REVOLUÇÃO ECOLIBERTÁRIA TRÊS

DAS REFORMAS POLÍTICAS E REVOLUÇÕES ECOLIBERTÁRIAS

ⒶRobinRight. 2015

Parte III

Não. A revolução não é apenas legítima, a revolução é impreterível quando o mundo estatizado e privatizado se torna tão artificial a ponto não só de legalizar o próprio crime contra a pessoa e a humanidade, mas perseguir tudo o que é sagrado e natural criminalizando qualquer tentativa de vida criativa ou inteligente ou simplesmente nova. A revolução não é apenas legítima, a revolução é uma necessidade quando os Estados de poder não só mais perseguem qualquer pessoa que tente reaver seus direitos e propriedades naturais, mas impedem cada nova geração de desempregados até do seu maldito trabalho precário e servil que possam voltar a colher o fruto da terra que não pertence aos estados, mas a eles por necessidade vital e herança natural.

Coitado do povo que dorme na merda achando-se em berço esplêndido. Coitado do povo que protela eternamente seu despertar e levante. Coitado de quem adia eternamente sua emancipação por medo da punição. Coitado do povo eternamente infantilizado e alienado que só faz esperar. O Estado em crise não devolve a soberania que roubou, ele a revende. Os governos não são só capazes de tomar liberdade e soberania de um povo para si, eles são capazes de revendê-la a outros Estados-Nações apenas para manter seus domínios, ainda que esvaziados e mais submissos que seu próprio povo. Todo poderoso é canalha o suficiente não só para vender a dignidade dos outros, mas antes de tudo a sua própria, não só para preservar os privilégios dos seus cargos e títulos, mas a superficialidade das suas aparências. O poder só é metafísico na usurpação do discurso sacramental, na prática ele é sempre materialista, objetivista e determinista. E só não é de fato maquiavélico porque não é racional, mas racionalizador. Ou como diz a sabedoria popular ele é feito de gente que vende até a mãe para pagar do que não é.

Sim, nem é preciso estudar muito, se você não vive nas cavernas ou academias platônicas, sabe o que eu sei, vê o que eu vejo, sente o que sinto: faz tempo que o Brasil é caso de revolução, e das mais justas e legítimas que já passaram sobre a terra. Para entender o Brasil não é nem preciso viver na pobreza, basta sair das sombras das racionalizações dos projetos e estados de poder. O Brasil não se explica pela exploração das potencias imperialistas, nem pela injustiça social das elites brancas. Sem dúvida o Brasil é explorado por elites nacionais e internacionais, mas não sem o subsídio de quem nos governa e a anuência interessada de quem governa nossos governantes. Mas nem mesmos estes, podemos chamar propriamente de elite ou qualquer coisa parecida. Porque embora supremacistas, como os próprios gringos bem colocam, nem mesmos estes, passam de pretos da casa que se pensam brancos, capitães do mato de senzalas ultramarinas. São meramente uma classe[1] que se acha apartada do seu povo tentado pateticamente ser identificada com o ridículo gene nobre de uma burguesia europeia decaída. Mas uma coisa há que se admitir: com suas árvores genealógicas; seus maneirismos; suas pretensões educadoras e civilizatórias não só não conseguem se igualar aos seus parvos referenciais supremacistas, mas superá-los no que há de ridículo e patético em prepotência.

O que o protofascista latino-americano cego de preconceito não consegue ver, é que se aos olhos de qualquer supremacista, inclusive ele, a vida de um pobre não vale a de um cão de raça, para os supremacistas do primeiro mundo, um rico sem raça daqui pode até valer um pouco mais que um pobre, mas não vale sequer a vida do cão de um proprietário da raça deles. O supremacista periférico tentando se esbranquiçar, tentando reproduzir o modo de vida daqueles que os desprezam, com muito mais inconsciência do que qualquer pobre que imita toscamente o rico, apenas reforça a sua condição parva e canina. Se para o pobre parecer branco diminuir o risco de levar um tiro nas costas e seu “esbranquiçamento” mais do que complexo de inferioridade é estratégia de sobrevivência num estado de guerra, para o rico, ou melhor, para quem se acha a nata da sua sociedade, Pavlov explica: sua imitação pseudo-europeia e sua raiva anti-tupiniquim é subserviência comportamental pura.

Não se pode, portanto dizer que o brasileiro tenha complexo de vira-lata, mas é inegável que há “semibrancos” na América Latina que não só renegam e odeiam sua origem e seu próximo e semelhante como juram que pertence à outra estirpe superior. O racismo, o supremacismo não são apenas intransigentes são intransitivos; são o mesmo tipo de estupidez que não se finda antes da autodestruição: se não houver objeto de ódio ou exploração inventa-se, e quando não sobrar ninguém além do último discriminador no planeta, sua mão direita enfim cortará a esquerda.

A ordem do poder é uma grande Zenith de Sinclair Lewis. Os supremacistas latino-americanos que juram que são a elite mais branca das Américas aqui do sul, não são senão aos olhos dos seus “irmãos” racistas do norte ou europeus, até mesmos ibéricos, mais do que um macaco latino-americano um pouco mais claro. Mas convenhamos, há uma certa justiça poética no racismo e poder: não só há sempre alguém que se acha mais, mas eventualmente sempre alguém estará por cima. A hierarquia social não é dada propriamente por luta de classes, mas numa grande ordem piramidal de gente defecando uma sobre a cabeça das outras, com o topo se alimentando dos mortos das bases misturados com sua própria merda e lixo. Mas não sejamos injusto, a tribo dos come-gente-com-bosta não são meros índios antropófagos, eles tem classe.

Entretanto o que há de mais peculiar nos sistemas de poder não são os hábitos dos seus homus domesticus, são suas estratificações sociais baseadas na carência deste tipo de fantasias de superioridade não só altamente indignificantes, mas tão corrosivas a própria sustentação do sistema quanto imprescindíveis a sua continuidade. Pouco importa os discursos libertários ou as força repressoras e reacionárias, onde as privações se tornam insuportáveis, os espaços naturais e recursos básicos se esgotam, a revolução não é só necessidade, é apenas uma questão de tempo. É inevitável. A ordem do poder é uma grande bomba-relógio. E o discriminado não precisa sequer tomar consciência da sua identidade ou ter uma para se revoltar; basta apenas saber como é classificado e desqualificado enquanto sujeito pelos supremacistas para compor sua identidade comum por contra-segregação e contra-discriminação e rebelar-se em comunhão sem nenhuma outra causa senão o fim solidário das suas privações.

Os sistemas de poder e preconcepção antes de ensejar seu fim macroeconômico, cairão pelo peso insustentável da sua cultura de alienação política e estagnação humana, e serão enterrados pelo seu insuportável cheiro de podridão e morte a cada nova geração perdida. Ao impor a privação cada vez maior a mais pessoas, os estados de poder vão criando as condições necessárias para a formação da identidade comum a todos os jovens segregados e sem perspectiva de ter até uma vida como empregados, quanto mais com qualquer chance de realização da sua vocação. Conforme os estados nacionais avançam em seus conflitos, a cada nova geração a humanidade vai por oposição emergindo não mais como ideal abstrato, mas condição evolutiva solidária necessária à sobrevivência da espécie. E mais do que um instinto ou estratégia de sobrevivência, a solidariedade vai se tornando a cada nova geração de sobreviventes dos holocaustos civis e militares uma característica mais e mais simplesmente humana. Os seres humanos vão se confraternizando não por visões e discursos vazios carentes de experiência de vida, mas sim aproximados por suas necessidades vitais, assemelhados por suas privações e unidos por uma mesma causa: sua libertação.

Os mesmos estados de poder que apartam os povos e classes com seus mitos e ódios culturais nacionais, religiosos e sociais ensejam contra seu próprio interesse a solidariedade e comunhão das pessoas em torno da libertação e resistência contra sua ordem. Não é propriamente a inteligência solidária ou libertária que enseja a revolução, mas a imbecilidade dos senhores da guerra e semeadores da discórdia universal e sua persistência na ordem opressora e repressiva. Sem violência nem privação, sem o roubo dos espaços e bens comuns e naturais para imposição de valores e concepções, sem a castração e esterilização das novas gerações e concepções, não haveria necessidade de conflito para as evoluções naturais e geracionais da vida. Mas quanto mais privada e precária é a vida mais vidas se perdem, quanto mais criminoso e violento for o estado, mais solidárias e humanas serão as novas sociedades e gerações não apenas dos filhos dos sobreviventes, mas até mesmo dos violentadores que se libertarão enfim do domínio dos seus pátrio-poderes sem perderem mais a sua juventude sendo convertidos em velhos frustrados e reprimidos carentes e tarados por poder.

Sim, o brasileiro tem um sério problema como povo: como todos os povos do mundo ainda não só não se livrou das lideranças usurpadoras da sua soberania, como também, ainda por cima, aceita como liderança nacional e internacional não só quem não o reconhece como igual, mas de fato o despreza como gente, raça e cultura[2]. Sim o brasileiro tem um problema, não só não se livrou do vício da submissão, nem dos seus líderes traficantes da sua soberania, como ainda os imita em idolatria ao poder e subserviência as potências e poderosos.

Política e economicamente somos uma nação vendida e refinanciada por cada governo tão autoritário e patriota quanto hipócrita e submisso nas alcovas aos outros Estados-Nações mais ricos e armados. O Brasil é um país sem soberania nem liberdade, mas não é uma nação dominada por elites brancas nacionais ou internacionais, e sim pela disseminação do complexo de inferioridade e superveniência mal disfarçado dos nossos supremacistas de terceira classe. Um povo adormecido pelo mito da salvação; desarticulado pela idolatria a autoridade; mas sobretudo alienado pela ausência de qualquer identidade que não seja a intermediada pelo culto ao mito civilizatório dos colonizadores de terras e mentes. Um povo dominado pelo culto alienista uniformizado como ideologia nacionalista de direita e esquerda, irmãs em hipocrisia e adoração ao poder e o ódio ao próprio povo e a própria origem disfarçada de glorificação da terra como pátria.

O Brasil não é o país do futuro, o Brasil é um país sem passado, o país da historia mitificada pela conquista. Não é um país a espera do futuro, mas a espera da sua própria história, o país a espera da tomada e acerto de contas com seu passado e presente. O Brasil não existe nem aqui nem agora, é uma ilusão, um mito legalista e realista. E enquanto não houver uma revolução constituinte da soberania: independência, república e democracia não seremos nada além do que sempre fomos: colônia de quem pagar mais aos vendidos no poder. País do Futuro? Terra livre dos preconceitos e fanáticos? Aqui? Um território libertário? Não duvido, tenho fé na Liberdade, mas não sem antes pôr fim a todos nossos vícios de séculos de subserviência e adulação ao poder supremacista e a própria subserviência como virtude.

Segregadas dos seus bens comuns, privadas dos seus diretos naturais, discriminadas em sua condição humana, a população brasileira não está em um país emergente, mas em campo de higienização e gentrificação, onde de forma dissimulada, lenta e velada, vamos exterminando filhos de nativos e escravos “mal nascidos”, ou o que é a mesma coisa, nascido sem direito de usufruto a nenhuma propriedade natural, particular ou comum. Como num holocausto por marcha forçada para lugar nenhum, entre um carnaval e outro, vamos de forma praticamente insensível, quase que imperceptivelmente, deixando-se matar e morrer populações inteiras até que enfim, se dê a formação da civilização brasileira, devidamente educada e aceitavelmente branca.

Bem, mas de certo modo estaremos mesmo a um passo de nos tornarmos um país verdadeiramente desenvolvido: bastará somente começar a repetir esse processo nos territórios de outras nações com anuência dos governos delas. Aí quem sabe, quando a guerra, a poluição, e todos os crimes contra a pessoa humana forem terceirizados e pararem de acontecer dentro de casa; quando passarmos só a bancar e receber os dividendos dos crimes governamentais não passaremos até a ser enfim bons cidadãos de primeiro mundo- civilizados e obedientes. Quem sabe não comecemos até a gostar de governo, burocracia, políticos e guerras. Ou na linguagem de quem leva e não de quem põe: Estado, forças armadas e liberalismo são coisas muito boas desde que socadas no dos outros.

Quem diz que para o Brasil mesmo com todos nossos problemas não falta nada está perfeitamente certo, temos tudo, o brasileiro não é um problema, ele não banca o coitado ele é um coitado, um currado que só precisa parar de ficar pedindo, por favor, a quem o coita para parar de violentá-lo; só falta ao brasileiro se levantar e se livrar dos seus usurpadores, tomar posse de fato do que já é seu por direito, só falta fazer o que sempre faltou: a revolução. Não muito diferente dos outros países do mundo, o Brasil não sofreu um golpe, o Brasil é um golpe. Mais precisamente, uma verdadeira sucessão de golpes contra seus povos nativos e imigrantes. O povo brasileiro ainda espera pela verdadeira independência, pela verdadeira república, pela verdadeira democracia. Ainda espera pela liberdade, mas o que tem a cada nova promessa é traição: um projeto de poder ao invés de libertação e um estado de exceção no lugar do de direito.

Não sei o quanto mais que outros lugares do mundo, mas o Brasil ainda espera por cada revolução necessária para levar uma terra a poder se chamar de fato Livre. Em verdade, o Brasil não espera por uma revolução, mas por todas. Todas as revoluções que nunca vieram senão como golpes e ainda precisam vir para libertar um povo. Todas as revoluções necessárias não só para retificar nossa historia tão falsificada como qualquer propaganda política ou dado governamental, mas para fazer desta terra um pouco mais do que um bando de semibrancos arremedos de racistas, com seus descendentes precarizando o trabalho servil do que sobrou ainda dos pretos, índios e mestiços. Prendendo e matando a bala os mais “indolentes”, e de fome os mais “vagabundos”.

Marx estava errado: quem toma o bem comum à revelia do direito natural não é apenas um ladrão ou acumulador compulsivo, explorador do trabalho ou usurpador de meios de produção, quem toma os meios vitais de todos para compeli-los ao trabalho forçado e a obediência política, ainda que seja até a morte de populações inteiras é pior que um escravagista, é um assassino em massa, um genocida. O problema não é o capitalismo, nem o socialismo, mas sim o monopólio estatal. O problema é a usurpação de todo capital natural e participação nos seus rendimentos a todas as pessoas como o devido do usufruto dos seus meios necessários à vida. Nem propriedade nem rendimentos podem ser tomados à força, nem restituídos por ela. O problema não é quem detém a propriedade, mas o como. A questão é se existe um poder centralizador que define o que é de quem, ou valores, ou se os valores e propriedades são definidos em paz por pessoas iguais em liberdade para negociar.

Quem disse que as coisas tinham, e tem que ser, deste modo senão os autoritários? Quem senão quem detém ou planeja tomar o poder pensa que não há ordem sem supremacismo? A revolução é libertação e não se concretiza sem a abolição das privações, sobretudo sem a retomada da soberania sobre sua própria vida e história. A necessidade da revolução nunca termina enquanto não se realiza o direito fundamental a autodeterminação e não só dos povos, mas de cada pessoa. Mas, em verdade a revolução sequer começa sem o movimento contra a ditadura da predeterminação. É quando deixamos de crer que as coisas devem continuar ser como são, e que finalmente podemos olhar para o espetáculo do poder como ele é: um teatro. E é neste instante que podemos descobrimos que as coisas não só não precisam continuar a ser como são, mas que sem maquiagem e o jogo de cena elas nunca foram o quê pareciam ser. Descobrimos mais: que as coisas de verdade sequer estavam lá representadas, mas sempre estiveram presentes aqui entre nós não como real ou legal, mas simplesmente como o comum e o social, naturalmente auto-organizadas e co-significadas.

Contestando o regime de predeterminação, a ditadura da preconcepção, o arcabouço da lei que dita não como as coisas são, mas como as coisas não podem ser; anulando esta ridícula pressuposição de legalidade por consentimento tácito, nu estará o rei e exposta a realidade como falácia e estado de expropriação violenta. Caído o véu do predeterminismo e preconcepção, derrubada a impossibilidade de contestação pela absurda falta de manifestação da contrariedade, não caem, por óbvio, imediatamente os prepotentes nem seu estado arrogante de violência, mas se levanta contra eles a liberdade de concepção e pensamento para o movimento em defesa da paz e da vida livre… deles.

Pela manifestação abre-se o caminho para a retomada da soberania da pessoa humana sobre seu destino e concepção de si e do mundo contra os alienistas e suas falsas representações. Claro que esta simples afirmação de vida solidária e inteligente pode não ser suficiente para dar vida para todo um novo mundo livre, mas é o que basta para por fim a desertificação artificial do poder que se afirma pela imposição da impossibilidade de qualquer outra forma de vida ou visão além da preestabelecida. Uma simples e única forma de vida obviamente não forma sozinho um ecossistema, mas abre o caminho para toda diversidade. Ainda que seja apenas como uma zona autônoma temporária.

A realidade como ditadura, isto é, a imposição de expropriação dos direitos naturais e liberdades fundamentais, não pode ser deposta sem a mobilização dos expropriados. Mas a ditadura do real, a impostura das representações dos sujeitos prepotentes como mundo necessário para os outros, esta não só pode cair com a simples retomada da consciência, como simplesmente se desfaz enquanto falsa representação absoluta do mundo pela manifestação da livre vontade onde esta jamais pode ser totalmente impedida: na concepção. A representação de poder simplesmente desaparecer como pensamento obsessivo no exato instante em que a crença no mito morre para quem, pelo simples ato de fé em si mesmo, toma coragem e pensa por conta própria. Não importa as respostas, o simples ato de despertar e questionar se o que pensa é ideia sua ou mera repetição do pensamento alheio já é em si a própria desalienação.

O questionamento das próprias concepções é o próprio movimento revolucionário permanente da consciência, o moto contínuo do espírito libertário. Pela simples emergência da consciência como fenômeno, como processo mental e espiritual de produção dos próprios entendimentos e concepções sobre si e mundo a pessoa desperta e se liberta, e mesmo que forçada ao trabalho ou inatividade, mesmo que posta em cativeiro ainda sim será uma pessoa livre. E quando livre estivermos da egrégora obsessora, eis que a pergunta se inverte: a questão não é mais como revolucionar o mundo, mas como sustentar essas ditaduras da realidade sem a preconcepção do real. Como sustentar sistemas de alienação sem alienados? Perdida a ilusão de quem carrega o mundo do outro nas costas, e até agride para defender as fronteiras e cabrestos da sua própria bestificação, quem irá defender os muros de quem não luta suas próprias batalhas? Como irá se defender aquele que mal se move para se sustentar? A liberdade de fato não é dada imediatamente a partir da consciência libertária, mas é irreversivelmente construída a cada oportunidade depois da sua auto-revelação. Uma vez vislumbrada a liberdade, a independência é apenas uma questão de tempo para que o movimento libertário tome seu lugar.

O estado de poder, o Leviatã, é acima de tudo um mito, e como mito morrerá como o medo da chuva, quando enfim a humanidade simplesmente crescer. E se ela nunca cresce toda ao mesmo tempo, isto não quer dizer que será possível adiar sua emancipação estendendo indefinidamente a infantilização como condição presumida e imposta para todos na terra como domínio- não para sempre. A paz se realiza não meramente com a abolição dos Estados, mas com o fim dos anseios e ansiedades primitivas que eles alimentam e atendem.

De fato somente com o fim da cultura primitiva de adoração ao poder, somente com o fim do culto é que desaparecem os fanáticos dispostos a sacrificar seus filhos e o dos outros em nome dos seus mitos de poder e fantasias de supremacia religiosa e nacional. Mas uma vez caído o mundo como a representação real e absoluta do poder, finda a alucinação do mundo como representação de poder, os estados distópicos se desfarão por falta de idólatras, e nosso mundo reduzido a um filme B de terror norte-americano, cheio de zumbis e violência barata acabará por falta de gente que se preste ao papel desta figuração e a bancar essa produção.

Caídas as distopias o que hoje é desqualificado como utopia, amanhã será simplesmente a atualidade. Livres, naturalmente emergirão novos protagonistas e protagonismos, mas sem a prerrogativa da autoridade ou o monopólio estes não poderão se impor contra a concorrência alheia pela violência ou privação; não poderão mais roubar as chances de competir e cooperar de quem tem mais potencial do que eles. Sem a prerrogativa de violência não poderão mais impor hipocritamente seus valores como valores e o bem de todos. Sem a anuência da violência a única coisa legítima que uma pessoa poderá fazer ao outro é o que ela pede que ele faça por ela. E quem quiser fazer alguma coisa ao outro, ou que os outros façam algo por ele, terá sempre primeiro que ouvir e dialogar com eles e não mais mandar ou se impor pela força como autoridade.

Poderes centrais se formam com ideias absolutas. E a negação de validade absoluta de qualquer ideia é a maior força protetora contra os poderes totalitários. Pela renegação ao culto ao absoluto se desfaz a idolatria do poder. E se somente com a afirmação da legítima defesa e defesa mútua contra todos os monopólios é que se protegerá os estados de paz, com a simples retomada da próprio-concepção, qualquer pessoa sozinha já se liberta da ditadura dos preconceitos. E a servidão ao mal do poder como obrigações morais disfarçadas de bem vira simplesmente pó a luz do dia. Ao dar sentido próprio para as coisas, sem aceitar qualquer pressuposição de qual é ele, ou de que não existe sentido algum porque ele não está dado, por este simples exercício da capacidade de autosignificação da existência a pessoa se liberta da obsessão do poder e encontra sua redenção na liberdade de consciência.

Claro que não estou falando de nenhum milagre da conversão dos autoritários e sociopatas a causa humanitária. Não creio e não prego uma revolução que dependa do renascimento do instinto solidário em sádicos obsessados por posse e dominação. Não acredito que a revolução se dará pela conversão ou derrubada dos piores, nem pelo protagonismo dos melhores em coisa alguma. Creio que a revolução de fato já começou e pela retomada do bom senso das pessoas que não tem pretensão de serem mais do que ninguém, e por isso mesmo já compreendem o quão insano é seguir quem tem este tipo de ânsia.

O estado de poder sempre foi ilegítimo, mas está cada vez mais visto e entendido como de fato é. E se nada perdura eternamente, dura muito menos tempo depois que perde sua validade. A revolução antes de ser um levante é a revelação, e resistência revolucionária começa antes de tudo pela retomada do poder da concepção. E conforme as pessoas vão fazendo suas próprias escolhas, ou sendo impedidos delas, conforme vão descobrindo suas possibilidades e privações, vão também se dando conta que ninguém deveria ser obrigado a fazer nada contra sua vontade, nem muito menos contra a vontade dos outros, só porque alguém mandou ou disse que isto era o certo; vão percebendo que pelo contrário é quem obriga as pessoas a fazerem coisas umas contra a vontade das outras, percebe que quem estar impedido e detido pelas pessoas de paz são eles. Quando as pessoas não acreditam mais na farsa da representação dos supremos, a cultura que sustenta o poder vai simplesmente desaparecendo por falta de cultuadores.

As verdadeiras revoluções não são projeto de poder, mas movimentos de legítima defesa da liberdade e justamente por esta causa são a reação necessária e proporcional contra a violência e libertação deste estado de privação e dominação. Não será com violência que a cultura do absoluto cairá, mas pelo fim da própria idolatria ao poder; é pelo fim do culto supremacista, a violência que o mito do poder total e representações dos Todo Poderosos decairão. Será pela deslegitimação da violência como forma de justiça, pela desculturação, desmitificação e desritualização do poder como representação real que o culto ao absoluto se findará como monopólio do mundo e a cosmopolitização emergirá como ordem libertária.

Será pelo fim do próprio pensamento idólatra, racional e crente, que os absolutos se desmancharão, e se quebrarão os códigos da predeterminação como verdades. Será pela deslegitimação dos preconceitos que condenam sistematicamente às novas gerações a eterna submissão às velhas como meros executores dos seus programas de vida que se findará a morte precoce de toda nova geração. O fim da sentença de vida e a morte das novas gerações e concepções antes que elas possam atingir a sua maturidade e encontrar o seu lugar no seu tempo, em um mundo novo. A natureza é sabia, e o velho, mesmo não querendo, mesmo o mais afetado pela síndrome de Cronos[3], simplesmente morre para dar lugar ao novo. E a pergunta revolucionária é antes de tudo consciente e autocrítica: “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais?” Ou ainda somos nós mesmos? Ou já vivemos como nossos pais?

O verdadeiro revolucionário não busca o conflito, mas a superação da sua condição artificial desnaturadamente domesticadora, dada justamente pela perenização dos conflitos e suas ameaças. Quem precisa da eterna ameaça de conflito, do terror e da deflagração das guerras, especialmente quando está perdendo o controle dos povos, é o estado disseminador da doença do medo e do ódio para vender a vacinação obrigatória da guerra e vigilância como se fosse a paz. Os verdadeiros revolucionários como libertários nunca vem para desencadear a violência, nem jamais sistematizá-la como projeto ou estado de poder, mas pelo contrário, para por um fim a toda estas prerrogativas absurdas de supremacia de violência e o monopólio sobre o bem comum para a paz e o bem de todos. O que é legítimo não é lutar pelo fim do poder ou pela imposição da liberdade como valor para os outros, mas com toda a força que for preciso, pelo direito de autopreservação, o direito natural de coexistir em acordo com sua própria consciência, o direito de poder autodeterminar seus próprios conceitos e valores sem jamais impô-los a ninguém. A revolução é libertária; é a resistência, a legítima defesa do direito natural mais sagrado, a liberdade mais fundamental: viver em paz.

Mesmo quem não entende nada, mas sabe que quem não se governa é governado, e quem não vive para revolucionar o mundo, vive para assistir sua evolução e revoluções, não espera, se levanta e anda. O libertário é antes de tudo aquele que prega a libertação pelo exemplo, o espírito liberto do culto idólatra ao poder como realidade absoluta que segue o caminho libertário não apenas com o ato ou discurso, mas com o exemplo da sua própria identidade como ato e pensamento livre. Se o autoritarismo se mantém pela alienação violenta da identidade, a revolução vem pelo princípio completamente oposto: o da tomada de consciência. Consciência não só sobre quem se é, mas do quanto não se pode ser pelo o quê está imposto como devemos ser e continuar não sendo.

A chave da revolução não é na guerra nem a vitória em batalha, mas resistência sobretudo perante a repressão constante. A resistência e quebra do condicionamento mental e comportamental ao poder disfarçado de cultura e da ditadura do real imposta como única realidade possível. Não, a violência só é legítima como defesa; só é proporcional como reação. Como ação e propaganda não é injusta e desnecessária, é o que sempre foi: destrutiva. Saiba: a violência é de fato o próprio instrumento do estado de poder e que não se realiza com sua contradição, mas se fortalece justamente pela discórdia e segregação que dissemina. Dividir e conquistar. A violência como ação é a base do culto a supremacia, é a própria essência idólatra aos estados de poder que perverte não apenas as pessoas mas os movimentos libertários e revoluções.

Entenda-se claramente, não estou pedindo que ninguém se renda a seus violentadores, nem assista de braços cruzados as pessoas sendo violadas, mas que pelo menos contrariam e que ajam antes com todos os meios disponíveis para não ter jamais que reagir em última instancia com todos os meios necessários. A força de fato só é legítima se proporcional e necessária perante o conflito deflagrado ou ameaças devidamente postas à prova. A violência só é legítima como meio de defesa e jamais como intimidação, dissuasão ou instrumento de reparação ou compensação de danos, mesmos os causados por atos de violência. A violência não repara nem compensa, só serve legitimamente para por um fim a própria violência e sua ameaça findo a agressão ou ameaça, finda-se a necessidade e portanto a legitimidade do uso proporcional da força como defesa. Uma vez encerrada a violência e ainda que reparações e compensações sejam necessárias não será pela violência ou ameaça que se fará justiça.

A ação violenta ou mesmo a ameaça como forma de coerção é prejudicial à própria causa, libertação e a constituição dos estados de paz, ou a qualquer possibilidade de reparação. Encerrado o ato violento, não pode o lesado retomar o que é seu por direito com violência desnecessária, mesmo que a outra esteja detendo sua própria vida e liberdade, seus meios vitais ou até mesmo sua pessoa se a força contra o criminoso não é necessária para recuperar seus direitos naturais, ela não é legítima. Ou em outras palavras, mesmo contra um criminoso não se pode iniciar uma agressão para fazer justiça, seja esse criminoso um ladrão de goiabas seja ele o presidente do país.

Não que o crime ou a necessidade de reparação expire com o fim da violência ou com o tempo. Enquanto houver prejudicados há necessidade de reparar ou compensar o que foi violado. Em verdade enquanto não há reparação, o crime de usurpação não apenas se perpetua, mas se reitera. Porém violência findada, finda-se a necessidade de violência, mas permanece o dano e a necessidade de justiça e reparação. E é o que foi roubado que precisa ser reavido, é o que foi danificado que precisa ser restituído e é o que foi destruído que precisa ser compensado. E a justiça não se fará com vingança impingindo danos equivalentes, mas sim com inteligência impedindo que se ganhe com qualquer coisa enquanto não se reparar os danos.

Onde todo uso da violência é proibido a todos, (incluso os estados); onde a força só pode ser usada em legítima defesa, as vítimas podem se proteger ou demandar reparação usando sua liberdade plena de associação e negociação. Num mundo onde toda violência é crime, não só os supremacistas e violentos são dissuadidos pela disposição de defesa mútua entre todas as pessoas de paz como qualquer injustiça praticada com violência, ou não pode ser reparada pelo boicote e sansões. Neste sistema não prevalece o juízo dos mais numerosos ou violentos, mas o entendimento negociado pacífica e solidariamente entre todos interessados.

Onde todo uso da violência é proibido a todos, (incluso os estados); onde a força só pode ser usada em legítima defesa, as vítimas podem se proteger ou demandar reparação usando sua liberdade plena de associação e negociação. Num mundo onde toda violência é crime, não só os supremacistas e violentos são dissuadidos pela disposição de defesa mútua entre todas as pessoas de paz como qualquer injustiça praticada com violência, ou não pode ser reparada pelo boicote e sansões. Neste sistema não prevalece o juízo dos mais numerosos ou violentos, mas o entendimento negociado pacífica e solidariamente entre todos interessados.

Sim, onde ninguém pode impor ou sustentar sua posse com ameaça ou violência, qualquer pessoa consegue se apropriar pacificamente do que quiser, mas também não consegue manter sem o reconhecido da sua propriedade pela sociedade de paz, e só a não-violência não legítima automaticamente nenhuma apropriação ou propriedade. De fato o que legítima a propriedade não é meramente a não-violência, mas o reconhecimento recíproco das pessoas de paz que a posse de cada uma não priva nem fere nenhum direitos naturais de ninguém. A sociedade não mais desintegrada do livre mercado, nem apartada do poder econômico ou político, sendo ela própria a formadora da rede de negociações pode definir não apenas o valor das coisas, positivamente, mas também negativamente, transformando em perdas e custos qualquer vantagem obtida injustamente.

Proibidas todas as agressões e garantida a plena liberdade de associação pacífica, é possível imputar todos os riscos e responsabilidades como ganhos e custos seus respectivos responsáveis. E o perigo de confronto violento se reduz a razão dos custos insustentáveis da injustiça, discriminação e violência, quando tem que ser bancados por seus autores particulares e não redistribuídos a toda sociedade pelo Estado. Evidentemente os conflitos continuam, mas no plano do estado de paz. Sua resolução terá que se dar neste estado de equilíbrio de forças e autoridades, no plano da verdadeira sociedade, por negociações e acordos ou na pior das hipóteses pelo rompimento unilateral de relações, mas jamais como agressão ou ameaça.

Em outras palavras, sem violência nenhum ato monocrático consegue se impor de fato, nem nenhuma posse ou ocupação se sustenta sem negociações e acordos de paz. Não conceda a ninguém a prerrogativa do uso da violência, e as propriedades naturais comuns e particulares se restabelecerão naturalmente de forma livremente negociada. Pode parecer que o furto e a apropriação indevida se favoreceriam onde não houver a intimidação pela violência, mas só consegue impor a vantagem criminosa quem detém a força de fato para impor a aceitação dos bens roubados, a negociação com valores impostos e a utilização de meios-de-troca forçados. É sempre o monopolizador que carece e se beneficia da violência, porque naturalmente nenhuma pessoa sozinha consegue deter todos os meios vitais ou deter sem violência todas pessoas de paz que naturalmente precisam deles.

Isto não quer dizer que os meios vitais sejam gratuitos, ou tenham que ser precificados. Quer dizer que ninguém tem autoridade para dar nem cobrar sobre seu uso. Não pertencem a ninguém em particular, mas igualmente de todos como usufruto natural. Podem ser apropriados livre e pacificamente por qualquer pessoa conforme o negociado desde que não se prive ninguém das suas necessidades ou se consuma a própria fonte do bem natural. A luz, a água, a terra e o ar e todos meios vitais são bem comuns não só porque são naturais ou necessários, mas enquanto absolutamente necessários não são naturalmente raros porque se fossem a vida não se desenvolveria sustentada por eles. Meios vitais naturais não são meros objetos de posse ou consumo, mas justamente de preservação contra a posse privadora e consumo destrutivo porque precisam ser preservados como bens suficientes para todas as pessoas. Isto é claro se o que pretendemos é a paz e não o extermínio por guerra e fome das populações de expropriados ou da própria espécie e natureza.

Mais do que a ignorância, insolidariedade ou supremacismo é necessário o próprio culto à perversidade para institucionalizar o estado de destruição dos bens naturais e rarificação artificial dos meios vitais. É necessário mais do que desnaturar a vida, é necessário cultuar o antinatural para destruir a vida e natureza e manter os sistemas de dominação das pessoas naturais e meios ambientes reduzidos a recursos até a solução final.

É preciso destruir a própria vida, roubar a alma dos seres para reduzi-los a coisas. A objetivação dos sujeitos em propriedades é mais do que um mero processo de redução conceitual ou comportamental, é um processo inconsciente de extermínio da própria humanidade e natureza pela desinteligência do fanos do poder e mania do absoluto. As guerras entre os idolatras do poder e culturas supremacistas são para o ecossistema a egrégora da própria desintegração e destruição. E esses inconscientes coletivos, egregados pela obsessão do poder são, cada um em sua trincheira, servos da mesma egrégora da discórdia, são a doença que matará não apenas a diversidade e liberdade, mas toda vida.

Por isso, se naturalmente não temos o direito de privar ninguém destes bens, seja tomando seja destruindo-os, humana, socialmente e inteligentemente deveríamos com justiça fazer o oposto do que é feito: deveríamos não só com justiça restituir os meios vitais a toda pessoa como é devido por direito natural, mas garantir que ninguém estivesse privado das suas necessidades básicas seja por causas naturais ou não. Toda pessoa que se considere livre, capaz e emancipada deveria afirmar voluntariamente sua capacidade, liberdade e independência assumindo sua responsabilidade social com a sustentação da paz e liberdade em seu próprio estado. Deveria assumir o compromisso mútuo de garantir o direito universal de todos à provisão das necessidades básicas através garantia da sua participação nos rendimentos dos bens comuns.

Para se reaver o que é naturalmente comum a todos ou de cada pessoa em particular não é necessário a violência, é necessário justamente a disposição a legítima defesa com todas as forças necessárias, sobretudo aquelas mais difíceis de mobilizar: as proativas e não-violentas capazes de neutralizar as causas da violência com antecedência e impedir a instauração da própria discórdia e deflagração do confronto como necessidade. Reagir e se defender é uma necessidade, mas só quando justamente já não há mais alternativas; esperar, portanto pelo momento do conflito enquanto tudo caminha sem buscar outros mundos possíveis seria até criminoso se esta omissão não fosse puro comodismo ou mesmo falta de inteligência. A verdadeira revolução não é reativa, mas proativa e se constitui da construção do novo mundo dentro do velho. Defender as novas gerações frente às múmias e vampiros do status quo materialista, isto sim é a ação preventiva imediata e necessária.

Claro que não estou pedindo para as novas gerações e sociedades simplesmente ocuparem pacificamente os espaços que os velhos caquéticos insistem em negar porque tomaram primeiro. Seria ingênuo contar que aqueles que um dia constituíram seu patrimônio com genocídio e sacrifício de seus próprios filhos aos seus deuses e senhores da guerra não vão, mais uma vez, queimar uma nova geração desobediente inteira aos pés dos seus ídolos. Não se engane, se preciso for eles mais uma vez colocam os jovens que nunca se viram a se matar em suas infantarias enquanto negociam a divisão do mundo em suas salas de jantar. Eles irão novamente recorrer a todo tipo de fanatismo nacionalista e religioso para apagar a luz da consciência humana renascente. Para preservar seus privilégios segregacionistas eles são capazes de fazer qualquer coisa, inclusive promulgar como bem, lei e moral, o mal, imoral e ilegal. E se me exponho assim é para pedir que, por favor, não se engane. Os supremacistas não irão deixar de se valer do seu monopólio da violência.

Não prego uma desobediência civil não-violenta que exija o sacrifício de milhares de vidas inocentes até que o custo do holocausto não valha mais a pena ao monstro estatal. Pelo contrário, defendo que as pessoas abdiquem da violência sem abdicar da legítima defesa. Não busquem o conflito, mas não deixem de lutar por seus direitos. Não se entreguem em sacrifício, mas não renunciem a sua autopreservação. Em outras palavras, que não caiam na armadilha de quem espera apenas uma justificativa para dizimá-los, mas pelo amor de deus saiam desta catarse: parem de pedir paz e liberdade a quem vive de disseminar a guerra e o poder. Parem de esperar a abolição da servidão de quem a sustenta e se sustenta dela.

Não peço que ninguém enfrente gente violenta nem saia da sua condição enquanto houver risco a sua vida ou da sua família. Não peço que ninguém se manifeste contra eles, nem os desafie a mostrar seu caráter e iniciar mais uma agressão. Não, não peço que as pessoas sejam desobedientes nem desafiadores, nem ofensivo com gente que use qualquer desculpa para ser violento. Apenas peço que acordem, e vejam como eles são e não dê a eles nada, absolutamente nada até onde puder. Façam da sua dominação o maior custo possível, façam do seu adestramento um trabalho maior que a exploração, façam da guerra uma perseguição, condição não apenas impossível de se justificar, mas do confronto um momento difícil e bem caro.

Deixe as tropas inimigas morrerem rodando a procura de quem matar, e os escravizadores exaustos de tanto mandar gente vagabunda indolente, incompetente. Façam a falsa reverencia, banquem os estúpidos, deixem que se acomodem e confortem, e rendam o inimigo quando ele estiver dormindo; sabotem, mintam, fujam, se escondam, sejam falsos, hipócritas e covardes e enganadores, e até mesmo repulsivos; mas não com seus iguais em privações, firam sem medo quem não tem personalidade, sentimento, caráter, alma, nem vida, não as pessoas, mas as corporações privadas e estatais, as egrégoras sugadoras de toda vida, traiam e desertem sempre que puderem, traiam o leviatã, traiam a besta, mas não traiam a si mesmo nem a humanidade.

Em suma, façam da sua perseguição um custo impossível e da sua dominação um prejuízo insustentável. Façam da sua condição uma condição insuportável a eles… supremacistas. Faça o possível para fazer da sua dominação um custo impossível. E se o confronto for necessário não beijem a mão que te apedreja, não tenha vergonha: grite por ajuda e defenda-se.

Não desprezem nem o moderado nem recriminem o radical. Da legítima defesa a cada pequena não-ação pela paz, todos contra o poder e violência é válido, e um passo na causa pela liberdade. Nunca é legítimo usar da violência ou ameaça para provocar mudanças nem no mundo nem nas pessoas; nem é sábio levar ninguém ao limite do confronto para despertar tais mudanças, sobretudo povos que tem costume de culpar as vítimas e sanar “danos morais” e “ofensas a moral” a força ou à bala. Mas trabalhar pró-ativamente para superar as situações ao limite, para criar novas situações que traspõem as limitações e horizontes de eventos artificiais da realidade imposta; trabalhar para superar o aparentemente inevitável e criar não o fim, mas o novo, não é apenas legítimo e produtivo, é revolucionário. Trabalhar para superar o ciclo da violência e dos conflitos e sacrifícios, trabalhar pela transcendência das causas geradoras dos estados e holocaustos, trabalhar pelo fim das privações e segregação dos discriminados e necessitados pelo fim dos ganhos sem custo dos violentadores e supremacistas, trabalhar pelo fim da redistribuição de custos da violência entre os próprios violentados, trabalhar em causa própria e não contra si mesmo simplesmente liberta. E a revolução é justamente esta: a luta da humanidade pelos direitos naturais contra a violência da estatização do bem comum para a socialização dos custos da privatização da vida alienada.

Manter o espírito e a mente livre ainda que a boca e corpo tenham que servir contra sua própria vontade é o fundamento da resistência e o mais poderoso elemento revolucionário, porque quanto mais as corporações tomam para si pessoas livres, que ainda que dominadas não se alienem, mais e mais planta dentro de seu próprio corpo as células da sua destruição. A revolução libertária é em seu coração silenciosa. No momento certo até os soldados e policiais se recusarão a atacar seus semelhantes. E como todo culto monstruoso o cairá por falta de servos, até porque os senhores da guerra e discórdia, travestida de paz nunca tiveram nem terão coragem de por o seu nas linhas de frente.

Assim como os violentos e autoritários hoje intimidam as pessoas livres e de paz, chegará o dia em que haverão tão poucos crentes no poder, tão poucos fanáticos do culto a violência que serão eles os violentos os dissuadidos por aqueles que estão dispostos a tolerar todas as ofensa, mas não a violência. A paz que constitui um novo tempo e espaço é dada pela ocupação de um território por uma rede de dissuasão da violência e do poder. Não é a perseguição dos crentes nem dos incrédulos, mas a proteção de todas as culturas e credos, sejam religiosos ou ateus, anarquistas ou estadistas enquanto ninguém impõem a ninguém sua fé ou cultura, enquanto ninguém se arroga dono do território, todos tem os mesmo direito de viver em paz.

E se o dia da independência for de fato o da libertação, a igualdade não se estabelecerá pela imposição de nenhuma outra autoridade suprema ou destruição da autoridade natural de cada pessoa. Virá sim pelo respeito recíproco e igual de cada pessoa sobre a autoridade do outro sobre seus bens particulares e de todos por seus bens comuns. A igualdade não se dará pela supremacia das forças, mas pela simetria e equilíbrio de autoridades sobre o bem comum derivadas da própria garantia das liberdades de fato para todos- não como direito artificial (positivo ou negativo), mas natural — como propriedade fundamental que de fato pertencem a todos não para serem destruídas, mas para ser usufruídos por cada pessoa como seu meio vital.

A dissuasão não funciona porque está voltada contra necessitados, porque eles não podem nem devem ser demovidos de sua justa vontade de viver. São os violentos e privadores destas necessidades que não só podem ser dissuadidos, mas devem ser demovidos de sua vontade de poder. Somente os violentadores, os agressores podem ser dissuadidos pela disposição de resistência e legítima defesa de uma sociedade livre e seu movimento libertário.

O poder de dissuasão do estado é ilegítimo porque pessoas destituídas dos seus meios vitais, não podem nem devem ser dissuadidas mas restituídas. Em verdade, no dia em que os donos do mundo e os todos poderosos tiver que se virar por conta própria, não precisarão sequer ser dissuadidos, quando os monopolizadores tiverem que se defender por conta própria seus interesses quantos deles você conhece que ficam na linha de frente para atacar? O poderoso e violento, se dissuade fácil, o invasor usurpador e agressor perde como é um covarde, é com o aliciamento e alienação dos necessitados que é preciso se preocupar. É com quem carece de liberdade e libertação que devemos nos voltar.

Por isso tudo que peço, é que não entregue a ninguém estadista ou revolucionário, religioso ou cientista o que não pode ser tomado sem o seu consentimento, a sua livre vontade e consciência. Não renuncie a sua maior liberdade: a capacidade de conceber seus próprios valores ainda que seus meios vitais estejam estatizados e privados, e seus meios de troca e comunhão sejam impostos e forçados. Sempre que puder nunca perca uma chance de devolver a César o que é de César; de se livrar de um signos do poder, quanto menos dinheiro, cargos e títulos você precisar para viver, mais livre do poder que os fabrica e distribui o será. E ainda que caminhe entre alienados ou mesmo ainda seja obrigado a servir a egrégora dos alienadores, quem não se entrega ao poder jamais perde seu espírito livre nem o caminho da liberdade.

Espíritos Libertários não se perdem, são os mundos que perdem os espíritos libertários. O novo mundo nunca chegará para todos, não ao mesmo tempo e no mesmo espaço, mas ele virá para todos no tempo e espaço de cada um, ainda que em outros planos. Porque a força criadora do espaço-tempo é o próprio movimento libertário presente em cada ser dotado de livre vontade não apenas como a anima da sua existência, mas do nexo da coexistência. Sua alma mater é em verdade a alma deste mundo e além; a alma de todos mundos possíveis que transcendem o limitado horizonte de eventos da percepção deste mundo como o arcabouço material e materialista a força criativa da livre vontade.

Governe-se.

[1] Conforme seus paradigmas.

[2] Geralmente uso a palavra cultura, com sentido negativo de culto ao status quo, ou sinônimo da doutrinação e preconcepção coletiva contra o livre pensamento, mas aqui é sinônimo de expressão estética comum a uma etnia ou população.

[3] Titã, pai de Zeus. Divindade grega do tempo, que se perpetuava devorando seus próprios filhos.

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