Que importa quem será o presidente? Se não é você que o elege nem o despede? (Parte 2)

Uma leitura libertária informal da história “recente” do Brasil

Introdução

A redemocratização do Brasil, está casada com a queda do muro Berlim, da mesma forma que a ditadura está com o apogeu da Guerra Fria surgida. Um guerra entre o Primeiro Mundo (EUA e países capitalistas) versus o Segundo Mundo (União Soviética e países comunistas) pela hegemonia do Mundo, onde o confronto não foi direto, mas dado em guerras econômicas, culturais, politicas e ideológicas e militares no teatro de operações do Terceiro Mundo. Guerras que iam desde da propaganda, espionagem e sabotagem até a luta armada com fuzis ou mísseis (até com a participação de um ou outro exercito dessas superpotências diretamente no campo de Guerras como a da Coréia, Vietnã, Afeganistão, ou mais discretamente nos golpes, ditaduras e porões de tortura como no Brasil e America Latina. Isto estão hoje fartamente documentados nos próprios arquivos norte-americanos e são matéria de vestibular.

O resultado todo mundo sabe. Caiu o muro de Berlim. Ou seja a divisão dos espólios geopolíticos da segunda guerra estava desfeita. Com a Perestroika, a União Soviética se dava por vencida na disputa. E já não era mais “necessário” para os EUA manter ou apoiar ditaduras para ter governos capachos e suas áreas de influência geopolítica e econômica preservadas, os quintais e as as repúblicas de bananas eram deles. E a democracia já não era mais um risco, já que o leque de opções estava enfim devidamente delimitado aos compreendidos por seus agendas e interesses.

Uma pausa.

Porque toda essa maçante introdução didática de vestibular sobre a guerra fria e o imperialismo norte americano?

Não este texto não busca encaixar o paradigma libertário dentro dessa visão bipolarizada de mundo nascida da divisão dos espólios entre os vencedores militares e ideológicos da Segunda Grande Guerra Mundial, nem muito menos tomar partido de nenhum destas vertentes até porque consideram ambas socialistas e liberais ultrapassados.

Assim sendo não adotarei a redução bipolar do mundo pós-guerra entre comunistas e capitalistas. como não empregarei exatamente a terminologia. E enumero as razões:

Primeiro porque ela não compreende as várias tendencias do espectro politico de hoje.

Segundo porque ela não compreende sequer as tendencias que guardavam características hibridas como a social-democracia mais liberal ou mais socialista dependendo do ponto de vista, se mais radical a esquerda, liberal ou neoliberal. se mais radical a direita, de direita, socialista ou comunista.

Terceiro porque o que se chama genericamente hoje de capitalismo é propriamente liberalismo. E o que se chama de genericamente de comunismo é particularmente só uma vertente do socialismo.

E quarto e mais importante de tudo, porque o que emergiu da vitória do liberalismo, o chamado neoliberalismo, se configurou como capitalismo de Estado inclusive nos países onde figurava não propriamente o liberalismo, nem a social-democracia, mas o socialismo com muitas comunistas.

Assim sendo essa introdução serve justamente para restabelecer a percepção da diversidade de posições politicas ditas e vendidas como mortas tanto por comunistas quanto capitalistas exatamente porque eles que nunca morreram voltaram para disputar mentes corações e territórios com eles e algumas delas para assombrar de novo a humanidade.

É importante ter em mente essas nuances porque enquanto muitos dos velhos polarizadores do mundo EUA e Rússia são favoráveis a reconstrução da velha e boa guerra fria entre comunistas e capitalistas, leia-se fazer das periféricas do mundo (América, Africa, Asia) de novo o teatro de batalha das suas guerras. novas potencias geopolíticas emergentes como a China comunista é hoje paradoxalmente hoje a maior defensora do grande baluarte do neoliberalismo dos queda-do-muro: a globalização. E coloca paradoxal nisto, porque, enquanto isso o velho império britânico, que muito antes do ser o mero maior aliados de todas as guerras dos EUA, foi a terra do liberalismo e imperialismo modernos, se fecha num nacionalismo que lembra a queima da frota chinesa (comandada pelo muçulmano Zheng He) durante a Dinastia Ming que depois fechou a China em muralhas. Isolamento aliás que “curiosamente” só foi quebrado, e a força, pelo imperialismo britânico na Guerra do Ópio.

Parece tudo mundo confuso e é, mas só se você não se livrar do velho paradigma bipolar (e autoritário) do mundo. Dentro do paradigma libertário nada disso parece contraditório como pode ser até certo ponto previsível. É simples, tudo parece incompreensível numa visão linear e bipolar, porque falta não só variantes dentro do espectro politico-econômico, mas porque faltam eixos para dimensionar no tempo e espaço os movimentos sociais, políticos econômicos e suas ideológicas. É um mundo tridimensional, ou melhor quadrimensional se além das três eixos espaciais inserirmos as coordenadas do tempo reduzido a uma lógica que vezes beira o binário![1]

Atores e ideológicas que foram supostamente suprimidos em definitivo ao final das duas guardes guerras voltam a se tornar relevantes nos campos monopolizados por marxistas, e liberais ortodoxos. Posições ideológicas que na verdade ao longo do tempo se tornaram no eixo da práxis ambas em diferente tempos, porque surgiram em tempos diferentes, cada vez menos revolucionárias, passando de progressistas a moderadas até enfim se tornarem posições conservadoras e até reacionárias na medida que passaram a combater os próprios valores de liberdade que nortearam lá em sua origem e juventude a concepção dos seus princípios.

Vamos aqui portanto falar do velho espectro ideológico politico-econômico dos séculos passado anarquista,comunistas,socialistas,social-democratas, liberais, monarquistas,fascistas,nazistas, dentro da própria alteração da percepção ao longo da história do que foi o revolucionário, o progressista, o reformista, o conservador, o contrarrevolucionário, até o reacionário. E isso tomando como eixo-base da observação o própria cerne da teoria libertária que compreende o eixo que vai gradualmente do libertarismo ao autoritarismo. Logo se a nova base da observação será a teoria libertária presente, o objeto da observação será o mesmo liberalismo mas sem deixar de mencionar seu par antitético: o socialismo. Não só porque num dado momento entraram em simbiose, e um passou a não poder existir sem o outro; ou porque se o liberalismo e comunismo dividiram o mundo ideológico e geopolítico no pós-guerra - pelo menos até 1989; Mas principalmente porque podemos considerar essa data o ponto culminante do liberalismo- onde ele passou a prevalecer após a queda da união soviética, mas também porque podemos considerá-la como marca da sua rápida derrocada — a qual ainda estamos vivenciando exatamente agora (e creio ainda não vai durar algum tempo).

Na próxima parte continuo sobre a decadência dos impérios liberais…

Nota:

[1]. Esse texto explica e aplica uma visão aprimorada do exposta no artigo abaixo:

incorporando as observações dos seguintes artigos: