comum é capaz de compor a resistência inclusive se preciso for com uso da legitima defesa. Porque saco vazio não para em pé, nem física nem moralmente.

Desconheço ato mais revolucionário e subversivo contra a violência do partilha do pão. Ele não apenas multiplica os peixes. Ele derruba impérios sem tocar num fio de cabelo dos imperadores. Porque antes de tudo devolve ao ente dotado de livre vontade o seu direito inalienável de decidir qual caminho tomará se o do respeito e defesa da humanidade ou sua exploração, se da paz ou violência. Devolve ao ente a condição fundamental de resistir ao império da violência e o mal da sua disseminação: a falta de meios para dizer não inclusive a violência. A falta de meios para não ser obrigado a lutar por sua vida, liberdade e dignidade com todos os meios necessários.

Não conheço nenhum direito mais fundamental nem luta mais libertadora e revolucionária do que a conquista do pão. Ou o que é a mesma coisa o direito de ganhar o seus sustento com o suor do seu rosto, e não comendo da mão de quem vive as custas dele.

A paz não se conquista destruindo quem tem as armas, ou vive as custas da violência. A paz se conquista distribuindo o pão para que as pessoas possam ter a força do corpo e da alma, a dignidade e vitalidade de quem não precisa de vender em troca da subsistência para sustentar elas mesmas sua armas e derrubar seus tiranas. Para que as pessoas livres e empoderadas sejam a força da sua defesa e constituam a supremacia. Mas no dia que elas assim libertas constituírem a maior força. E os antigos senhores os desprovidos de escravos que lutem suas guerras por eles. Se nesse dias eles fizerem o uso dessa força serão eles agora os violentos.

O que caracteriza a violência é portanto sempre a covardia de quem num dado lugar ou momento use de sua posição eventual ou sistematizada de sua força ou poder para violar e violentar o outro. Seja um bandido, um soldado, um rei ou revolucionário. Assim como aquilo que caracteriza a pessoa, comunidade e estado de paz é justamente o contrário, aquele que usa não cruza os braços, ou renega a violência e violação mas usa de todos os meios que possui por menores que seja para construir um tempo e espaço de paz e liberdade nesse mundo. Morrer todos vamos senão perante a violência do outro perante a ditadura inescapável da lei da vida e do tempo.

Como vamos viver e quem seremos nesta breve passagem pelo mundo essa é a revolução que nos pertence por direito nessa vida. Definir quem somos e o que faremos mesmo perante as piores privações ou dilemas existenciais. Muito mais do que o resultado concreto de nossas ações ou tamanho delas é a relação do que podíamos fazer e fizemos que dá sentido a nossa existência. Nenhuma revolução capaz de devolver ou dotar o ser dotado da sua anima e vocação é uma verdadeira revolução. É libertação.

Porém Gelderloos tem razão em um ponto. Essa possibilidade de poder escolher livremente nosso destino é uma dádiva, uma privilégio. Podemos usar delas dela com inteligencia para libertar e construir uma paz universal, dentro dos nossos universos enquanto podemos ou fingir que fazemos muito quando reclamamos ou não fazemos nada e esperamos para perder inevitavelmente esse privilegio. e sermos obrigados a lutar por nossa vida e liberdade com todos os meios que ainda tivermos sem podermos mais decidir se queremos ou não.

E mesmo essa luta ainda sim seria um privilégio. Porque não há destino pior do que não fazer nada quando podemos mesmo com o pouco que podemos. Porque depois na melhor das hipóteses é o nada o que nos aguarda.

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